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Espelho Índio
Roberto Gambini
Trechos do livro: Espelho Índio - A Formação da Alma Brasileira

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No plano histórico temos um processo que negou a existência dessa dimensão psíquica e que, além disso, operou eficazmente para destruir o que não era possível negar. Estudei esse processo analisando a correspondência dos jesuitas no século XVI para tentar entender o que a catequese dos indigenas representava psicologicamente. Ou seja: não era suficiente que os índios adotassem certos comportamentos ou repetissem certas palavras, era preciso levá-los a renegar sua identidade de origem.

Os jesuítas foram mestres nessa obra, sendo capazes de criar vergonha em corpos nus ou fazer povos profundamente religiosos admitirem que não acreditavam em nada - basta ler os relatos de viajantes, como o do francês Jean de Léry, para perceber o grau de espiritualidade e elaboração religiosa a que chegaram os Tupinambá, por exemplo. Quem acompanha com olhar crítico as cartas jesuíticas pode perceber como a alma indígena é sistematicamente solapada.

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Uma índia que se acasalasse com um branco e fosse batizada não era mais considerada membro da tribo, não havendo portanto possibilidade de retorno. As mulheres batizadas perderam o vínculo tribal e não puderam cumprir sua missão de transmissoras da língua, da religião, das narrativas míticas, do modo de ser indígenas. Aí, exatamente nessa conjuntura, rompeu-se o fio pelo qual a alma da terra por milênios foi transmitida de geração a geração.

Os conquistadores instituíram o tupi como língua geral, mas o Brasil tinha mais de mil línguas! Todas as mães de outras procedências culturais tiveram de abrir mão de suas línguas, que não seriam transmitidas a filho algum. Essa mãe índia desonrada é o ventre que gerou o povo brasileiro.

A Grande Mãe do Brasil é uma índia, mas sua imagem não consta em nossas representações coletivas. Não se fala dela, esse título não lhe é dado. Sua imagem e sua memória desapareceram, ela não está na literatura, nem em praça pública nenhuma como efígie patriótica merecedora de homenagem.

Essa mãe ainda é desqualificada pela pedagogia escolar, que faz pairar sobre ela um grande véu de ocultamento e silêncio. Só lhe resta um lugar que pode acolhe-la, mesmo que desprovida de forma e de história, apenas como passado soterrado - e esse lugar é o inconsciente brasileiro, onde essa mãe, esses milhões de mães ignoradas permanecerão anônimas até que o sentido de sua existência e de sua marca possam ser reconhecidos por um olhar liberto de projeções.

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A grande questão é que, de um modo ou de outro, somos fruto desse processo. Um processo que estruturou uma consciencia, um modo de ser, pensar e agir, da qual somos portadores e representantes, queiramos ou não, e da qual um passado riquíssimo foi extirpado, dissociando-se de um todo do qual no entanto deveria fazer parte integral e complementar.

Ficamos, então, com uma caricatura para crianças de escola, um desenho estilizado daquilo que poderia ter sido; ficamos, assim com nossa consciencia coletiva, com a idéia de que afinal somos o produto de uma fusão de raças e que, na nossa cultura de hoje, esse passado foi incorporado nos moldes da famosa "contribuição indígena", que seria representada pela adoção de certos métodos agrícolas, certas técnicas arquitetônicas, a rede, a esteira, o pote de barro, a mandioca, os nomes em tupi-guarani, um pouco de folclore, um pouco de pele morena e de cabelo preto, etc.

Poderíamos, então, superiormente dizer "Sim, tivemos uma fusão genética, que gerou aliás uma raça reconhecidamente bela, tivemos um processo de assimilação cultural, uma fusão biológica..." - mas não tivemos uma fusão profunda no nível psicológico. Nesse nível, o que de fato ocorreu foi a sobreposição de um estilo de consciência, de um modo de funcionar conscientemente, sobre outro.

Esses temas caracterizam um drama da consciencia brasileira moderna, uma tarefa da qual não podemos fugir se pretendemos o amadurecimento ou a evolução de nossa marca digital por meio de um trabalho de reparação e resgate, de reintegração, de superação da condição dissociada.

Os batalhadores da causa indígena lutam pela reparação, ou seja, a devolução da terra e dos direitos sobre ela, da cidadania e da dignidade, ou, minimamente, o reconhecimento do Outro enquanto tal, sem que este precise deixar de ser o que é para poder ser aceito na sociedade brasileira. Esta é uma luta em curso, dificílima de ser vencida - uma luta de reparação.

Mas também falta o resgate. Olhar para trás e ver o que foi perdido, destruído ou maltratado e, por meio de uma percepção valorativa positiva, criar o desejo ou a decisão de encará-lo com novos olhos e trabalhar para que seja reintroduzido no lugar de onde foi retirado. Esse movimento é incipiente, mas não há por que imaginar que não possa se desenvolver.

Se nos predispusermos à recepção não preconceituosa da psique indígena, e de tudo o que ela representa neste momento de crise dos valores ditos modernos, estaremos trabalhando para introduzir em nossa consciência de hoje a alteridade radical, uma lógica que nos é desconhecida, uma estética nova, uma espiritualidade que não conhecemos, uma percepção, uma sensibilidade, um modo de ser que ignoramos.

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