|
(...)
O
central da convivência humana
é o amor, as ações que constituem
o outro como um legítimo outro
na realização do ser social
que tanto vive na aceitação
e respeito por si mesmo quanto
na aceitação e respeito pelo
outro.
A biologia do amor se encarrega
de que isso ocorra como um processo
normal se se vive nela.
Mas
como se obtém na educação a
capacidade de ajustar-se a qualquer
domínio do conhecer (fazer)?
É
preciso, por acaso, saber tudo
desde o começo?
Não,
não precisa saber tudo desde
o começo, mas, sim, é necessária
uma postura reflexiva no mundo
no qual se vive; são necessários
a aceitação e o respeito por
si mesmo e pelos outros sem
a premência da competição.
Se
aprendi a conhecer e a respeitar
meu mundo, seja este o campo,
a montanha, a cidade, o bosque
ou o mar, e não a negá-lo ou
a destruí-lo, e aprendi a refletir
na aceitação e respeito por
mim mesmo, posso aprender qualquer
fazeres.
Se
a educação no Chile não leva
a criança ao conhecimento de
seu mundo no respeito e na reflexão,
não serve para os chilenos nem
para o Chile.
Se
a educação no Chile leva a aspirações
que desvalorizam o que nos é
próprio, convidando a um pensar
distante do cotidiano na fantasia
do que não se vive, a educação
no Chile não serve nem para
o Chile nem para os chilenos.
A
ambição pode, ocasionalmente,
levar à riqueza ou ao êxito
individual, mas não leva à transformação
harmônica do mundo na sabedoria
de uma convivência que não vai
gerar nem pobreza nem abuso.
O
que digo é também válido para
a educação do adolescente. O
adolescente moderno aprende
valores, virtudes que deve respeitar,
mas vive num mundo adulto que
os nega.
Prega-se
o amor, mas ninguém sabe em
que ele consiste porque não
se vêem as ações que o constituem,
e se olha para ele como a expressão
de um sentir. Ensina-se a desejar
a justiça, mas os adultos vivemos
na falsidade.
A
tragédia dos adolescentes é
que começam a viver um mundo
que nega os valores que lhes
foram ensinados. O amor não
é um sentimento, é um domínio
de ações nas quais o outro é
constituído como um legítimo
outro na convivência.
A
justiça não é um valor transcendente
ou um sentimento de legitimidade:
é um domínio de ações no qual
não se usa a mentira para justificar
as próprias ações ou as do outro.
Se
a educação média e superior
no Chile se fundam na competição,
na justificativa enganosa de
vantagens e privilégios, numa
noção de progresso que afasta
os jovens do conhecimento de
seu mundo limitando sua abordagem
responsável da comunidade que
os sustenta, a educação média
e superior do Chile não serve
para o Chile nem para os chilenos.
Se
a educação média e superior
nos convida à apropriação, à
exploração do mundo natural
e não à nossa coexistência harmônica
com ele, essa educação não serve
nem para o Chile nem para os
chilenos.
Enfim,
a responsabilidade surge quando
nos damos conta de se queremos
ou não as conseqüências de nossas
ações;
e
a liberdade surge quando nos
damos conta de se queremos ou
não nosso querer, ou não querer
as conseqüências de nossas ações.
Quer
dizer, responsabilidade e liberdade
surgem na reflexão que expõe
nosso pensar (fazer)
no âmbito das emoções a nosso
querer ou não querer as conseqüências
de nossas ações, num processo
no qual não podemos nos dar
conta de outra coisa a não ser
de que o mundo que vivemos depende
de nossos desejos.
Se
a educação no Chile não leva
os jovens chilenos à responsabilidade
e à liberdade de serem co-criadores
do mundo em que vivem porque
limita a reflexão, a educação
no Chile não serve nem para
o Chile nem para os chilenos.
Para que educar?
Às
vezes falamos como se não houvesse
alternativa para um mundo de
luta e competição, e como se
devêssemos preparar nossas crianças
e jovens para essa realidade.
Tal atitude se baseia num erro
e gera um engano.
Não
é a agressão a emoção fundamental
que define o humano, mas o amor,
a coexistência na aceitação
do outro como um legítimo outro
na convivência. Não é a luta
o modo fundamental de relação
humana, mas a colaboração.
Falamos de competição e luta
criando um viver em competição
e luta, e não só entre nós,
mas também com o meio natural
que nos possibilita. Assim,
dizem que os humanos devemos
lutar e vencer as forças naturais
para sobreviver. Mas não é assim.
A
história da humanidade na guerra,
na dominação que subjuga, e
na apropriação que exclui e
nega o outro, se origina com
o patriarcado. Na Europa, que
é nossa fonte cultural, antes
do patriarcado se vivia na harmonia
com a natureza, no gozo da congruência
com o mundo natural, na maravilha
de sua beleza - não na luta
com ela.
Para que educar?
Para
recuperar essa harmonia fundamental
que não destrói, que não explora,
que não abusa, que não pretende
dominar o mundo natural, mas
que deseja conhecê-lo na aceitação
e respeito para que o bem-estar
humano se dê no bem-estar da
natureza em que se vive. Para
isso é preciso aprender a olhar
e escutar sem medo de deixar
de ser, sem medo de deixar o
outro ser harmonia - sem submissão.
Quero
um mundo em que respeitemos
o mundo natural que nos sustenta,
um mundo no qual se devolva
e que se toma emprestado da
natureza para viver. Ao sermos
seres vivos, somos seres autônomos,
no viver não o somos.
Quero
um mundo no qual seja abolida
a expressão "recurso natural",
no qual reconheçamos que todo
processo natural é cíclico e
que, se interrompermos seu ciclo,
se acaba.
Na
história da humanidade, os povos
que não viram isso se destruíram
no esgotamento de seus chamados
recursos naturais. O progresso
não está na contínua complicação
ou mudança tecnológica, mas
na compreensão do mundo natural,
que permita recuperar a harmonia
e a beleza da existência nele,
com base no seu conhecimento
e no respeito por ele. Mas para
ver o mundo natural e aceitá-lo
sem pretender dominá-lo ou negá-lo,
devemos
aprender a aceitar-nos e a respeitar-nos
como indivíduos e como chilenos.
Uma
educação que não leva os chilenos
a aceitar-nos e respeitar-nos
como indivíduos e chilenos,
na dignidade de quem conhece,
aceita e respeita seu mundo
na responsabilidade e na liberdade
da reflexão, não serve para
o Chile nem para os chilenos.
Jesus
era um grande biólogo. Quando
ele fala de viver no reino de
Deus, fala de viver na harmonia
que traz consigo o conhecimento
e o respeito pelo mundo natural
que nos sustenta, e que permite
viver nele sem abusá-lo nem
destruí-lo.
Para
isso devemos abandonar o discurso
patriarcal da luta e da guerra,
e nos entregarmos ao viver matrístico
do conhecimento da natureza,
do respeito e da colaboração
na criação de um mundo que admita
o erro e possa corrigi-lo. Uma
educação que nos leve a atuar
na conservação da natureza,
a entendê-la para viver com
ela e nela sem pretender dominá-la,
uma educação que nos permita
viver na responsabilidade individual
e social que afaste o abuso
e traga consigo a colaboração
na criação de um projeto nacional
em que o abuso e a pobreza sejam
erros que se possam e se queiram
corrigir, esta sim, serve para
o Chile e para os chilenos.
O que fazer?
Não
castiguemos nossas crianças
por serem, ao corrigir suas
ações. Não desvalorizemos seu
saber. Guiemos nossas crianças
na direção de um fazer (saber)
que tenha relação com seu mundo
cotidiano.
Convidemos
nossas crianças a olhar o que
fazem e, sobretudo, não as levemos
a competir.
*
* * * * * * *
*
Humberto Maturana é um
dos maiores expoentes do mundo
científico a tratar de
questões indispensáveis
à compreensão
do ser humano como o conhecimento,
a linguagem, as emoções,
a psiquê e a autoconsciência
de maneira inovadora e com um
modo especial de ver de um biólogo.
Seu trabalho é conhecido
principalmente na Alemanha,
Canadá e nos Estados
Unidos, onde têm sido
desenvolvidos diferentes aspectos
de suas idéias em uma
diversidade de áreas
que vão do Direito, Terapia
de Família e Sociologia,
a áreas mais técnicas
como Lingüística,
Ciências Cognitivas, Imunologia,
Psicologia Organizacional.
Desde seu curso de Biologia
em Londres, seu Doutoramento
em Harvard e no MIT, é
para sua terra natal que Humberto
Maturana sempre retorna, dedicando-se
ao ensino de Biologia e à
pesquisa na Faculdade de Ciências
da Universidade do Chile, em
Santiago.
[texto retirado da contra-capa
do livro A Ontologia da Realidade,
de Humberto Maturana, editora
UFMG 2001]
Veja
também do mesmo autor:
.
Autopoiesis and Cognition (Reidel,
1980);
.
El Arbol del Conocimiento (Editora
Universitaria, Chile, 1984);
.
Emociones y Lenguaje en Educación
y Política (Livraria
Hachete, Chile, 1990);
.
El Sentido de lo Humano (Livraria
Hachete, Chile, 1991);
.
Amor y Juego: Fundamentos Olvidados
de lo Humano (Livraria Hachete,
Chile, 1994);
|