(...)
No
plano histórico
temos um processo que
negou a existência
dessa dimensão
psíquica e que,
além disso, operou
eficazmente para destruir
o que não era possível
negar. Estudei esse processo
analisando a correspondência
dos jesuitas no século
XVI para tentar entender
o que a catequese dos
indigenas representava
psicologicamente. Ou seja:
não era suficiente
que os índios adotassem
certos comportamentos
ou repetissem certas palavras,
era preciso levá-los
a renegar sua identidade
de origem.
Os
jesuítas foram
mestres nessa obra, sendo
capazes de criar vergonha
em corpos nus ou fazer
povos profundamente religiosos
admitirem que não
acreditavam em nada -
basta ler os relatos de
viajantes, como o do francês
Jean de Léry, para
perceber o grau de espiritualidade
e elaboração
religiosa a que chegaram
os Tupinambá, por
exemplo. Quem acompanha
com olhar crítico
as cartas jesuíticas
pode perceber como a alma
indígena é
sistematicamente solapada.
(...)
(...)
Uma
índia que se acasalasse
com um branco e fosse
batizada não era
mais considerada membro
da tribo, não havendo
portanto possibilidade
de retorno. As mulheres
batizadas perderam o vínculo
tribal e não puderam
cumprir sua missão
de transmissoras da língua,
da religião, das
narrativas míticas,
do modo de ser indígenas.
Aí, exatamente
nessa conjuntura, rompeu-se
o fio pelo qual a alma
da terra por milênios
foi transmitida de geração
a geração.
Os
conquistadores instituíram
o tupi como língua
geral, mas o Brasil tinha
mais de mil línguas!
Todas as mães de
outras procedências
culturais tiveram de abrir
mão de suas línguas,
que não seriam
transmitidas a filho algum.
Essa mãe índia
desonrada é o ventre
que gerou o povo brasileiro.
A
Grande Mãe do Brasil
é uma índia,
mas sua imagem não
consta em nossas representações
coletivas. Não
se fala dela, esse título
não lhe é
dado. Sua imagem e sua
memória desapareceram,
ela não está
na literatura, nem em
praça pública
nenhuma como efígie
patriótica merecedora
de homenagem.
Essa
mãe ainda é
desqualificada pela pedagogia
escolar, que faz pairar
sobre ela um grande véu
de ocultamento e silêncio.
Só lhe resta um
lugar que pode acolhe-la,
mesmo que desprovida de
forma e de história,
apenas como passado soterrado
- e esse lugar é
o inconsciente brasileiro,
onde essa mãe,
esses milhões de
mães ignoradas
permanecerão anônimas
até que o sentido
de sua existência
e de sua marca possam
ser reconhecidos por um
olhar liberto de projeções.
(...)
A
grande questão
é que, de um modo
ou de outro, somos fruto
desse processo. Um processo
que estruturou uma consciencia,
um modo de ser, pensar
e agir, da qual somos
portadores e representantes,
queiramos ou não,
e da qual um passado riquíssimo
foi extirpado, dissociando-se
de um todo do qual no
entanto deveria fazer
parte integral e complementar.
Ficamos,
então, com uma
caricatura para crianças
de escola, um desenho
estilizado daquilo que
poderia ter sido; ficamos,
assim com nossa consciencia
coletiva, com a idéia
de que afinal somos o
produto de uma fusão
de raças e que,
na nossa cultura de hoje,
esse passado foi incorporado
nos moldes da famosa "contribuição
indígena",
que seria representada
pela adoção
de certos métodos
agrícolas, certas
técnicas arquitetônicas,
a rede, a esteira, o pote
de barro, a mandioca,
os nomes em tupi-guarani,
um pouco de folclore,
um pouco de pele morena
e de cabelo preto, etc.
Poderíamos,
então, superiormente
dizer "Sim, tivemos
uma fusão genética,
que gerou aliás
uma raça reconhecidamente
bela, tivemos um processo
de assimilação
cultural, uma fusão
biológica..."
- mas não tivemos
uma fusão profunda
no nível psicológico.
Nesse nível, o
que de fato ocorreu foi
a sobreposição
de um estilo de consciência,
de um modo de funcionar
conscientemente, sobre
outro.
Esses
temas caracterizam um
drama da consciencia brasileira
moderna, uma tarefa da
qual não podemos
fugir se pretendemos o
amadurecimento ou a evolução
de nossa marca digital
por meio de um trabalho
de reparação
e resgate, de reintegração,
de superação
da condição
dissociada.
Os
batalhadores da causa
indígena lutam
pela reparação,
ou seja, a devolução
da terra e dos direitos
sobre ela, da cidadania
e da dignidade, ou, minimamente,
o reconhecimento do Outro
enquanto tal, sem que
este precise deixar de
ser o que é para
poder ser aceito na sociedade
brasileira. Esta é
uma luta em curso, dificílima
de ser vencida - uma luta
de reparação.
Mas
também falta o
resgate. Olhar para trás
e ver o que foi perdido,
destruído ou maltratado
e, por meio de uma percepção
valorativa positiva, criar
o desejo ou a decisão
de encará-lo com
novos olhos e trabalhar
para que seja reintroduzido
no lugar de onde foi retirado.
Esse movimento é
incipiente, mas não
há por que imaginar
que não possa se
desenvolver.
Se
nos predispusermos à
recepção
não preconceituosa
da psique indígena,
e de tudo o que ela representa
neste momento de crise
dos valores ditos modernos,
estaremos trabalhando
para introduzir em nossa
consciência de hoje
a alteridade radical,
uma lógica que
nos é desconhecida,
uma estética nova,
uma espiritualidade que
não conhecemos,
uma percepção,
uma sensibilidade, um
modo de ser que ignoramos.
(...)
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