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Economia solidária exige novo modelo político
Jorge Pereira Filho
publicado originalmente na Ciranda da Informação Independente



1936

Anarco-sindicalistas iniciam processo revolucionário durante Guerra Civil espanhola. Funcionários ocupam empresas capitalistas, tomam os meios de produção, destronam patrões e implantam a autogestão. Alguns ramos industriais são dominados por inteiro: desde a obtenção da matéria-prima até a distribuição. Uma rede de economia revolucionária floresce. Dura pouco tempo, não mais que dois anos, e sucumbe depois da vitória militar dos fascistas de Franco.

Século XXI

Crise no capitalismo. Desindustrialização das economias periféricas. Quebradeira geral. Desempregados tomam empresas falidas e passam a geri-las. Movimentos sociais criam cooperativas de produção agrícola. Surge o embrião de uma rede de comércio, chamada economia solidária.

Tempos diferentes, fenômenos aparentemente parecidos, propostas para um mundo novo. Mas há uma diferença fundamental: Na espanha, a autogestão das empresas era um braço da revolução; hoje, a economia solidária procura ainda um corpo para se sustentar.

Esse foi o centro do I Seminário Economia Popular Solidária, realizado dia 1º, na PUC, durante o Fórum Social Mundial. Discutir como viabilizar a economia popular solidária. Imaginar como pequenos núcleos de produção podem se pautar não pela lógica mercadológica, mas por valores morais, seja lá o que isso signifique. As definições do conceito de economia solidária são inúmeras, ora contraditórias, ora complementares. "É um novo modo de acumulação baseado em valores humanos capazes de sustentar o desenvolvimento", disse o professor chileno Luiz Migliato. "O lucro não pode ser o objetivo principal das relações humanas", opinou a peruana Rosa Guillén. "É um processo de promover o dsenvolvimento das capacidades dos habitantes do planeta e seguir formas de consumo nacional que estejam em harmonia com a natureza", definiu José Luis Coraggio, professor da Universidade General Sarmiento, da Argentina. "É um processo de radicalização da democracia", disse Paul Singer, professor da Universidade de São Paulo (USP).

Fato é que a economia solidária virou coqueluche e está no discurso dos sem terra, dos capitalistas reformistas, de políticos de países ricos. No Brasil, universidades públicas montam cooperativas para trabalhar com a nova forma de produção. Os lançamentos de livros sobre o assunto espalham-se pelo mundo. Mas muitas experiências de autogestão fracassam. Concorrer num mercado capitalista com um empreendimento dito solidário não é tarefa fácil. A criação de uma rede de comércio solidário foi apontada no seminário como uma das saídas para essa questão. Para Paul Singer, há também outro problema: a falta de recursos. "Sem uma cooperativa de crédito popular, de finança solidária, esses empreendimentos têm dificuldade em sobreviver. Os clubes de trocas, utilizados agora na Argentina, se mostram alternativas para países de economia estranguladas."

Mas a canadense Nancy Neantam, coordenadora da rede de economia solidária do Quebec, vai um pouco mais adiante. "Depois de várias experiências, temos plena consciência de que a economia solidária exige uma radicalização da democracia", diz Nancy. E isso envolve, claro, a cena política. "A democracia parlamentar, a representatividade, votar de quatro em quatro anos é insuficiente. Para a economia solidária se consolidar, é preciso uma democratização em todos os setores", afirma a canadense, ressaltando que nada vai substituir o estado e o seu papel. "Temos de buscar um outro modelo, a manipulação do sistema pela classe dominante deixou a democracia que conhecemos desgastada. Democracia é quando podemos transformar a realidade, e hoje não é isso que acontece", avalia ela. Para Nacy, a economia solidária não ganha destaque nos grandes jornais canadenses justamente por essa manipulação. "A mídia está interessada nas multinacionais da bolsa, com os poderosos, a elite, não conosco."




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