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Agora,
estou ocupado em deflagrar
um processo cultural que
chamo de Revolução Atlântica
- que evoluirá procurando
as raízes estéticas de
um mundo novo, separando
o problema político do
problema estético e explicando
claramente que a função
política da estética é
a educação espiritual.
E esta educação espiritual
ultrapassa a objetividade
matemática, o materialismo
imediato, ainda que não
subestime os probelmas
normais e cotidianos da
responsabilidade política
que cercam o artista.
Hoje, o meu período vulcânico
acabou. Eu estou numa
fase transcendental. porque
compreendo as coisas num
domínio mais vasto e mais
democrático. É uma descoberta.
Na verdade, eu ainda estou
tentando fazer a descoberta
- mas já tenho a disposição
de lançar as caravelas
e os barcos no mar.
(...)
O
Brasil é esta grande semente
plantada por Dom Manuel,
o venturoso, para além
dos mares nunca dantes
navegados. A África se
converteu em colônia portuguesa,
sofreu o processo colonialista
e se libertou. Hoje, a
África independente -
África dita portuguesa
- pouco tem a ver com
Portugal. Mas o Brasil
tem. O Brasil é a feijoada.
O Brasil é onde se mistura
tudo. É onde se mistura
o negro com o branco e
o índio, o catolicismo
com todas as espécies
de religião. Uma civilização
luso-afro-tropical eclodiu
como efeito do sonho do
Infante Dom Henrique.
(...)
Continuo
fechado com minhas posições
de um cinema terceiro-mundista.
Um cinema independente
do ponto de vista econômico
e artístico. Um cinema
que não deixa a criatividade
estética desaparecer em
nome de uma objetividade
comercial e de um imediatismo
político. Não há vantagem
alguma em fazer filmes
de conteúdo revolucionário
se, na forma, você imita
a nouvelle vague francesa,
o expressionismo alemão
ou o comercialismo norte
americano. O problema
dos cineastas do terceiro
mundo é encontrar um estilo
próprio. Eis o triunfo
do artista. Porque há
um corpo literário e há
os artistas. O que faz
de Eça de Queiroz um grande
esritor é que ele é um
estilista específico do
português - e, nesse domínio,
ele é igual ou superior
a Gustave Flaubert ou
Marcell Proust. É aí que
fica a grandeza da literatura.
Ela é popular e revolucionária.
Os críticos de arte, os
críticos de cinema deveriam
entender. Querer reduzir
o artista a um propagandista
e a um imediatismo comercialista
é um erro, porque, para
fazer o trabalho do comércio
vulgar ou de propaganda
imediata, já existem milhões
de pessoas. Os artistas
são seres especiais que
enxergaram a luz dentro
do processo histórico.
Então, eu defendo a estratégia
da criatividade global
e democrática e a tática
da criatividade intelectual.
Isto é: uma estratégia
de conquista do mercado
e do desenvolvimento industrial
e uma tática de revelações
pessoais.
(...)
Já
não sou um cineasta. Ser
cineasta, para mim, é
apenas uma atividade intelectual.
Já não sou um cineasta
profissional. Em 1970,
ninguém entendeu quando,
depois de minha consagração
mundial, eu fechei minha
empresa de produção no
Brasil e me tornei um
intelectual independente.
Eu estou ligado no espírito
de Jean Cocteau. Sou poeta,
escritor, crítico, pintor
também - se bem que não
tenha ainda mostrado nem
meus desenhos nem minha
pintura - e sou músico.
Faço cinema porque o cinema
é a síntese das artes.
Mas ser cineasta hoje
é uma coisa lamentável.
O ambiente intelectual
do cinema foi corrompido
pelo comercialismo. Então,
hoje, eu me defino como
um intelectual independente
que, entre outras coisas,
faz cinema. Mas posso
encenar uma peça de teatro,
abrir um consultório de
psicanálise ou me tornar
um conferencista literário.
Fiz televisão no Brasil.
O intelectual moderno
é um comunicador múltiplo.
A época dos especialistas
acabou.
(...)
Somos
todos cineastas, segundo
Freud. Faço filmes a partir
de minha pulsões inconscientes.
Faço filmes para não morrer
de dor. Todos os meus
personagens são monstros
nascidos entre a dor e
a desesperança. Não sou
um metteur en scène. Sou
um poeta que se exprime
através da literatura
e, através da técnica
cinematográfica, meus
sonhos explodem no cinema.

"A revolução,
como possessão do homem
que lança sua vida rumo
a uma idéia,
é o mais alto astral do
misticismo."
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