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Foruns Sociais - o que mudou e o que falta
Boaventura de Sousa Santos
Trecho de entrevista concedida a Antonio Martins da Revista Forum


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Fórum – Do ponto de vista da teoria da emancipação social há novidades?

Boaventura – Gosto de destacar que algumas das características essenciais do FSM são sua enorme capacidade de se reinventar; sua disposição de questionar o que ele próprio já criou, com sucesso; sua tendência a buscar o novo, inclusive em termos teóricos. Neste terreno, vejo que importantes avanços, alcançados nos últimos anos, continuaram a ser consolidados na largada de 2010.

Está se espalhando, por exemplo, o consenso de que não há apenas contradição entre o capital e o trabalho, mas, também, entre capital e natureza. Não apenas o trabalho é convertido em fator de produção, mas também a natureza é transformada num recurso que se pode destruir sem nenhuma concessão à sustentabilidade, ao longo prazo ou ao direito de estabelecermos outra relação com a natureza.

Outro passo adiante é a importância dada à luta pela paz. Meses após o primeiro FSM, houve os ataques contra as “torres gêmeas” e o início, pelo governo Bush, da chamada “guerra infinita” contra o terror. O Fórum, que em sua primeira edição não havia destacado tanto a luta pela paz, tornou-se um espaço muito importante para esta bandeira. Ela está presente em inúmeras atividades relacionadas à Palestina, ao Iraque e à tentativa de estabelecer diálogos entre civilizações – em clara alternativa ao “choque” previsto por certos teóricos.


Fórum
– É nesse contexto que se inclui a importância crescente das cosmovisões não-ocidentais?

Boaventura – Exatamente. Mais para o final da década – em Belém-2009 e agora em Porto Alegre-2010 –, o FSM assumiu como tema o protagonismo do movimento indígena em muitas partes da América do Sul. Era algo já expresso em processos políticos como os do Equador e Bolívia, e que resultou nas eleições dos presidentes Rafael Corrêa e Evo Morales. As bandeiras, ideias e cosmovisões deste novo sujeito trazem ao debate a ideia do “bem-viver” como alternativa ao desenvolvimento infinito, que rompe as relações entre homem, mulher e natureza.

Ficou claro, além disso, que as cosmovisões indígenas da América não são apenas uma contribuição específica ao FSM. Fazem parte de um conjunto vasto de pensamentos não-coloniais originários da África, da Índia, da própria China – como o confucionismo. Embora estes pensamentos sejam normalmente tornados invisíveis no Ocidente, eles revelam (e os Fóruns jogam enorme papel neste sentido) que a esmagadora maioria da população do mundo não vive segundo as regras do lucro infinito, da competição, da destruição do outro – mas segue regras de convívio social que têm por trás de si outra relação com a natureza e os bens públicos.

Alerto que há, neste processo, um risco de folclorização, ou trivialização. Muitos assumem os novos conceitos – como “bem-viver” – com moda, sem saber exatamente o que expressam. Em “bem-viver”, há uma profunda dimensão de espiritualidade e religiosidade. O pensamento ocidental não é capaz de incorporar facilmente estes elementos. Ele meteu a religião no espaço privado e a transformou em opção que não tem a ver com a vida política, econômica e cultural dos povos.

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