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O
espírito - o sopro da vida -
é o que temos em comum com todos
os seres viventes.
É o que nos alimenta e nos mantém
vivos.
A
espiritualidade, ou a vida espiritual,
é geralmente compreendida como
um modo de ser que decorre de
uma profunda experiência da
realidade, chamada de experiência
"mística", "religiosa"
ou "espiritual".
A literatura das religiões do
mundo inteiro nos dá numerosas
descrições dessa experiência,
e todas essas religiões tendem
a concordar em que se trata
de uma experiência direta e
não-intelectual da realidade,
dotada de algumas características
fundamentais que independem
totalmente dos contextos históricos
e culturais. Uma das mais belas
descrições atuais dessa experiência
pode ser encontrada num curto
ensaio intitulado "Spirituality
as Common Sense", de
autoria do psicólogo, escritor
e monge beneditino David Steindl-Rast.
Seguindo o
sentido original do termo "espírito",
o de sopro da vida, o irmão
David caracteriza a experiência
espiritual como um momento de
vitalidade intensificada. Nossos
momentos espirituais são os
momentos em que nos sentimos
mais intensamente vivos. A
vitalidade ou vivacidade que
sentimos durante essa "experiência
de pico", como a chama
o psicólogo Abraham Maslow,
não envolve somente o corpo,
mas também a mente. Os budistas
dão o nome de "presença
da mente" a
esse estado de intensificação
da atenção, e curiosamente salientam
o fato de que essa "presença
da mente" é profundamente
ligada ao corpo e tem nele as
suas raízes. A espiritualidade,
portanto, é sempre encarnada.
Nas palavras do irmão David,
nós sentimos o nosso espírito
como "a plenitude da mente
e do corpo".
É evidente
que essa noção de espiritualidade
é coerente com a noção de mente
encarnada que está sendo desenvolvida
pela ciência da cognição. A
experiência espiritual é uma
experiência de que a mente e
o corpo estão vivos numa unidade.
Além disso, essa experiência
da unidade transcende não só
a separação entre mente e corpo,
mas também a separação entre
o
eu e o mundo.
A consciência dominante nesses
momentos espirituais é um reconhecimento
profundo da nossa unidade com
todas as coisas, uma percepção
de que pertencemos ao universo
como um todo.
Essa sensação de unidade com o mundo natural é plenamente
confirmada pela nova concepção
científica da vida. À medida
que compreendemos que a física
e a química básicas são as próprias
raízes da vida, que o desenvolvimento
da complexidade começou muito
tempo antes da formação das
primeiras células vivas e que
a vida evoluiu por bilhões de
anos usando sempre os mesmos
padrões e processos, percebemos
o quanto estamos ligados a toda
a teia da vida.
Quando
olhamos para o mundo à nossa
volta, percebemos que não estamos
lançados em meio ao caos e à
arbitrariedade, mas que fazemos
parte de uma ordem maior, de
uma grandiosa sinfonia
da vida. Cada uma
das moléculas do nosso corpo
já fez parte de outros corpos
- vivos ou não - e fará parte
de outros corpos no futuro.
Nesse sentido, nosso corpo não
morrerá, mas continuará perpetuamente
vivo, pois a vida continua.
Não são só as moléculas da vida
que temos em comum com o restante
do mundo vivente, mas também
os princípios básicos da organização
vital. E como também a nossa
mente é encarnada, nossos conceitos
e metáforas estão profundamente
inseridos nessa teia da vida,
junto com o nosso corpo e o
nosso cérebro. Com efeito,
nós fazemos parte do universo,
pertencemos ao universo e nele
estamos
em casa; e a percepção
desse pertencer, desse fazer
parte, pode dar um profundo
sentido à nossa vida.
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