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Mulher
da Vida, minha Irmã.
De
todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das
idades e
carrega a carga pesada dos mais
torpes sinônimos,
apelidos e apodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à-toa.
Mulher
da Vida, minha irmã.
Pisadas,
espezinhadas, ameaçadas.
Desprotegidas e exploradas.
Ignoradas da Lei, da Justiça
e do Direito.
Necessárias fisiologicamente.
Indestrutíveis.
Sobreviventes.
Possuídas e infamadas sempre
por
aqueles que um dia as lançaram
na vida.
Marcadas. Contaminadas,
Escorchadas. Discriminadas.
Nenhum
direito lhes assiste.
Nenhum estatuto ou norma as
protege.
Sobrevivem como erva cativa
dos caminhos,
pisadas, maltratadas e renascidas.
Flor
sombria, sementeira espinhal
gerada nos viveiros da miséria,
da
pobreza e do abandono,
enraizada em todos os quadrantes
da Terra.
Um
dia, numa cidade longínqua,
essa
mulher corria perseguida pelos
homens que
a tinham maculado. Aflita, ouvindo
o
tropel dos perseguidores e o
sibilo das pedras,
ela encontrou-se com a Justiça.
A
Justiça estendeu sua destra
poderosa e
lançou o repto milenar:
“Aquele que estiver sem pecado
atire a primeira pedra”.
As
pedras caíram
e os cobradores deram as costas.
O
Justo falou então a palavra
de eqüidade:
“Ninguém te condenou, mulher...
nem eu te condeno”.
A
Justiça pesou a falta pelo peso
do sacrifício e este excedeu
àquela.
Vilipendiada, esmagada.
Possuída e enxovalhada,
ela é a muralha que há milênios
detém
as urgências brutais do homem
para que
na sociedade possam coexistir
a inocência,
a castidade e a virtude.
Na
fragilidade de sua carne maculada
esbarra a exigência impiedosa
do macho.
Sem
cobertura de leis
e sem proteção legal,
ela atravessa a vida ultrajada
e imprescindível, pisoteada,
explorada,
nem a sociedade a dispensa
nem lhe reconhece direitos
nem lhe dá proteção.
E quem já alcançou o ideal dessa
mulher,
que um homem a tome pela mão,
a levante, e diga: minha companheira.
Mulher
da Vida, minha irmã.
No
fim dos tempos.
No dia da Grande Justiça
do Grande Juiz.
Serás remida e lavada
de toda condenação.
E
o juiz da Grande Justiça
a vestirá de branco em
novo batismo de purificação.
Limpará as máculas de sua vida
humilhada e sacrificada
para que a Família Humana
possa subsistir sempre,
estrutura sólida e indestrutível
da sociedade,
de todos os povos,
de todos os tempos.
Mulher
da Vida, minha irmã.
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Declarou-lhe Jesus:
“Em verdade vos digo que publicanos
e meretrizes
vos precedem no Reino de Deus”.
Evangelho de São Mateus 21,
ver.31.
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