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1936
Anarco-sindicalistas iniciam processo revolucionário durante Guerra
Civil espanhola. Funcionários
ocupam empresas capitalistas,
tomam os meios de produção,
destronam patrões e implantam
a autogestão. Alguns ramos industriais
são dominados por inteiro: desde
a obtenção da matéria-prima
até a distribuição. Uma rede
de economia revolucionária floresce.
Dura pouco tempo, não mais que
dois anos, e sucumbe depois
da vitória militar dos fascistas
de Franco.
Século XXI
Crise no capitalismo. Desindustrialização das economias periféricas.
Quebradeira geral. Desempregados
tomam empresas falidas e passam
a geri-las. Movimentos sociais
criam cooperativas de produção
agrícola. Surge o embrião de
uma rede de comércio, chamada
economia solidária.
Tempos diferentes, fenômenos
aparentemente parecidos, propostas
para um mundo novo. Mas há uma
diferença fundamental: Na espanha,
a autogestão das empresas era
um braço da revolução; hoje,
a economia solidária procura
ainda um corpo para se sustentar.
Esse foi o centro do I Seminário
Economia Popular Solidária,
realizado dia 1º, na PUC, durante
o Fórum Social Mundial. Discutir
como viabilizar a economia popular
solidária. Imaginar como pequenos
núcleos de produção podem se
pautar não pela lógica mercadológica,
mas por valores morais, seja
lá o que isso signifique. As
definições do conceito de economia
solidária são inúmeras, ora
contraditórias, ora complementares.
"É um novo modo de acumulação
baseado em valores humanos capazes
de sustentar o desenvolvimento",
disse o professor chileno Luiz
Migliato. "O lucro não pode
ser o objetivo principal das
relações humanas", opinou a
peruana Rosa Guillén. "É um
processo de promover o dsenvolvimento
das capacidades dos habitantes
do planeta e seguir formas de
consumo nacional que estejam
em harmonia com a natureza",
definiu José Luis Coraggio,
professor da Universidade General
Sarmiento, da Argentina. "É
um processo de radicalização
da democracia", disse Paul Singer,
professor da Universidade de
São Paulo (USP).
Fato é que a economia solidária
virou coqueluche e está no discurso
dos sem terra, dos capitalistas
reformistas, de políticos de
países ricos. No Brasil, universidades
públicas montam cooperativas
para trabalhar com a nova forma
de produção. Os lançamentos
de livros sobre o assunto espalham-se
pelo mundo. Mas muitas experiências
de autogestão fracassam. Concorrer
num mercado capitalista com
um empreendimento dito solidário
não é tarefa fácil. A criação
de uma rede de comércio solidário
foi apontada no seminário como
uma das saídas para essa questão.
Para Paul Singer, há também
outro problema: a falta de recursos.
"Sem uma cooperativa de crédito
popular, de finança solidária,
esses empreendimentos têm dificuldade
em sobreviver. Os clubes de
trocas, utilizados agora na
Argentina, se mostram alternativas
para países de economia estranguladas."
Mas a canadense Nancy Neantam,
coordenadora da rede de economia
solidária do Quebec, vai um
pouco mais adiante. "Depois
de várias experiências, temos
plena consciência de que a economia
solidária exige uma radicalização
da democracia", diz Nancy. E
isso envolve, claro, a cena
política. "A democracia parlamentar,
a representatividade, votar
de quatro em quatro anos é insuficiente.
Para a economia solidária se
consolidar, é preciso uma democratização
em todos os setores", afirma
a canadense, ressaltando que
nada vai substituir o estado
e o seu papel. "Temos de buscar
um outro modelo, a manipulação
do sistema pela classe dominante
deixou a democracia que conhecemos
desgastada. Democracia é quando
podemos transformar a realidade,
e hoje não é isso que acontece",
avalia ela. Para Nacy, a economia
solidária não ganha destaque
nos grandes jornais canadenses
justamente por essa manipulação.
"A mídia está interessada nas
multinacionais da bolsa, com
os poderosos, a elite, não conosco."
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