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Fórum
Do ponto de vista
da teoria da emancipação
social há novidades?
Boaventura
Gosto de destacar
que algumas das características
essenciais do FSM são
sua enorme capacidade
de se reinventar; sua
disposição
de questionar o que ele
próprio já
criou, com sucesso; sua
tendência a buscar
o novo, inclusive em termos
teóricos. Neste
terreno, vejo que importantes
avanços, alcançados
nos últimos anos,
continuaram a ser consolidados
na largada de 2010.
Está se espalhando,
por exemplo, o consenso
de que não há
apenas contradição
entre o capital e o trabalho,
mas, também, entre
capital e natureza. Não
apenas o trabalho é
convertido em fator de
produção,
mas também a natureza
é transformada
num recurso que se pode
destruir sem nenhuma concessão
à sustentabilidade,
ao longo prazo ou ao direito
de estabelecermos outra
relação
com a natureza.
Outro passo adiante é
a importância dada
à luta pela paz.
Meses após o primeiro
FSM, houve os ataques
contra as torres
gêmeas e o
início, pelo governo
Bush, da chamada guerra
infinita contra
o terror. O Fórum,
que em sua primeira edição
não havia destacado
tanto a luta pela paz,
tornou-se um espaço
muito importante para
esta bandeira. Ela está
presente em inúmeras
atividades relacionadas
à Palestina, ao
Iraque e à tentativa
de estabelecer diálogos
entre civilizações
em clara alternativa
ao choque
previsto por certos teóricos.
Fórum
É nesse contexto
que se inclui a importância
crescente das cosmovisões
não-ocidentais?
Boaventura
Exatamente. Mais
para o final da década
em Belém-2009
e agora em Porto Alegre-2010
, o FSM assumiu
como tema o protagonismo
do movimento indígena
em muitas partes da América
do Sul. Era algo já
expresso em processos
políticos como
os do Equador e Bolívia,
e que resultou nas eleições
dos presidentes Rafael
Corrêa e Evo Morales.
As bandeiras, ideias e
cosmovisões deste
novo sujeito trazem ao
debate a ideia do bem-viver
como alternativa ao desenvolvimento
infinito, que rompe as
relações
entre homem, mulher e
natureza.
Ficou claro, além
disso, que as cosmovisões
indígenas da América
não são
apenas uma contribuição
específica ao FSM.
Fazem parte de um conjunto
vasto de pensamentos não-coloniais
originários da
África, da Índia,
da própria China
como o confucionismo.
Embora estes pensamentos
sejam normalmente tornados
invisíveis no Ocidente,
eles revelam (e os Fóruns
jogam enorme papel neste
sentido) que a esmagadora
maioria da população
do mundo não vive
segundo as regras do lucro
infinito, da competição,
da destruição
do outro mas segue
regras de convívio
social que têm por
trás de si outra
relação
com a natureza e os bens
públicos.
Alerto que há,
neste processo, um risco
de folclorização,
ou trivialização.
Muitos assumem os novos
conceitos como
bem-viver
com moda, sem saber
exatamente o que expressam.
Em bem-viver,
há uma profunda
dimensão de espiritualidade
e religiosidade. O pensamento
ocidental não é
capaz de incorporar facilmente
estes elementos. Ele meteu
a religião no espaço
privado e a transformou
em opção
que não tem a ver
com a vida política,
econômica e cultural
dos povos.
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