carneviva.org
   
 
 
 temas
 arte
 corpo
 ecologia
 economia
 educação
 estórias
 espírito
 filosofia
 mídia
 poesia
 política
 psicologia
 redes
 carneviva
 pagina inicial
 
 cadastro de emails
 
 áudio
 
 contato

 

 

Economia combina com solidariedade?
Zaira Machado
publicado originalmente na Ciranda da Informação Independente



Para os participantes da conferência sobre "Economia Solidária" do II Fórum Social Mundial, a resposta é sim.
Mas o caminho ainda é complexo e o ritmo, lento.

A economia solidária pode ser o paradigma de uma outra globalização? Ao debaterem o tema hoje, numa das conferências que compõem o eixo "A produção de riquezas" do Fórum Social Mundial, os expositores sustentaram que esta é uma questão-chave na busca de alternativas à globalização neoliberal. "Precisamos responder perguntas importantes e já posso advertir que são polêmicas¨, disse a espanhola Carola Reintjes, da rede de organizações formada para abrir a discussão. ¨Seremos nós os verdadeiros protagonistas de um modelo alternativo? Nos auto-sustentamos? Como podemos avaliar as nossas práticas? Que indicadores devemos usar? Como podemos coordená-las em nível local, regional, continental e intercontinental?¨, indagou. Embora reconhecendo que muitas perguntas não poderão ser respondidas nos quatro dias de debate do Fórum de Porto Alegre, Carola deu algumas pistas do que considera básico neste debate. ¨O mais importante é que a construção se dê de baixo para cima. Se quisermos chegar lá, precisamos entender que o ritmo é lento e complexo, que estamos sobrecarregados de velhos vícios e precisamos aprender.¨

Na opinião dela, ¨um mundo diferente é mais do que possível, um mundo diferente já está a caminho¨. Dirigindo-se ao plenário, afirmou:¨ninguém quer ser cúmplice da globalização neoliberal¨, por isso ¨precisamos que os senhores nos acompanhem nesse caminho¨.

Solidariedade é criadora de riqueza

Fazendo uma retrospectiva das experiências de ajuda mútua, particularmente na Europa, o francês Jean Louis Laville (Crida) lembrou as primeiras associações criadas no início do século 19, reunindo trabalhadores do campo e da cidade, que tinham como objetivo defender e reivindicar direitos mutuamente. Desde então, para enfrentar problemas sociais criados pelo mercado, essas ações coletivas mostraram que um outro princípio econômico podia ser mobilizado a serviço da sociedade. De acordo com ele, ¨nesse momento se afirmou que a solidariedade vinha da ação recíproca entre cidadãos livres e podia ser um princípio econômico em oposição ao princípio liberal, que só reconhece o mercado¨.

Essas experiências foram reprimidas principalmente na segunda parte do século, mas deixaram suas marcas. Elas contribuíram, também, para construir ¨um estado de direito, em que a solidariedade, cada vez mais, transformou-se em sinônimo de distribuição de renda¨, explicou Laville. Fruto disso, o projeto de economia solidária foi progressivamente esquecido. Retornou à agenda de setores sociais há duas ou três décadas, com o surgimento da economia neoliberal. ¨Muitos apoios se mobilizaram contra este movimento de mercantilização, para mostrar que era possível criar e redinamizar serviços por meio da cooperação¨, disse.

Os chamados ¨serviços de proximidade¨ se desenvolveram na europa a partir do envelhecimento da população e da profissionalização das mulheres. Depois, com o desemprego e a exclusão social, surgiram outras práticas de economia solidaria ¨com a finalidade de reintegrar na economia pessoas que tinham sido excluídas¨, disse. Ele ressaltou, também, a existência de práticas de economia solidária que criticam ¨a utilização que é feita da moeda e das finanças". Muitas organizações tentam criar redes de intercâmbio que não passam, necessariamente, pela moeda e que permitem refundar relações sobre a proximidade e a cooperação¨. Também há redes que se organizaram para promover uma contra-utilização do dinheiro, ¨para que as finanças possam ser utilizadas de forma solidária, sobretudo em benefício de pessoas que não têm acesso à financiamento bancário¨, acrescentou.

Risco de instrumentalização

O risco da instrumentalização das práticas de economia solidária no cenário neoliberal também foi destacado por Laville. Ele advertiu que ¨os neoliberais estão de acordo em ceder o espaço para a economia solidária, com a condição de que seja apenas uma economia de reparação, uma economia de caridade, finantrópica, uma economia para os pobres, que atenuaria os efeitos da pobreza, sem combater as suas causas¨. Assim, as iniciativas de economia solidária ¨poderiam ocupar os espaços deixados pela retração do estado de bem-estar social, um conceito que está presente em certas formulações anglo-saxônicas do terceiro setor¨. Neste contextos, a economia solidária seria apenas ¨uma forma de aliviar os pobres¨, sujeita à boa-vontade das pessoas e das empresas, ¨mas sem nenhum dimensão de conquista, de direitos e de transformação social¨.

Na opinião de Laville, ¨o que faz a originalidade da economia solidária é sua capacidade de articular constantemente a dimensão política e a dimensão econômica. E resistir e construir, e contestar e propor, e ligar a crítica à globalização com práticas de cidadania econômica no cotidiano¨. E, assim, ¨construir uma outra globalização, com um pensamento solidário nos âmbitos econômicos cotidianos, criar novos serviços e novos intercâmbios¨.

Para ele, a primeira condição para que a economia solidária seja o fundamento de uma globalização humanizadora é desconstituir a idéia de que a economia se reduz ao mercado. ¨O triunfo do neoliberalismo é nos fazer crer que só o mercado produz riqueza¨, garante Laville. E contesta: ¨a solidariedade é criadora de riqueza material e também cultural. Por isso, o pensamento único do mercado deve ser substituído pela percepção da realidade da economia que é diversa, plural¨. Na opinião dele, essa diversidade pressupõe que a extensão do mercado não seja limitada apenas pelo estado. ¨A iniciativa cidadã pode ser complementária da ação pública. A economia solidária permite que se expressem questões e opiniões que, do contrário, não teriam condições de se expressar. Ela pode ser uma alavanca para a construção do estado social, uma alavanca para redemocratização do estado público no norte, por exemplo¨, concluiu.

Responsabilidade humana perante o ser humano

A peruana Rosa Guillém, da rede latino-americana 'mulheres transformando a economia', falou sobre a situação das mulheres e sua contribuição para um novo mundo possível. Ela criticou a lógica capitalista, ¨que faz uma diferenciação entre o desenvolvimento, a manutenção e a expansão das capacidades humanas, prejudicando as mulheres de forma especial¨. O principal viés dessa lógica, afirmou, é ¨a idéia de que as capacidades das mulheres se restringem ao doméstico, ao privado, como se não fizessem parte do desenvolvimento, do progresso da economia e da sociedade¨. Essa divisão, que insere as mulheres de forma secundária no espaço público, ¨é parte da opressão e da grande discriminação que as mulheres vem sofrendo há séculos e que faz com que o seu trabalho não seja reconhecido¨.

De acordo com Rosa, as mulheres viveram uma ¨primavera democrática¨ no estado de bem-estar social, ¨que valorizou algumas das atividades desempenhadas pelas mulheres, transformando em públicas algumas de suas funções, como educação, saúde e cuidado dos filhos¨. Ela ressaltou que essas responsabilidades ¨são de ordem pública e devem ser assumidas pelo estado¨, mas ressalvou que esse movimento não se deu de forma generalizada¨. Além disso, os processos de privatização têm determinado o realocamento dos recursos orçamentários e a reorganização do estado, que tira recursos do bem-estar social e dá prioridade ao financiamento em favor dos investimentos estrangeiros e das grandes multinacionais.

Lembrando que na visão capitalista a principal divisão de riqueza se dá através dos salários, Rosa lamentou que, na esfera produtiva, as mulheres sejam consideradas apenas visitantes, como se desempenhassem uma atividade provisória. Deste ponto de vista, defendeu que ¨a nova visão da economia implica na responsabilidade compartilhada de tarefas, que eram exclusivas das mulheres, uma responsabilidade compartilhada enquanto organização social¨. Se a questão do desenvolvimento das capacidades humanas não for resolvida, afirmou, ¨nós teremos muita dificuldade para seguir adiante¨.

A conferencista também alertou para a existência de ¨interesses opostos¨, daqueles que organizam a sociedade de cima para baixo e que, paralelamente ao desmantelamento das políticas públicas, desenvolveram políticas de focalização para a assistência aos muitos pobres e muito desamparados, utilizando o trabalho gratuito de mulheres na assistência à comunidade¨. Na opinião dela, ¨essas políticas só querem instrumentalizar a solidariedade, fazendo com que esse princípio acabe sendo utilizada só como uma responsabilidade do pobre diante do pobre e não de uma responsabilidade humana perante o ser humano, das macropolíticas que devem atentar para os problemas da pobreza e da exclusão¨. Mas, segundo ela, ¨as mulheres não se restringiram a esse espaço¨. Ao mesmo tempo em que constróem iniciativas econômicas e produtivas ligadas à economia solidária¨, elas precisam ¨mudar as relações sociais, a fim de relativizar o mercado, a fim de relativizar o lucro enquanto fim principal e de modo a valorizar e reavaliar o tempo dedicado ao trabalho e o desenvolvimento das capacidades humanas. Não vamos conseguir progredir no sentido da construção de alternativas se não fizermos uma revisão profunda do que foi, e do que ainda está presente, e queremos mudar, que é a divisão sexual do trabalho¨, defendeu a feminista.

Regras morais

O professor argentino José Luis Coraggio lembrou que as teorias econômicas neoliberais, a serviço do conservadorismo e dos monopólios, tiveram a intenção, nas últimas três décadas, de impor o princípio de um mercado total. Por essa teoria, ¨toda a atividade humana fica melhor organizada se cada um, de forma egoísta, tentar conseguir o melhor para si e desta concorrência sem limite se beneficiaria toda a humanidade¨. Caberia ao mercado, portanto, indicar quem tem capacidades, quem merece ser sujeito de direitos e quem não não merece. Irônico, Coraggio lembrou que essa ideologia sustenta que a qualidade dos processos não é realmente importante, ¨o que importa são os resultados¨ e propôs aplicar aos capitalistas o próprio veneno. ¨Nós deveríamos avaliar os resultados que eles obtiveram. E os resultados foram a concentração de riquezas, a exclusão social, a crise do modelo econômico - conforme a Argentina é testemunha - e a falta de esperança. Se nós tivêssemos que dar uma nota de zero a dez, que nota nós daríamos aos gurus dessa teoria?¨, perguntou.

Ele defende a necessidade de criar alternativas às políticas macroeconômicas, à regulamentação do comércio, ao capital. ¨Mas isso não basta: temos que defender também uma alternativa de democratização de baixo para cima¨, o que significa ¨desenvolver a capacidade de todos os habitantes do planeta de tal maneira que possamos ampliar o conhecimento e a sabedoria, e satisfazer as demandas de forma racional, em harmonia com natureza¨.

Coraggio considera que ¨um fator chave da proposta de economia solidária é institucionalizar regras morais que possam definir um funcionamento de toda a economia e, para este fim, deve-se oportunizar, desenvolver e construir um subssistema da economia com abrangência global, porém com ramificações em todas as regiões¨. Essa não é uma proposta antimercado, esclareceu. ¨Nós precisamos de mercado porque a escala das trocas elementares só pode ser alcançada por meio de intercâmbios regulados e liberados. É uma proposta que quer ligar de forma dinâmica as comunidades locais ao espaço amplo da solidariedade global, o que seria possível através das novas tecnologias, se controladas de forma adequada pela sociedade¨. Da mesma forma, afirmou, ¨não é uma proposta anti-estado, mas exige que a economia pública possa estar imbuída dos valores de uma economia moral, através da democratização dos sistemas de representação, colocando-se à disposição das maiorias que pretende representar. Coraggio concluiu: "não pode haver democracia sem democratizar a economia; e não pode haver economia sem democracia¨.


Mais de 1.700 pessoas assistiram ao debate. Composta por cinco conferencistas, a mesa teve três mulheres - incluindo a moderadora. Sinal de que outro mundo é possível, quando os que lutam por ele estão dispostos a transformar a si mesmos.

 


carneviva.org

..........