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Em
Deleuze não se ouvirão
lamúrias ou profecias
sobre o fim do sujeito
ou da História, da Metafísica
ou da Filosofia, da totalidade
ou das metanarrativas,
do social, do político,
do real ou mesmo das artes:
(“Jamais
me preocupou a superação
da Metafísica ou a morte
da Filosofia, e quanto
à renúncia ao Todo, ao
Uno, ao sujeito, nunca
fiz disso um drama.”)…
Cada
um dos conceitos de que
a teorização contemporânea
faz o luto pomposo, uma
vez lançados no plano
que Deleuze ajudou a criar,
rodopiam, alegremente,
em favor daquilo que pedia
passagem e que cabe à
Filosofia experimentar,
a partir das forças do
presente. Assim,
seu pensamento produziu
uma sonoridade filosófica
pouco sintônica
com a música enlutada
do pós-moderno, ou com
algumas de suas fontes.
Nenhum
pathos em relação à origem ou ao destino (do ser, do pensamento,
da história, do Ocidente),
nenhum ódio ou desprezo
pelo mundo, nenhum ressentimento
ou culto da negatividade,
mas tampouco complacência
alguma em relação à baixeza
do presente – sobretudo
uma abertura extrema ao
improvável, à multiplicidade
contemporânea e aos processos
que ela libera.
A
tarefa da Filosofia consiste,
para Deleuze, em elaborar
um material de pensamento
capaz de captar a miríade
de forças em jogo e fazer
do próprio pensamento
uma força do Cosmos.
Uma tal prática filosófica tem todos os riscos de ser mal-entendida,
sobretudo para quem está
habituado a um ponto de
vista histórico-filosófico,
a partir de uma exterioridade
crítica ou reflexiva,
mas também para aqueles
que, ao contrário, contentam-se
em descrever com deleite,
em um misto de melancolia
e volúpia, o niilismo
contemporâneo.
O
exercício imanente em
Deleuze traça uma linha
transversal na atualidade,
nem de exterioridade nem
de adesão, recusando a
um só tempo o catastrofismo
e a complacência, bem
como seus efeitos de paralisia
ou cinismo.
Capitalismo e imanência
Mas o que isso significa,
nas condições concretas
do capitalismo contemporâneo,
com o qual a filosofia
moderna entretém relações
tão necessárias e ambíguas
quanto a
filosofia antiga com a
cidade grega? A
resposta mais contundente
está no último livro conjunto
de Deleuze e Guattari,
intitulado justamente
O que é a Filosofia?:
“A
Filosofia leva ao absoluto
a desterritorialização relativa do capital, ela o faz passar
sobre o plano de imanência
como movimento do infinito
e o suprime enquanto limite
interior voltando-o contra
si, para chamá-lo a uma
nova terra, a um novo
povo.”
Ora, tudo aqui deveria
ser pensado cuidadosamente,
a começar pela diferença
entre desterritorialização
relativa (do capital)
e absoluta (da Filosofia),
e não há como esmiuçá-lo
nos limites do presente
artigo. Em
todo caso, essa frase
permite ao menos indicar
a posição político-filosófica
dos autores, muito pouco
pós-moderna, a julgar
por alguns de seus arautos.
Pois
há aqui e no restante
de sua obra uma renovada
crença no conceito (é
a ingenuidade que Deleuze
reclama para si, e que
faz dele, aos olhos dos
coveiros da Filosofia,
um “metafísico”), uma
crença no mundo (isto
é, nas suas possibilidades,
que caberia às artes,
entre outras, nos “devolver”),
a evocação da resistência
(“resistir à morte, à
servidão, ao intolerável,
à vergonha, ao presente”),
a defesa da criação (“criar
é resistir”), o chamamento
recorrente a um “povo
por vir” (que cabe à Filosofia
favorecer, embora não
esteja ao seu alcance
criar). Enfim,
vários termos banidos
do ideário pós-moderno
têm aqui inteiramente
preservada
sua dignidade: mundo,
povo, resistência, criação,
arte, filosofia.
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