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Filosofias da India
Heinrich Zimmer
Extraido do livro: 'Filosofias da India'

(...)

A principal finalidade do pensamento indiano eh desvelar e integrar na consciencia o que as forças da vida resistiram e ocultaram; nao e explorar e descrever o mundo visivel. A suprema e característica facanha da mentalidade brahmánica (e isso foi decisivo nao apenas para o desenvolvimento da filosofía indiana mas tambem para a historia da civilizacao indiana) foi o descobrimento do Eu/Self (atman) como entidade imperecivel e independente, alicerce da personalidade consciente e da estrutura corporal. Tudo o que normalmente conhecemos e expressamos de nos mesmos pertence aa esfera da impermanencia, aa esfera do tempo e do espaco; mas este Self (atman) eh eternamente, alem do tempo, alem do espaco e da obnubiladora malha da causalidade, alem de qualquer medida e do dominio da visao.

A filosofia Indiana, por  millares de anos tem se esforcado em conhecer este ‘Eu Adamantino’ e fazer este conhecimento efetivo na vida humana. Esta permanente inquietacao eh responsavel pela suprema e continua renovacao da impertubalidade que penetra as terriveis historias do mundo oriental – historias nao menos extraordinarias, nao menos apavorantes do que as nossas. Mas, atraves das vicissitudes da mutabilidade fisica, permanence a base espiritual da paz beatifica do Self: o Ser eterno, atemporal e imperecivel.

A filosofía indiana, como a ocidental, nos fala da estrutura e das potencias mensuraveis da psique, analisa as faculdades inteletuais do homem e as operacoes da mente, avalia varias teorias do entendimento humano, estabelece os métodos e as leis da lógica, classifica os sentidos e estuda os procesos pelos quais apreendemos, assimilamos, interpretamos e compreendemos as experiencias.

Os filósofos hindus, como os do Ocidente, discorrem sobre valores éticos e criterios morais. Estudam também os tracos visiveis da existencia fenoménica, em geral criticando os dados da experiencia externa e obtendo conclusoes sobre os principios de base. Em resumo: a India teve, e ainda tem, suas propias disciplinas psicológicas, éticas, físicas e metafísicas. Mas a preocupacao principal – em contraste notavel com os interesses dos modernos filósofos ocidentais – foi sempre a transfomacao, e nao a informacao; uma mudanca radical da natureza humana e, com isso, uma renovacao na sua compreensao nao soh do mundo exterior mas tambem da sua propria existencia, uma transformacao tao completa quanto possivel e que, ao ser coroada pelo exito, leva a uma total conversao ou renascimento.

Neste sentido a filosofía indiana tem lacos mais estreitos com a religiao do que com o pensamento critico e secularizado do ocidente moderno. Esta mais proxima dos filosofos antigos como Pitagoras, Empedocles, Platao, os estoicos, Epicuro e seus seguidores, Plotino e os pensadores neoplatonicos. Encontramos, novamente, este ponto de vista em Santo Agostinho, nos misticos medievais como Mestre Eckhart e nos misticos posteriores como Jacob Boehme de Silesia; nos filosofos romanticos reaparece em Schopenhauer.

As atitudes recíprocas entre o mestre hindu e o aluno inclinado a seus pes sao determinadas pelas exigencias da suprema tarefa de transformacao. O problema que os ocupa eh produzir uma especie de transmutacao alquimica da alma. O discipulo deve sair da escravidao, dos limites da ignorancia e da imperfeicao humana e transcender o plano da existencia cotidiana, nao pela mera compreensao intelectual, mas atraves de uma mudanca de coracao, uma transformacao que atinja o amago da existencia.

(…)

A historia do pensamento indiano durante o período que precede o nacimento e a missao de Buda (aprox.563-483 a.C.) revela uma gradual intensificacao da importancia do redescobrimento e assimilacao do Self. Os diálogos filosóficos dos Upanishadsindicam que durante o oitavo seculo a.C. houve uma mudanca de orientacao dos valores, deslocando o foco de atencao do universo exterior e limites tangiveis do corpo para o universo interior e intangivel, levando aas ultimas conclusoes logicas as perigosas implicacoes desta nova direcao. Ocorria um processo de retirada do mundo normalmente conhecido. As potencias do macrocosmo e as faculdades correspondents do microcosmo eram, em geral, desvalorizadas e relegadas com tal ousadia que todo o sistema religioso do periodo anterior corria o risco de ruir. Os reis dos deuses (Indra, Varuna) e os divinos sacerdotes dos deuses (Agni, Mitra, Brhaspati...) ja nao mais recebiam suas cotas de preces e sacrificios. Ao inves de direcionar a mente a estes simbolicos guardioes e modelos da ordem natural e social, sustentando-os e mantendo-os vigentes por meio de uma continua sequencia de ritos e meditacoes, o homem voltava sua atencao para o intimo, esforcando-se em conseguir manter-se num estado de crescente autoconsciencia, pela reflexao profunda, pela auto-analise sistematica, pela consciencia da respiracao e pelas disciplinas psicologicas do Yoga.

(…)

Evidentemente deparamos aqui com uma distincao entre o ‘eu’ fenomenico (a personalidade ingenuamente consciente) e o outro ‘Eu’ transcendental (atman), profundamente oculto, essencial ainda que esquecido, mas que ao ser recordado lanca um emocionante brado que aniquila o mundo “Maravilhoso sou!”

Este outro nao eh algo criado, mas sim o substrato de todas as coisas criadas, de todos os objetos, de todos os processos. “As armas nao o cortam, o fogo nao o queima, a agua nao o molha, o vento nao o seca.” As faculdades dos sentidos, normalmente direcionadas para fora, buscando e apreendendo os objetos e reagindo ante eles, em geral nao entram em contato com a esfera da realidade permanente, apenas com as mudancas passageiras das transformacoes pereciveis. Assim, a forca de vontade, orientada para a obtencao de fins mundanos, nao resulta em grande ajuda para o homem; nem os prazeres e as experiencias tradicionais dos sentidos podem iniciar a consciencia no segredo da plenitude da vida.

Encontra-se implicita em tal proposicao a base para uma mudanca de interesse, nao apenas nos meios e objetivos das pessoas comuns, mas tambem nos ritos e dogmas da religiao. A enfase se volta para a consciencia introvertida, voltada e dirigida ao amago da propria natureza do sujeito, alcanca aquela linha fronteirica onde os acidentes transitorios encontram sua fonte imutavel. E tal percepcao pode finalmente guiar a consciencia para alem da fronteira, fazendo-a fundir-se – perecer e tornar-se assim imperecivel – no substratum onipresente de toda substancia. Assim eh o Self (atman), fonte ultima, mantenedora e perduravel dos seres; doadora de todas as manifestacoes peculiares, das mudancas das formas e desvios do estado verdadeiro; sao os assim chamados vikara: transfomacoes e evolucoes da manifestacao cosmica. O sabio descobre as causas do que aqui eh exposto, ultrapassando o estagio do mero envolvimento, nao pela glorificacao e submissao aos deuses, mas pelo conhecimento, o conhecimento de Si.

 

 


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