|
Espero, convencido de que chegará
o tempo em que, passada a estupefação
em face da queda do muro de
Berlim, o mundo se refará
e recusará a ditadura
do mercado, fundada na perversidade
de sua ética do lucro.
Não
creio que as mulheres e os homens
do mundo, independentemente
até de suas opções
políticas, mas sabendo-se
e assumindo-se como mulheres
e homens, como gente, não
aprofundem o que hoje já
existe como uma espécie
de mal-estar que se generaliza
em face da maldade neoliberal.
Mal-estar que terminará
por consolidar-se numa rebeldia
nova em que a palavra crítica,
o discurso humanista, o compromisso
solidário, a denúncia
veemente da negação
do homem e da mulher e o anúncio
de um mundo "genteficado"
serão armas de incalculável
alcance.
Há
um século e meio Marx
e Engels gritavam em favor da
união das classes trabalhadoras
do mundo contra sua espoliação.
Agora, necessária e urgente
se fazem a união e a
rebelião das gentes contra
a ameaça que nos atinge,
a da negação de
nós mesmos como seres
humanos submetidos à
"fereza" da ética
do mercado.

Pedagogia
do oprimido é, na minha opinião,
a obra-prima de Paulo Freire.
Nesses últimos quinze anos tenho
trabalhado ativamente em educação
popular, e aquela tem sido a minha
principal obra de referência.
Ela provocou, em mim e em muitos
outros educadores, uma verdadeira
revolução copernicana em matéria
educativa. Fez-nos ver que não
há culturas diferentes. E que
o oprimido, quando educando, pode
não saber exatamente o que sabe
o educador e, em geral, porta
valores que a educação burguesa,
bancária, degenera naqueles que,
como eu, foram formados por ela.
Daí a importância de, no trabalho
popular, o educador deixar-se
educar pelos educandos. Deve haver
uma interação permanente entre
educadores e educandos, de tal
modo que a própria função possa
se inverter em constante alternância.
Na teoria, estamos todos de
acordo. Mas é também verdade
que, malgrado esta obra mestra
de Paulo Freire, muitos educadores
que enchem a boca de propósitos
libertadores continuam a praticar
a pedagogia opressora, num direcionamento
nem sempre sutil, como se os
conceitos cartesianos possuíssem
a chave da História. Daí a importância,
atualíssima, desta obra de Paulo
Freire, este sim um aprendiz
obstinado neste vasto território
da educação, onde tantos se
arvoram em mestres
(Frei Betto, teólogo e escritor).
|