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(...)
Sobre
essa linha melódica
de variação
contínua constituída
pelo afeto, Spinoza irá
determinar dois pólos,
alegria-tristeza, que
serão para ele
as paixões fundamentais:
a tristeza será
toda paixão, não
importa qual, que envolva
uma diminuição
de minha potência
de agir, e a alegria será
toda paixão envolvendo
um aumento de minha potência
de agir.
Isso
permitirá que Spinoza,
por exemplo, realize uma
abertura em direção
a um problema moral e
político muito
fundamental, que será
sua própria maneira
de estabelecer o problema
político: como
acontece que as pessoas
que têm o poder,
não importa em
que domínio, tenham
necessidade de afetar-nos
de uma maneira triste?
As paixões tristes
como necessárias:
inspirar paixões
tristes é necessário
ao exercício do
poder.
E
Spinoza diz, no Tratado
teológico-político,
que esse é o laço
profundo entre o déspota
e o sacerdote: eles têm
necessidade da tristeza
de seus súditos.
Aqui, vocês compreenderão
com facilidade que ele
não toma "tristeza"
num sentido vago, ele
toma "tristeza"
no sentido rigoroso que
ele soube lhe dar: a tristeza
é o afeto considerado
como envolvendo a diminuição
da potência de agir.
(...)
Spinoza
propõe o inverso:
ao invés de fazer
o somatório de
nossas tristezas, tomar
uma alegria como um ponto
de partida local, à
condição
que sintamos que ela nos
concerne verdadeiramente.
Em cima disso forma-se
a noção
comum, em cima disso tenta-se
ganhar localmente, estender
essa alegria. É
um trabalho para toda
a vida. Tenta-se diminuir
a porção
respectiva de tristezas
face à porção
respectiva de uma alegria.
(...)
Enquanto
autômatos espirituais,
há o tempo todo
idéias que se sucedem
em nós, e de acordo
com essa sucessão
de idéias, nossa
potência de agir
ou nossa força
de existir é aumentada
ou é diminuída
de uma maneira contínua,
sobre uma linha contínua,
e é isso que nós
chamamos afeto [affectus],
é isso que nós
chamamos existir.
(...)
Num
afeto de alegria, portanto,
o corpo que o afeta é
indicado como compondo
a relação
dele com a sua, ao invés
da relação
dele decompor a sua. Desde
então, alguma coisa
irá induzi-lo a
formar a noção
do que é comum
ao corpo que o afeta e
ao seu, à alma
que o afeta e à
sua. Nesse sentido, a
alegria torna inteligente.
(...)
Para
além das relações
características
existe ainda o mundo das
essências singulares.
Então, quando formamos
aqui idéias que
são como puras
intensidades, onde minha
própria intensidade
irá convir com
a intensidade das coisas
exteriores, nesse momento
se dá o terceiro
gênero porque, se
é verdade que nem
todos os corpos convém
uns aos outros, se é
verdade que, do ponto
de vista das relações
que regem as partes extensas
de um corpo ou de uma
alma, as partes extensivas,
nem todos os corpos convém
uns aos outros, todos
eles serão concebidos
como convenientes uns
aos outros se vocês
chegarem a um mundo de
puras intensidades. Nesse
momento, o amor que vocês
têm por si mesmos
é ao mesmo tempo,
como diz Spinoza, o amor
às outras coisas,
é ao mesmo tempo
o amor de Deus, é
o amor que Deus tem por
si mesmo, etc.
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