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Educação Tupi-Guarani
Kaká Wera Jecupé
Trecho de entrevista do vídeo ´Dando Voz às Crianças´ de Evelyn Zayden


(...)

O reconhecimento de que a terra é viva, de que a água é viva, as pedras, o reino vegetal, animal, de que são vivos, são possuidores de consciência... vamos então apresentar para as crianças esses seres, e a própria natureza em si, enquanto nossos ancestrais.

Esses elementos vão sendo apresentados para as crianças como parentes, como avós, como anciões. E essa apresentação vai se dando através de uma simples feitura de um artesanato, onde um símbolo representa um determinado ser; um simples aprendizado de uma música, onde um verso, uma estrofe diz que o vento é nosso ancestral, que o sol é nosso avô, que a lua é nossa avó, que a terra é nossa mãe. Isso então vai sendo introjetado naturalmente pelos meios sensíveis de aprendizado.

Na tradição Guarani tem um costume que diz que quando uma criança está brincando, é deus que está movimentando, é deus que está se manifestando. Então existe uma relação muito íntima e muito natural dos velhos com as crianças.

Se reconhece nas crianças a presença divina. Se há uma maneira de perceber deus é através das crianças. E é um princípio que não é só filosófico, é um princípio que está arraigado na cultura. O modo de vida também do cotidiano vai, de alguma maneira, preservar na criança essa capacidade de ser o que ela é. Não se antecipa as coisas, não se antecipa os ritmos. Não se apressa o rio.

Se ela vai aprender a entender o mundo, a escrever, a ler, ela vai aprender no tempo dela. Não vai ser no tempo antes nem no tempo depois, vai ser no tempo dela. Porque se reconhece o tempo em que a alma dela está pronta para determinado aprendizado, e assim ela vai sendo conduzida de acordo com a respiração de cada ciclo.

Uma criança indígena, quando nasce, ela vai conviver com vários pais, com várias mães, com um processo de aprendizagem que é vivencial, que é interativo, que é integrativo. Quando uma criança nasce, principalmente nos primeiros anos, ela é considerada um professor, porque na visão indígena, ela traz ainda fresca a memória do mundo espiritual.

(...)

A cultura indígena é vivencial. Não é uma cultura que passa através da transmissão de uma pessoa que fala e os outros escutam. A cultura indígena é vivencial porque ela integra o trabalho com o corpo, com o movimento, com o canto. E é através desse conjunto que é passada a cultura.

A cultura indígena não acredita em deus - ela vive deus.

(...)

 



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