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Análise do processo do Fórum Social Mundial
Ladislau Dowbor
artigo publicado originalmente na Revista Forum


Fórum – Estamos completando dez anos do processo do Fórum Social Mundial. Que tipo de contribuição o senhor acha que o FSM deu ao debate político durante essa década?

Dowbor – As coisas mudaram. Primeiro, era um antifórum. Em Davos se reunia o pessoal chique junto com as multinacionais para se congratularem consigo mesmas, e hoje o Fórum de Davos está desaparecendo do mapa porque praticamente não tem mais com quem se congratular. E este, que era um antifórum, gradualmente se tornou um articulador de um conjunto dos movimentos do mundo para uma sociedade mais decente.

A mudança é a seguinte: se reunir e debater os grandes temas é uma coisa, já trabalhar de maneira organizada é outra. Olhando esses 10 anos que passaram, temos um imenso avanço da coletividade planetária. Hoje é muito fácil intercambiar documentos, propostas, articular visões no planeta todo. Antes éramos essencialmente informados pela mídia, agora temos a informação online gratuita, está mudando a “infra” da construção da nossa visão de mundo. Nós podemos realmente passar a trabalhar em rede, temos documentos indicativos que surgem e que dão a volta no planeta em 24 horas.


Fórum – A difusão é muito rápida...

Dowbor – A difusão é muito rápida e se dá pela relevância dos temas tratados, não porque uma corporação ou outra quer empurrar como temática. Isso está gerando uma outra concepção, na minha visão pelo menos, do que é o Fórum. Acho que no futuro o FSM vai ser muito mais um espaço para se ouvir uns aos outros, para sentirmos a temperatura de quais são os temas mais candentes e quais são os eixos de transformação nos quais vale mais a pena investir. No entanto, o grosso do trabalho vai se dar por interações numa rede planetária de colaboração, esse é o grande deslocamento que está havendo.

Temos que tatear as crises e ver que há uma crise civilizatória, em que se junta o esgotamento energético do petróleo e que exige uma mudança do paradigma energético. Não é pouca coisa, é uma grande mudança no planeta. Há mais de um bilhão de pessoas passando fome hoje e os chamados investidores institucionais fazendo especulação e puxando os preços para cima. Não é mais com papéis que se está especulando.

Além do problema da fome, há a questão do clima, o problema da redução da fertilidade do solo, da contaminação dos lençóis freáticos... Na realidade, estamos aprendendo a trabalhar em rede para juntar os especialistas que trabalham nessas diversas dimensões dos processos críticos, do conjunto dos impasses que está se criando e é dessa compreensão de um conjunto de crises que surgem as oportunidades. Na realidade, é uma convergência de crises que vai levar a mudanças sistêmicas, e essas mudanças vão ocorrer, a questão é só o “quando”, se vamos começar a responder agora, quando estamos com a água no joelho, ou daqui a pouco, quando estivermos com a água no pescoço.

 

 

 


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