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Vivemos
o apogeu da expansão
voraz do capitalismo dos
oligopólios, dos
conglomerados e da especulação
financeira, cuja penetração
subverte todas as relações
político-culturais
e contamina corações
e mentes de jovens e adultos;
homens e mulheres; trabalhadores
e intelectuais; e, sobretudo,
dos homens de negócios.
No contexto de uma era
marcada pela marcha vitoriosa
da economia de mercado,
qual seria a relevância
do discurso e da prática
de uma economia solidária?
A resposta exige uma
análise cuidadosa,
baseada numa retrospectiva
da evolução
do sistema econômico
e na distinção
entre as aparências
e a essência dos
fenômenos sociais.
A visão superficial
(das aparências)
nos mostra o crescimento
espantoso das forças
produtivas, expresso num
valor do PMB (produto
mundial bruto) superior
a trinta trilhões
de US$, no início
do século XXI.
A afluência e o
consumo (inclusive o desperdício)
nos países mais
ricos chegaram a níveis
inéditos. E as
inovações
tecnológicas
o famoso progresso técnico
seguem em ritmo
e velocidade alucinantes,
impulsionadas por dispêndios
que chegam a quase um
trilhão de US$
por ano em pesquisa e
desenvolvimento (P&D).
No
outro lado da moeda, contemplando
a situação
da maioria da humanidade,
evidencia-se uma divisão
ou polarização
profunda, tanto entre
quanto dentro das sociedades,
com a expansão
da miséria, da
exploração
desapiedada do trabalho,
do obscurantismo típico
do fundamentalismo religioso
contemporâneo. Enfim,
uma volta à Idade
das Trevas. É às
luz dessas tendências
à polarização
social acompanhada por
ameaças à
liberdade e aos direitos
humanos que devemos analisar
criticamente as alternativas
presentes na dinâmica
das relações
econômicas e sociais.
A
apologia irrestrita da
competição
é ideológica
e não encontra
fundamento na História.
Ao contrário, é
possível afirmar
que a maior parte da evolução
da espécie humana
foi caracterizada por
associações
de cooperação
comunitárias, tais
como apresentam, ainda
hoje, certas tribos indígenas
do Brasil e de outros
continentes. A desestruturação
da vida comunitária
em conseqüência
da revolução
industrial no final do
século XVIII levou,
como reação,
à afirmação
de idéias e práticas
cooperativas, divulgadas
por Proudhon e pelos chamados
socialistas utópicos
(Fourier, Saint Simon,
Robert Owen, Michael Bakunin
e Peter Kropotkin) bem
como, na segunda metade
do século XIX,
ao socialismo de Marx
e Engels.
Inspirado
nessas idéias e
numa certa visão
messiânica, surgiu
no início do século
XX o movimento kibutziano
que fundou colônias
agrícolas coletivistas
na Terra Santa, naquela
época sob a dominação
do Império Otomano.
Os fundadores e seus membros
se comprometeram a viver
de acordo com os princípios
de propriedade coletiva
dos meios de produção,
a participação
de todos os membros da
comunidade no planejamento
e alocação
de recursos -- seja para
o consumo ou seja para
investimentos ,
mediante votação
democrática em
assembléias gerais.
A igualdade entre os gêneros
e a recusa da exploração
do trabalho assalariado
eram regras. Apesar da
escassez material e das
condições
ambientais adversas, os
membros do kibutz desenvolveram
intensa vida cultural
e social que refletiu,
além do idealismo,
um novo estilo de vida
e a fé no futuro
da humanidade. O kibutz
uma aventura
na utopia nas palavras
do antropólogo
norte-americano Melville
Spiro, fracassou sob as
pressões da necessidade
de construção
da sociedade israelense,
da absorção
de milhões de imigrantes
após a criação
do Estado de Israel, em
1948, e da entrada maciça
de capital estrangeiro,
sobretudo norte-americano.
A
segunda metade do século
XX viu também o
fracasso do socialismo
real da URSS,
com suas fazendas agrícolas
coletivistas (Kolkhozes)
e estatizadas (Sovkhozes)
e suas empresas industriais
estatais que falharam
por excesso de burocracia
e falta de motivação
dos trabalhadores. Com
o desmoronamento da URSS,
ruíram também
as sociedades altamente
centralizadas dos países
satélites, com
exceção
de Cuba, China e Vietnam.
Ao mesmo tempo, assistimos
a expansão do capitalismo
financeiro que acabou
penetrando nas sociedades
socialistas.
Por
que fracassaram essas
tentativas de organizar
a sociedade e suas economias
segundo princípios
mais justos e solidários?
Uma
economia solidária
exige, além do
desenvolvimento de sua
base material, um alto
grau de conscientização
e motivação
por parte de sua população,
movida por princípios
éticos e valores
de compaixão e
solidariedade.
Em
oposição
radical ao sistema de
competição,
a economia solidária
não pode ser um
produto do autoritarismo,
de uma administração
de uma só via,
de cima para baixo, que
torne a população
em objeto passivo. Ela
exige a participação
de todos, para se tornarem
cidadãos e, assim,
sujeitos do processo histórico.
Seria
isto uma utopia, uma visão
idealizada, ou trata-se
de uma proposta e projeto
de reorganização
social e política?
Foi em conseqüência
da insustentabilidade
e barbárie presentes
no atual sistema de mercado
que surgiram inúmeras
experiências de
reestruturação,
inclusive no Brasil, tais
como: o orçamento
participativo em Porto
Alegre, emulado depois
em outros municípios;
a ANTEAG Associação
Nacional de Trabalhadores
em Empresas Autogestionária;
cooperativas de produção
e consumo, de crédito
e de habitação,
consórcios de PMEs
(pequenas e médias
empresas) e associações
de municípios com
interesses e problemas
regionais comuns, como
por exemplo, a gestão
de bacias hidrográficas.
Em
todas essas experiências,
que hoje envolvem milhões
de pessoas e valores monetários
consideráveis verificamos,
em oposição
ao desenvolvimento capitalista
que prioriza a
competição,
a acumulação
e a busca de lucros sem
limites , uma forte
ênfase na justiça
social, na auto-realização
e na proteção
e conservação
dos recursos do meio ambiente.
Ao
rejeitarmos os axiomas
deterministas do progresso
técnico, de raça,
religião ou cultura,
afirmamos a centralidade
das decisões humanas
coletivas os
homens fazem sua história
na reconstrução
de nosso mundo que se
inclina perigosamente
para a barbárie.
A experiência histórica
e as tendências
atuais da evolução
social ensinam que os
caminhos da economia e
sociedade solidárias
não seguem por
trilhas de revolução
ou golpes de Estado, mas
crescem e se desenvolvem
paralelamente, nas entranhas
do próprio sistema
capitalista que cada vez
mais revela sua natureza
desumana e irracional
e, portanto, sua incompatibilidade
com os destinos da humanidade.
Afinal,
que tipo de sociedade
queremos? Que estilo de
vida almejamos para nós
e nossos filhos? Em vez
de estimularmos os nossos
filhos a competir, cumpre-nos
a tarefa de ensinar e
exemplificar as possibilidades
de cooperação,
como opção
de um estilo de vida alternativo.
Escapamos assim da pressão
avassaladora de padronização
e homogeneização
do comportamento e dos
valores, tal como antecipado
pelas visões pessimistas
de autores como George
Orwell e Aldous Huxley.
Se
não formos nós
os atores, quem serão?
E, se não for agora,
quando?
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