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Parentesco com as coisas
Carl Gustav Jung



O mundo no qual penetramos pelo nascimento é brutal, cruel e, ao mesmo tempo, de uma beleza divina.

Achar que a vida tem ou não sentido é uma questão de temperamento. Se o não-sentido prevalescesse de maneira absoluta, o aspecto racional da vida desapareceria gradualmente, com a evolução. Não parece ser isso o que ocorre. Como em toda questão metafísica, as duas alternativas são provavelmente verdadeiras: a vida tem e não tem sentido, ou então possui e não possui significado.

Espero ansiosamente que o sentido prevalesça e ganhe a batalha.

Quando Lao-Tsé diz: "Todos os seres são claros, só eu sou turvo", exprime o que sinto em minha idade avançada.

Lao-Tsé é o exemplo do homem de sabedoria superior que viu e fez a experiência do valor da vida e do não valor, e que no fim da vida deseja voltar a seu próprio ser, no sentido eterno e incognoscível.

O arquétipo do homem idoso que contemplou suficientemente a vida é eternamente verdadeiro; em todos os níveis da inteligência, esse tipo aparece e é muito semelhante, quer se trate de um camponês ou de um grande filósofo como Lao-Tsé.

Assim, a idade avançada é uma limitação, um estreitamento. E no entanto acrescentou em mim tantas coisas: as plantas, os animais, as nuvens, o dia e a noite e o eterno no humano.

Quanto mais se acentuou a incerteza em relação a mim mesmo, mais aumentou meu sentimento de parentesco com as coisas.

É como se essa estranheza que há tanto tempo me separava do mundo tivesse agora se interiorizado, revelando uma dimensão desconhecida e inesperada de mim mesmo.

 

 

 

 

 

 


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