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A  utopia  imanente
Peter Pál Pelbart
artigo publicado originalmente na Revista Cult



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Em Deleuze não se ouvirão lamúrias ou profecias sobre o fim do sujeito ou da História, da Metafísica ou da Filosofia, da totalidade ou das metanarrativas, do social, do político, do real ou mesmo das artes: (“Jamais me preocupou a superação da Metafísica ou a morte da Filosofia, e quanto à renúncia ao Todo, ao Uno, ao sujeito, nunca fiz disso um drama.”)…

Cada um dos conceitos de que a teorização contemporânea faz o luto pomposo, uma vez lançados no plano que Deleuze ajudou a criar, rodopiam, alegremente, em favor daquilo que pedia passagem e que cabe à Filosofia experimentar, a partir das forças do presente. Assim, seu pensamento produziu uma sonoridade filosófica pouco sintônica com a música enlutada do pós-moderno, ou com algumas de suas fontes.

Nenhum pathos em relação à origem ou ao destino (do ser, do pensamento, da história, do Ocidente), nenhum ódio ou desprezo pelo mundo, nenhum ressentimento ou culto da negatividade, mas tampouco complacência alguma em relação à baixeza do presente – sobretudo uma abertura extrema ao improvável, à multiplicidade contemporânea e aos processos que ela libera.

A tarefa da Filosofia consiste, para Deleuze, em elaborar um material de pensamento capaz de captar a miríade de forças em jogo e fazer do próprio pensamento uma força do Cosmos.

Uma tal prática filosófica tem todos os riscos de ser mal-entendida, sobretudo para quem está habituado a um ponto de vista histórico-filosófico, a partir de uma exterioridade crítica ou reflexiva, mas também para aqueles que, ao contrário, contentam-se em descrever com deleite, em um misto de melancolia e volúpia, o niilismo contemporâneo.

O exercício imanente em Deleuze traça uma linha transversal na atualidade, nem de exterioridade nem de adesão, recusando a um só tempo o catastrofismo e a complacência, bem como seus efeitos de paralisia ou cinismo.

Capitalismo e imanência


Mas o que isso significa, nas condições concretas do capitalismo contemporâneo, com o qual a filosofia moderna entretém relações tão necessárias e ambíguas quanto a filosofia antiga com a cidade grega?
A resposta mais contundente está no último livro conjunto de Deleuze e Guattari, intitulado justamente O que é a Filosofia?:

“A Filosofia leva ao absoluto a desterritorialização relativa do capital, ela o faz passar sobre o plano de imanência como movimento do infinito e o suprime enquanto limite interior voltando-o contra si, para chamá-lo a uma nova terra, a um novo povo.

Ora, tudo aqui deveria ser pensado cuidadosamente, a começar pela diferença entre desterritorialização relativa (do capital) e absoluta (da Filosofia), e não há como esmiuçá-lo nos limites do presente artigo. Em todo caso, essa frase permite ao menos indicar a posição político-filosófica dos autores, muito pouco pós-moderna, a julgar por alguns de seus arautos.

Pois há aqui e no restante de sua obra uma renovada crença no conceito (é a ingenuidade que Deleuze reclama para si, e que faz dele, aos olhos dos coveiros da Filosofia, um “metafísico”), uma crença no mundo (isto é, nas suas possibilidades, que caberia às artes, entre outras, nos “devolver”), a evocação da resistência (“resistir à morte, à servidão, ao intolerável, à vergonha, ao presente”), a defesa da criação (“criar é resistir”), o chamamento recorrente a um “povo por vir” (que cabe à Filosofia favorecer, embora não esteja ao seu alcance criar). Enfim, vários termos banidos do ideário pós-moderno têm aqui inteiramente preservada sua dignidade: mundo, povo, resistência, criação, arte, filosofia.


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