|
Fórum
Estamos completando
dez anos do processo do
Fórum Social Mundial.
Que tipo de contribuição
o senhor acha que o FSM
deu ao debate político
durante essa década?
Dowbor
As coisas mudaram.
Primeiro, era um antifórum.
Em Davos se reunia o pessoal
chique junto com as multinacionais
para se congratularem
consigo mesmas, e hoje
o Fórum de Davos
está desaparecendo
do mapa porque praticamente
não tem mais com
quem se congratular. E
este, que era um antifórum,
gradualmente se tornou
um articulador de um conjunto
dos movimentos do mundo
para uma sociedade mais
decente.
A
mudança é
a seguinte: se reunir
e debater os grandes temas
é uma coisa, já
trabalhar de maneira organizada
é outra. Olhando
esses 10 anos que passaram,
temos um imenso avanço
da coletividade planetária.
Hoje é muito fácil
intercambiar documentos,
propostas, articular visões
no planeta todo. Antes
éramos essencialmente
informados pela mídia,
agora temos a informação
online gratuita, está
mudando a infra
da construção
da nossa visão
de mundo. Nós podemos
realmente passar a trabalhar
em rede, temos documentos
indicativos que surgem
e que dão a volta
no planeta em 24 horas.
Fórum
A difusão
é muito rápida...
Dowbor
A difusão
é muito rápida
e se dá pela relevância
dos temas tratados, não
porque uma corporação
ou outra quer empurrar
como temática.
Isso está gerando
uma outra concepção,
na minha visão
pelo menos, do que é
o Fórum. Acho que
no futuro o FSM vai ser
muito mais um espaço
para se ouvir uns aos
outros, para sentirmos
a temperatura de quais
são os temas mais
candentes e quais são
os eixos de transformação
nos quais vale mais a
pena investir. No entanto,
o grosso do trabalho vai
se dar por interações
numa rede planetária
de colaboração,
esse é o grande
deslocamento que está
havendo.
Temos
que tatear as crises e
ver que há uma
crise civilizatória,
em que se junta o esgotamento
energético do petróleo
e que exige uma mudança
do paradigma energético.
Não é pouca
coisa, é uma grande
mudança no planeta.
Há mais de um bilhão
de pessoas passando fome
hoje e os chamados investidores
institucionais fazendo
especulação
e puxando os preços
para cima. Não
é mais com papéis
que se está especulando.
Além
do problema da fome, há
a questão do clima,
o problema da redução
da fertilidade do solo,
da contaminação
dos lençóis
freáticos... Na
realidade, estamos aprendendo
a trabalhar em rede para
juntar os especialistas
que trabalham nessas diversas
dimensões dos processos
críticos, do conjunto
dos impasses que está
se criando e é
dessa compreensão
de um conjunto de crises
que surgem as oportunidades.
Na realidade, é
uma convergência
de crises que vai levar
a mudanças sistêmicas,
e essas mudanças
vão ocorrer, a
questão é
só o quando,
se vamos começar
a responder agora, quando
estamos com a água
no joelho, ou daqui a
pouco, quando estivermos
com a água no pescoço.
|