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"Do
ponto de vista tanto das vacas
como das pessoas, prefiro ser
uma vaca sagrada a uma vaca
louca"
Vandana Shiva atualiza os guerreiros
da mitologia indiana. Física
e filósofa, ela filtra conhecimentos
ancestrais direcionando-os para
ações diretas, criando e reforçando
os argumentos dos ativistas
anti-globalização – via de regra
recebidos a bastonadas. No último
encontro do Fórum Internacional
sobre Globalização, Vandana
Shiva, indignada contra a desinformação
de alguns jornalistas e as más
intenções da mídia, desqualificou
veementemente em público com
argumentos irrefutáveis duas
das revistas semanais americanas
mais importantes. Foi só o complemento
da potência de um discurso vibrátil,
a serviço do desenvolvimento
sustentado, da justiça social
e da biodiversidade, e visceralmente
contra a visão reducionista
da natureza.
Como diretora da Fundação de
Pesquisa Sobre Ciência, Tecnologia
e Política de Recursos Naturais
de Nova Déli, Vandana Shiva
ilumina a relação entre engenharia
genética e a ascenção do paradigma
reducionista na biologia, com
desdobramentos diretos na esfera
informacional, ambiental e cultural.
Para Vandana Shiva, o reducionismo
em biologia é multifacetado,
desvaloriza várias formas de
conhecimentos e de sistemas
éticos deslocados dos parâmetros
ocidentais e acabou extrapolando
para outras esferas do conhecimento
a partir do discurso "competente"
dos cientistas. Pode-se identificar
uma primeira ordem reducionista,
aquela das espécies. Aqui o
reducionismo valoriza somente
uma espécie – os humanos – e
gera um valor instrumental para
todas as outras. Conseqüências:
"Monoculturas das espécies e
erosão da biodiversidade...
especialmente quando aplicadas
às florestas, agricultura e
pesca". Segunda ordem reducionista,
ou reducionismo genético:
redução da riqueza comportamental
biológica, a dos humanos inclusa,
à dimensão genética. A fórmula
vida=genes amplia os
riscos ecológicos da primeira
ordem e introduz novas questões,
como o patenteamento de formas
de vidas.
Hierarquia e desigualdade foram
"naturalizadas", segundo Vandana
Shiva, e o reducionismo foi
escolhido como o paradigma preferencial
para o controle econômico e
político da diversidade na natureza
e na sociedade. A conclusão
é que o determinismo genético
e o reducionismo genético caminham
de mãos dadas:
O reducionismo em que se baseia
a engenharia genética é epistemológica
e socialmente perigoso. Epistemologicamente,
porque cria um quadro muito
simplificado de "o que é a vida".
A engenharia genética perpetua
a visão mecanicista dos organismos
biológicos, nos quais os genes
e o DNA são concebidos como
átomos biológicos, os tijolos
da vida. Presume-se que os genes
são os únicos responsáveis pelas
propriedades fisiológicas e
morfológicas das formas de vida.
No entanto, o DNA é uma molécula
morta – ele não tem nenhum poder
de reproduzir-se ou de determinar
qualidades e características.
O que é responsável pelo poder
de reprodução dos organismos
vivos e suas distintas características
é sua capacidade de se organizar
em interação complexa, tanto
interna quanto externamente
com o ambiente. Em segundo lugar,
ao excluir as interações e relações
entre organismos e ambiente,
e entre os próprios organismos,
o paradigma reducionista exclui
qualquer preocupação com as
implicações ecológicas da engenharia
genética... (Shiva apud Garcia
dos Santos, in Caderno Mais,
Folha de S.Paulo, 1996,
p.5-6).
E na medida em que evoluíram
as pesquisas genéticas, o modelo
mecanicista acompanhou a evolução,
até chegarmos ao Projeto Genoma.
"Em vez de canhoneiras em busca
de terra e ouro, temos os bioprospectors
buscando biodiversidade; em
vez da bula papal de 1492, temos
o regime de patentes ditado
pela Organização Mundial do
Comércio; em vez de Colombo,
temos as corporações transnacionais.
A nova pirataria é a segunda
'descoberta' da América por
Colombo. Os métodos são mais
sofisticados. Os impactos não
são menos brutais", conclui
Shiva (Shiva apud Garcia dos
Santos, 1996b, p.5-6.).
Quem quer que se levante diante
do processo reducionista, resistindo
contra a colonização da própria
vida, assim como o futuro das
tradições das culturas primitivas
– e da biodiversidade cultural
e biológica – e tente buscar
outra alternativa, é taxado
imediatamente de obscurantista,
comparado aos inquisidores medievais
e relegado ao limbo reservado
aos pessimistas e aos obstaculizadores
da ciência. Vandana Shiva definiu-o
impecavelmente como as monoculturas
da mente, uma metáfora oriunda
da prática agrícola e florestal
da monocultura, que separa "cientificamente"
os domínios florestais dos agrícolas
e privilegia, na floresta, a
retirada de madeira e na agricultura,
o cultivo de um único produto.
A monocultura, ao promover o
desaparecimento da diversidade
na nossa percepção, elimina-a
do próprio mundo.
..........................................................................................
Entrevista concedida por
Vandana Shiva a Scott London
para a “Insight – an Outlook”
(www.scottlondon.com/insight/index.html), programa semanal da National Public Radio dos EUA e da Radio
For Peace International. A série
foi produzida na KCBX em San
Luis Obispo, California.
SL:
Vandana Shiva, uma das mais
respeitadas cientistas e ativistas
da Índia, é uma das líderes
dos movimentos de defesa da
sustentabilidade ambiental e
justiça social. Ela coordena
uma vasta gama de grupos populares
e rurais, incluindo iniciativas
de ampla divulgação para a preservação
das florestas da Índia, programas
sobre a biodiversidade dirigidos
a diferentes coletividades,
e campanhas que contam com uma
ampla base de apoio contra o
Banco Mundial. Uma grande parte
do seu trabalho tem como alvo
um certo tipo de desenvolvimento,
e é a favor de sistemas de participação
centrados no indivíduo. Ela
também obteve uma considerável
notoriedade no Ocidente, principalmente
como escritora especializada
em questões relativas à economia
global e seus efeitos nas sociedades
tradicionais. Ela escreveu mais
de uma dúzia de livros, incluindo
"Monocultures of the Mind" (Monoculturas
da Mente), "Staying Alive" (Permanecendo
Vivos), "Women, Ecology, and
Development" (Mulheres, Ecologia
e Desenvolvimento). Em 1993,
ela recebeu o prestigioso prêmio
Right Livelihood Award, também
conhecido como o Prêmio Nobel
alternativo. Quando conversei
com ela, durante uma sua recente
visita aos Estados Unidos, perguntei
como o treinamento que ela recebeu
como física e filósofa da ciência
conduziram ao trabalho que ela
está desenvolvendo atualmente,
com relação a questões relativas
à mulher, aos problemas sociais
e ambientais.
VS:
Eu estudei Física devido ao
meu amor pela natureza; é aquilo
que nos ensinam, quando somos
jovens estudantes, que esse
é o caminho para conhecer a
natureza. Portanto, minhas explorações
através da Física, na realidade,
têm as mesmas margens das minhas
viagens pela Ecologia, agora.
Elas não são diferentes, na
verdade. Com exceção do fato
que há uma dimensão adicional
de assistir a destruição ecológica,
ver as próprias formas de sustento
da vida, que nos permitem sobreviver
nesse planeta, serem destruídas,
e isso é o que me leva a fazer
mais do que uma simples pesquisa
ou indagação científica, isso
é o que me faz me sentir compelida
a agir e a intervir. Eu sou
uma mulher. Filha de uma feminista.
E neta de um avô feminista,
e não acho que poderia ter evitado
de me envolver nas questões
da mulher. Não faço isso como
uma espécie de carreira, ou
profissão ou existência organizacional.
É a minha própria essência de
ser um ser humano. E quando
me deparo com demasiados quebra-cabeças
quanto ao modo como as explicações
são fornecidas, quanto ao porque
da existência de desigualdades,
ao porque justamente as pessoas
que, nesse mundo, dão o mais
duro no trabalho são aquelas
que acabam ficando mais pobres…
simplesmente, não posso me omitir
e deixar de tentar compreender
porque as disparidades entre
as pessoas estão aumentando,
porque há mais pessoas sem teto,
mais pessoas com fome no mundo,
e todas essas questões de justiça,
de ecologia, de indagação científica
da natureza através da Física,
na minha opinião, vêm das mesmas
es que mobilizam o meu espírito.
Num certo sentido, eu realmente
não mudei, apenas continuei
o meu percurso, na mesma estrada.
SL:
É pouco comum para uma mulher
da Índia se interessar pela
Física e seguir um doutorado
neste campo? Você foi uma exceção,
nesse sentido?
VS:
Eu era pouco comum, e de fato,
ainda não posso imaginar o que
me inspirou para estudar Física.
Porém, desde os meus 9 ou 10
anos de idade, eu queria ser
física. Eu queria ser como o
Einstein. Ele era o meu herói.
Eu não conhecia nenhum físico.
Eu não conhecia nenhum cientista.
Fui a uma escola de freiras
que não oferecia Matemática
ou Física avançadas. E eu me
auto-ensinei essas matérias
para poder entrar na Universidade.
Mas acho que, como eu estava
interessada em Física, foi mais
fácil para mim estudar Física
na Índia. Acho que as estruturas
de exclusão são construídas
mais sistematicamente na sociedade
americana, por exemplo, de modo
que as jovens estudantes interessadas
em ciência acabam perdendo a
própria confiança com o tempo.
E as estruturas de exclusão
funcionam contra elas. Nós (na
Índia) temos outras estruturas
de exclusão, mas não temos essas
estruturas de exclusão com relação
ao conhecimento científico moderno.
Portanto, se uma mulher é capaz
de seguir nessa direção, ninguém
vai bloqueá-la em sua carreira.
Ninguém define essa carreira
como algo de inapropriado para
a mulher. E, de certo modo,
há mais mulheres que são matemáticas,
doutoras, cientistas na Índia
do que aqui nos EUA – mulheres
em profissões que… aqui são
de acesso mais difícil para
as mulheres. Nós até já tivemos
uma mulher chefe de Estado.
É algo que esta sociedade ainda
precisa alcançar.
SL:
É verdade. Então, você fez um
mestrado em Física e, depois,
prosseguiu com um doutorado
em Filosofia da Ciência.
VS:
Prossegui interessada nos fundamentos
da Teoria Quântica. Tinha começado
como física nuclear. E fiquei
mais sensibilizada com as implicações
de um sistema nuclear relativas
ao meio-ambiente e à saúde,
e apesar do fato que eu estivesse
sendo treinada para ser a primeira
mulher trabalhando num reator
criador rápido na Índia — e
eu me encontrava naquele reator
justamente na primeira vez que
ele passou por um momento crítico
— e foi muito excitante… esse
tipo de cisão entre o aspecto
de segurança do sistema nuclear
e a excitação intelectual… não
podia me sentir à vontade com
aquilo. Assim, passei a me dedicar
à Física Teórica. Cursei meu
mestrado em Partículas Elementares,
mas os fundamentos de Partículas
Elementares são a Teoria Quântica,
e havia problemas conceituais
em demasia com relação à Teoria
Quântica, para poder estar à
vontade. Portanto, decidi….
trabalhar nos fundamentos da
Teoria Quântica… e foi nessa
área que fiz meu Ph.D. Nunca
abandonei a Física por achá-la
entediante. Deixei a Física
porque outras questões se tornaram
mais importantes. Sempre digo
a mim mesma… e tenho 60 anos…
gostaria de voltar àquilo que
interrompi.
SL:
Quais foram algumas das questões
que a compeliam, naquela época?
VS:
No começo… a primeira questão
que me compelia era uma ruptura
muito estranha entre o fato
que a Índia tinha um nível de
desenvolvimento científico muito
alto… Estávamos em terceiro
lugar, no mundo, quanto ao número
de cientistas e, apesar disso…
a pobreza assustadora, e a equação
linear que tinha sido feita,
de que quanto mais ciência,
maior seria o progresso, a eliminação
da pobreza… Porque isso não
estava ocorrendo? Algo estava
errado. Algo era diferente.
Dessa forma, a compreensão do
contexto social da ciência e
da tecnologia começou a se tornar
um de meus imperativos. O outro
era o fato que, nas áreas onde
eu tinha crescido e me criado,
na Floresta do Himalaia, estava
florescendo um movimento, chamado
o "movimento de Chipko", no
qual mulheres camponesas se
manifestavam, abraçavam árvores,
impedindo que as mesmas fossem
derrubadas; meu pai tinha sido
um profissional da floresta.
Eu tinha me criado naquelas
montanhas. Eu tinha visto a
floresta desaparecer. Eu tinha
visto córregos desaparecerem
e eu, literalmente, acabei me
atirando nesse movimento com
as mulheres camponesas, começando
a trabalhar com elas, tendo
elas como minhas professoras
em termos daquilo que a floresta
significa, para uma mulher rural
da Índia, em termos de lenha
e remédios econômicos extraídos
das plantas, além de todo os
ricos conhecimentos. Ficou muito
claro que meu pai, que era um
trabalhador da floresta com
treinamento científico, conhecia
algo sobre o assunto, mas essas
mulheres conheciam a fundo todos
os cantos do seu ecossistema
local. E sabiam muito mais sobre
a diversidade local do que qualquer
silvícola treinado jamais poderia
saber. Portanto, eu aprendi
com elas e trabalhei para elas.
Eu escrevia os seus relatórios.
Eu escrevia os seus contra-relatórios
e é isso que me fez deixar o
ensino universitário, começar
um instituto chamado The Research
Foundation for Science, Technology
and Natural Resource Policy
(Fundação de Pesquisa para a
Política da Ciência, Tecnologia
e Recursos Naturais). Um nome
muito longo para um objetivo
muito humilde, que é o de colocar
a pesquisa efetivamente a serviço
dos movimentos populares e rurais,
e não apenas fazer de conta
de servi-los. Não a serviço
do faz-de-conta da sociedade.
A pesquisa de governo já trabalha
nesse sentido. Toda a pesquisa
privada já trabalha nesse sentido.
E eu vi se materializarem idéias,
vi questões brilhantes surgirem
desses movimentos, que precisavam
de melhor articulação, que precisavam
de elaboração, de análises mais
sistemáticas. Foi o caminho
que segui. E tem sido uma verdadeira
aventura.
SL:
O interessante é que muito dessa
ênfase, hoje em dia, no crescimento
e desenvolvimento e progresso
em geral, baseia-se na ciência
e no pensamento científico.
Embora você seja formada nessa
área, você está se dedicando
às alternativas a essas opções.
VS:
 |
Bem, minha formação científica é, na realidade, uma formação
muito crítica com relação à
ciência mecanicista. A minha
formação é em Teoria Quântica,
a qual estava, já no começo
do século, - tivemos todo um
século — atrasada, de certa
forma… absorvendo as transições
súbitas que a Teoria Quântica
provocava na mente humana. A
idéia que as coisas, os objetos
têm propriedades intrínsecas,
de maneiras fixas, é uma idéia
incorreta sobre o mundo. As
propriedades são criadas através
de relacionamentos e forças.
Elas não são inerentes. Nos
elétrons, de fótons, de quanta,
assim como nas árvores, nos
solos, e nas pessoas. Portanto,
a minha crítica de uma ciência
moderna que é reducionista,
que é muito mecanicista é, na
verdade, uma crítica que herdei
de minha formação científica.
Ela se aprofundou com minha
experiência, com o modo como
está ocorrendo a destruição
ecológica. A minha evolução
como ecologista e a minha leitura
desse fato é basicamente a de
que as estruturas dominantes
da ciência são extremamente
boas com relação a muitos objetos
que têm funções únicas e objetivos
externos. Assim, se você quiser
que uma vaca deixe de ser uma
vaca, para ser uma máquina de
leite, podemos fazer um trabalho
muito bom, criando novos hormônios,
como o hormônio de crescimento
dos bovinos. Isso poderá deixar
a vaca muito doente, isso poderá
deixar a vaca viciada em drogas,
poderá até causar pânico nos
consumidores quanto aos aspectos
da saúde e segurança do leite
produzido, mas estamos tão habituados
a manipular objetos, organismos
e ecossistemas para obter um
único objetivo, que eu chamo
de "Monocultura da Mente", e
dentro do âmbito das monoculturas,
naturalmente, isso parece muito
inteligente. Mas na dimensão
múltipla, no âmbito da diversidade,
isso é extremamente grosseiro,
porque aquilo que perdemos com
esse processo foi o gado como
e de energia, e de energia sustentável.
Na Índia, isso significou que
os programas de cruzamento estão
imitando as "colinas de leite"
das vacas ocidentais, como as
Jerseys e as Holsteins, e descartam
a capacidade dos animais de
puxarem arados e carretas. Em
consequência, através dos programas
de cruza, temos um gado sem
corcunda, mas também sem energia.
E se considerarmos o gado tanto
como e de adubo orgânico, energia
animal, assim como de laticínios,
o gado da Índia não é absolutamente
inferior. É só quando medimos
as cabeças desse gado como se
fossem máquinas de leite que
se tornam inferiores. Mas quando
foi que medimos as vacas leiteiras
da América, ou de Jérsei, ou
dos Alpes Suíços, em termos
de suas funções de trabalho?
Elas seriam dramaticamente inferiores,
se tivéssemos o objetivo de
energia para a melhora do gado.
Dessa forma, o desenvolvimento
mono e unidimensional cria a
monocultura da mente. A monocultura
da mente tem se tornado uma
espécie de profecia auto-realizável
da melhoria. E esta é a causa
do porque opusemos o valor dos
títulos e ações contra a ecologia,
a sustentabilidade, contra a
justiça.
SL:
Nós temos a tendência de justificar
essas monoculturas em nome do
crescimento do desenvolvimento
humano.
VS:
Bem, deixe-me elaborar um pouco
mais. Se dizemos que algo deve
crescer porque o povo precisa
de mais alimentos, de mais moradias,
o povo precisa de mais carne,
o povo precisa de mais leite,
podemos fazer as coisas crescer
de um certo modo, embora estejamos
criando variáveis externas,
de modo que haverá escassez
em coisas relacionadas. Assim,
haverá escassez de água potável
quando se polui o solo com nitratos.
Haverá escassez de diversidades
quando se criam imensas plantações
de milho do mesmo tipo ou cepa,
de modo que quando uma doença
atinge a plantação, como ocorreu
nos anos 70, nos EUA, todas
as plantações de milho desse
país foram dizimadas; foi aí
que, pela primeira vez, os EUA
compreenderam o valor da diversidade
na agricultura, e começou a
discussão sobre os recursos
genéticos e conservação. Assim,
quando se leva em consideração
o conjunto do sistema, as maneiras
de desenvolvimento numa certa
direção podem, na verdade, criar
diferentes formas de escassez,
de forma que não estaremos obtendo
"mais". Todo o sistema de produção
ecológica, no modo como existe,
teve como justificativa a criação
de mais mercadorias, a alimentação
de um número maior de pessoas,
de providenciar necessidades
adicionais, mas ele destrói
uma quantidade maior dos recursos
que necessitamos para satisfazer
todas essas necessidades múltiplas.
Assim, a enorme destruição e
a escassez de recursos para
os pobres e o acesso aos recursos
estão intimamente relacionados.
Se passamos a ter uma percepção
ecológica, se passamos a ter
uma percepção das diversidades,
percebemos que alguns dos instrumentos
dos quais nos orgulhamos muito
são, na realidade, extremamente
primitivos para o trato com
a natureza. E, na minha opinião,
essa é a verdadeira lição da
consciência ecológica, neste
fim de milênio.
SL:
Estou entrevistando a ecologista
e filósofa Vandana Shiva. Ela
é a autora de muitos livros,
incluindo "Staying Alive" (Permanecendo
Vivos), "Monocultures of the
Mind" (Monoculturas da Mente),
e "The Future of Progress" (O
Futuro do Progresso). Este é
o programa "Insight — an Outlook".
Aqui fala Scott London.
Você disse que a questão mais
crucial que o mundo enfrenta
neste fim de milênio é um problema
duplo: a necessidade de sustentabilidade
ecológica e de justiça social.
E para você esses dois problemas
estão muito inter-relacionados.
Todavia, acho que muitos americanos
não acreditam que essas questões
tenham relação entre si. Como
você sabe, temos a tendência
de considerar a justiça social
como algo bastante diferente
da sustentabilidade ecológica.
VS:
Para mim, as duas questões estão
intimamente ligadas, em parte
porque minhas lições sobre ecologia
realmente se originam com as
"margens" da sociedade indiana,
a qual constitui 70% da Índia,
vivendo diretamente dependente
dos recursos nacionais. Pode
ser a biodiversidade, pode ser
a terra, pode ser a floresta,
a água. 70% da Índia são compostos
de produtores agrícolas. A natureza
é o meio de produção dessa população,
a injustiça é o mesmo que a
destruição ecológica, quando
a floresta é destruída, quando
o rio é represado, quando a
biodiversidade é roubada, quando
os campos são alagados, ou tornados
salinos como resultado de atividades
econômicas. Acho que, globalmente,
atingimos um estágio no qual
precisamos encontrar as soluções
para a injustiça econômica,
no mesmo lugar e nas mesmas
maneiras onde encontramos as
soluções para a sustentabilidade.
A sustentabilidade a nível ambiental
e a justiça em termos de cada
pessoa ter um lugar no sistema
de produção e consumo — trata-se
do mesmo fenômeno, e precisam
ser reintroduzidos no modo de
pensar. Eles foram artificialmente
separados.
SL:
Bem, algo em que você tem trabalhado
muito, e que eu gostaria de
abordar… o seu trabalho com
relação a patentes e o seu projeto
de conservação de sementes.
VS:
Sim, existe…. atualmente, e
trata-se de um fenômeno que
começou nos Estados Unidos…
está havendo uma reivindicação
no sentido de patentear formas
de vida, biodiversidade e as
inovações de outras culturas.
Por exemplo, a patente do pesticida
proveniente da árvore "nim"
da Índia, ou o uso de um arbusto
chamado "philantus neruri",
ou um exemplo ainda mais descarado,
o uso da açafroeira da Índia
para curar ferimentos, que é
algo conhecido e praticado em
todas as casas por todas as
mães e avós, e agora, o Mississippi
Medical Center alega ter descoberto
essa propriedade da planta de
curar ferimentos.
SL:
Sim, você está certa com relação
a isso. Você descreve um exemplo
muito dramático; alguns americanos,
na realidade, vão para a Índia
e trazem de volta aquilo que
geralmente chamamos de… remédios
populares…
VS:
Ciência indígena. Na realidade,
trata-se de inovações através
da ciência indígena.
SL:
É um conhecimento que existe
entre os povo por muitas e muitas
gerações.
VS:
Absolutamente. É um conhecimento
que é patrimônio comum. E, segundo
os sistemas de patentes, ninguém
poderia patentear o que existe
como patrimônio prévio comum.
O sistema de patentes dos EUA
é um tanto perverso. Em primeiro
lugar, esse sistema não trata
a arte prévia de outras sociedades
como patrimônio comum. Assim,
qualquer pessoa dos EUA pode
ir ao exterior, averiguar o
uso de uma planta medicinal
ou encontrar uma semente utilizada
por um agricultor, voltar aos
EUA, alegar de que se trata
de uma invenção, reivindicar
isso como uma invenção, obter
uma patente e obter os direitos
de exclusividade de uso do produto
ou processos que estão relacionados
com aquele conhecimento. Eu
chamo esse fenômeno de Biopirataria
e Pirataria Intelectual.
SL:
Quais são alguns dos outros
exemplos disso? Você mencionou
a árvore "nim"…
VS:
Neruri… Acabei de ser informada
que a Nestlé patenteou a produção
de polal. Como você sabe, usamos
o polal para maquiar os olhos…
antes de nos darmos conta, todo
o uso tradicional de plantas,
de processamento de alimentos,
será uma patente de propriedade
de alguma corporação ocidental.
Para mim, isso é um absurdo.
É pior do que o comércio de
escravos. Porque o que está
sendo transacionado é o próprio
conhecimento que torna possível
a sobrevivência para 80% desse
mundo. 80% das pessoas deste
planeta vivem da biodiversidade
e… isso cria uma situação na
qual os usos tradicionais e
comuns praticados pelas pessoas,
através do tempo, se torna um
monopólio — de um punhado de
corporações: as corporações
farmacêuticas, as corporações
de negócios agrícolas, as corporações
agro-químicas, que em seguida,
tornam as pessoas incapazes
de suprir as suas próprias necessidades,
forçando cada agricultor a comprar
as sementes exclusivamente desses
fornecedores, ou a pagar 80%
em royalties, fato que já está
acontecendo neste país. Trocas
diretas estão começando a ser
tratadas como crime e como roubo,
como uma infração. Ou cada vez
que alguém precisa de um controle
pesticida biológico, em vez
de usar a própria semente do
próprio quintal, passará a depender
da graça ou das corporações.
Esse tipo de dependência basicamente
significa um aumento da pobreza
e da destruição ecológica.
SL:
Como você, e as mulheres com
as quais você trabalha reagem
a isso?
VS:
Ah, nós temos um programa de
múltiplos níveis de resistência.
O primeiro é desafiar essa situação,
como uma questão moral, ética,
exatamente como o tráfico de
escravos foi desafiado. Não
se pode negociar pessoas. Não
se pode comprar o conhecimento
das pessoas. É ilegítimo e não
deveria ser feito. O Segundo
consiste em trabalhar com alternativas
legais. Um dos movimentos que
desenvolvemos consiste em dizer
que, assim como os direitos
de propriedade intelectual são
relevantes à invenção individual,
o que precisamos são direitos
comuns para proteger a herança
intelectual comum dos povos.
Povos indígenas. E esses são
direitos reconhecidos pela convenção
de diversidades biológicas.
Estamos trabalhando para certificar-nos
de que esses se tornarão os
fundamentos de nossa jurisprudência…
que essas idéias são a base
sobre a qual as nossas leis
relativas aos direitos de propriedade
intelectual serão formadas.
Como nos dirigimos dos movimentos
populares ao governo nacional,
e à Organização Mundial do Comércio…
basicamente, o que isso significa
é que tudo em nossas campanhas
é muito multidimensional, e
essa é uma parte do divertimento...
O trabalho é no sentido da resistência
e criatividade. É uma ação mais
construtiva, sem deixarmos de
dizer "não".
SL:
Você admira certos aspectos
do trabalho de Gandhi, em termos
de sua ênfase na não-cooperação
pacífica, etc…
VS:
De fato, quando começamos a
fazer esses desafios, chamamos
o processo de "Sementes de satyagraha"*.
Satyagraha quer dizer luta pela
verdade. Satyagraha era a ação
direta em não-cooperação. Quando
os britânicos tentaram criar
monopólios para o sal, Gandhi
foi à praia, em Dandee, apanhou
um pouco de sal e disse: a natureza
nos deu o sal de graça. Para
o nosso sustento. Não permitiremos
que ele se torne um monopólio
para financiar os exércitos
imperiais. Nós fizemos exatamente
esse tipo de ação com relação
à biodiversidade e às sementes,
essa rica diversidade biológica
com as quais a natureza nos
presenteou. Não permitiremos
que isso tudo se torne o monopólio
de um punhado de corporações.
Manteremos isso tudo como a
riqueza da natureza e a riqueza
dos povos e a base de sua prosperidade
e a base de seu sustento e,
para nós, não cooperar com os
regimes de monopólio dos direitos
de propriedade intelectual,
patentes e biodiversidade diz
mais a respeito das patentes
sobre a vida e o desenvolvimento
de idéias intelectuais de resistência…
é um prosseguimento do princípio
de "satyagraha" de Gandhi. Manter
a vida em sua diversidades é
a satyagraha para o próximo
milênio. É com isso que o movimento
ecológico precisa se empenhar,
não apenas na Índia, mas nos
EUA, onde as pessoas que acreditam
na liberdade das idéias deveriam
se empenhar, onde quer que estejam,
porque o mundo das idéias está
sendo fechado, por meio das
novas leis sobre patentes, numa
situação onde os professores
universitários não podem mais
ensinar livremente a seus alunos
porque receberam algum tipo
de bolsa de alguma corporação
e os produtos de suas mentes
são propriedade daquela corporação.
SL:
Estávamos falando do Gandhi
há alguns minutos. Quem são
seus outros modelos ideais?
VS:
Como disse antes, Einstein foi
seguramente um grande modelo
para mim. Hoje em dia, ouço
rumores de que ele se fazia
de engraçadinho com as mulheres
e de que era bastante desagradável
com a sua esposa. Talvez, se
eu tivesse sabido disso tudo,
ele não teria sido o meu herói…
eu também faço esculturas, às
vezes, quando tenho tempo, e
a primeira escultura que eu
fiz foi justamente o busto do
Einstein e suas irmãs. Está
em cima de minha mesa. Ainda
me inspira, porque, na realidade,
o Einstein que eu conheci foi
realmente a pessoa que desencadeou
a minha imaginação, as minhas
idéias. Gandhi foi a outra e
de inspiração, porque eu acredito
que Gandhi foi a única pessoa
que conhecia a verdadeira democracia.
Não falo da democracia como
o direito de sair e comprar
o que se quer, mas a democracia
como responsabilidade em relação
a toda a coletividade. A democracia
para que o indivíduo seja realmente
livre, livre em termos sociais,
livre da fome, livre do desemprego,
livre do medo, livre do ódio,
para mim essas são as liberdades
reais, nas quais as sociedades
humanas se baseiam. As mulheres
de Chipko são es de inspiração
verdadeiras para mim. E pessoas
como S. Guna, que participou
de Chipko. Com o tempo, tendo
trabalhado por muitos anos num
certo número de questões… há
realmente uma quantidade de
pessoas criativas no mundo todo,
que inspiram constantemente
com suas interações, que é o
que contribui para tornar esse
tipo de trabalho excitante.
SL:
Geralmente, você tem esperança
de poder mudar as coisas?
VS:
Bem, tenho absoluta confiança
de que as coisas vão mudar.
Creio que veremos muita destruição,
mas acredito que se pudermos
ver os padrões corretos, e tirar
as lições certas dessa destruição,
poderemos ser capazes de reconstruir,
antes que seja tarde demais.
Também, eu tenho aquele tipo
de otimismo essencial e, mesmo
que não sejamos capazes, a própria
vida se reconstruirá por si
mesma. E, de certo modo, se
a economia global poderá ter
um colapso, Gaia não… a capacidade
inventiva das pessoas não, e
assim reconstruiremos a sociedade,
reconstruiremos as economias
locais, reconstruiremos as aspirações
humanas, e o tipo de monocultura
global, na qual todos se sentem
paralisados, e cada um se sente
como se tivesse que correr cada
vez mais depressa só para ficar
no mesmo lugar… Acho que teremos
um desencanto com o glamour
do sonho da globalização. Isso
posso ver acontecendo antes
mesmo que o presente milênio
acabe.
SL:
Eu estava falando com a física
e ecologista da Índia Vandana
Shiva. Ela é diretora da Research
Foundation for Science, Technology
and Natural Resource Policy
(Fundação de Pesquisa para a
Política da Ciência, Tecnologia
e Recursos Naturais), em Deradaan,
Índia. Entre os seus vários
livros se incluem: "Monocultures
of the Mind" (Monoculturas da
Mente), "Staying Alive" (Permanecendo
Vivos), "Women, Ecology and
Development" (Mulheres, Ecologia
e Desenvolvimento) .
Tradução: Mário Sérgio Mieli
Referências:
*NT: Satyagraha — em sânscrito,
o "princípio da verdade", agraha
— permanecer fiel à, satya —
verdade. Essa antiga idéia da
cultura hindu, ligada ao conceito
de dharma de cada indivíduo
e de cada nação, foi utilizada
por Gandhi contra a força daquilo
que parecia o insuperável poder
do império inglês, altamente
mecanizado, industrializado
e militarizado.
Vandana
Shiva,
Foundation for Science, Technology
& Ecology
A-60 Haus Khas New Deli, 110016
INDIA Tel: 91-11-696-8077 Fax:
91-11-685-6795 />
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