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(...)
A
principal finalidade do
pensamento indiano eh
desvelar e integrar na
consciencia o que as forças
da vida resistiram e ocultaram;
nao e explorar e descrever
o mundo visivel. A suprema
e característica
facanha da mentalidade
brahmánica (e isso
foi decisivo nao apenas
para o desenvolvimento
da filosofía indiana
mas tambem para a historia
da civilizacao indiana)
foi o descobrimento do
Eu/Self (atman)
como entidade imperecivel
e independente, alicerce
da personalidade consciente
e da estrutura corporal.
Tudo o que normalmente
conhecemos e expressamos
de nos mesmos pertence
aa esfera da impermanencia,
aa esfera do tempo e do
espaco; mas este Self
(atman) eh eternamente,
alem do tempo, alem do
espaco e da obnubiladora
malha da causalidade,
alem de qualquer medida
e do dominio da visao.
A
filosofia Indiana, por millares
de anos tem se esforcado
em conhecer este ‘Eu
Adamantino’ e fazer
este conhecimento efetivo
na vida humana. Esta permanente
inquietacao eh responsavel
pela suprema e continua
renovacao da impertubalidade
que penetra as terriveis
historias do mundo oriental
– historias nao
menos extraordinarias,
nao menos apavorantes
do que as nossas. Mas,
atraves das vicissitudes
da mutabilidade fisica,
permanence a base espiritual
da paz beatifica do Self:
o Ser eterno, atemporal
e imperecivel.
A
filosofía indiana,
como a ocidental, nos
fala da estrutura e das
potencias mensuraveis
da psique, analisa as
faculdades inteletuais
do homem e as operacoes
da mente, avalia varias
teorias do entendimento
humano, estabelece os
métodos e as leis
da lógica, classifica
os sentidos e estuda os
procesos pelos quais apreendemos,
assimilamos, interpretamos
e compreendemos as experiencias.
Os
filósofos hindus,
como os do Ocidente, discorrem
sobre valores éticos
e criterios morais. Estudam
também os tracos
visiveis da existencia
fenoménica, em
geral criticando os dados
da experiencia externa
e obtendo conclusoes sobre
os principios de base.
Em resumo: a India teve,
e ainda tem, suas propias
disciplinas psicológicas,
éticas, físicas
e metafísicas.
Mas a preocupacao principal
– em contraste notavel
com os interesses dos
modernos filósofos
ocidentais – foi
sempre a transfomacao,
e nao a informacao; uma
mudanca radical da natureza
humana e, com isso, uma
renovacao na sua compreensao
nao soh do mundo exterior
mas tambem da sua propria
existencia, uma transformacao
tao completa quanto possivel
e que, ao ser coroada
pelo exito, leva a uma
total conversao ou renascimento.
Neste
sentido a filosofía
indiana tem lacos mais
estreitos com a religiao
do que com o pensamento
critico e secularizado
do ocidente moderno.
Esta mais proxima dos
filosofos antigos como
Pitagoras, Empedocles,
Platao, os estoicos,
Epicuro e seus seguidores,
Plotino e os pensadores
neoplatonicos. Encontramos,
novamente, este ponto
de vista em Santo Agostinho,
nos misticos medievais
como Mestre Eckhart
e nos misticos posteriores
como Jacob Boehme de
Silesia; nos filosofos
romanticos reaparece
em Schopenhauer.
As
atitudes recíprocas
entre o mestre hindu e
o aluno inclinado a seus
pes sao determinadas pelas
exigencias da suprema
tarefa de transformacao.
O problema que os ocupa
eh produzir uma especie
de transmutacao alquimica
da alma. O discipulo deve
sair da escravidao, dos
limites da ignorancia
e da imperfeicao humana
e transcender o plano
da existencia cotidiana,
nao pela mera compreensao
intelectual, mas atraves
de uma mudanca de coracao,
uma transformacao que
atinja o amago da existencia.
(…)
A
historia do pensamento
indiano durante o período
que precede o nacimento
e a missao de Buda (aprox.563-483
a.C.) revela uma gradual
intensificacao da importancia
do redescobrimento e assimilacao
do Self. Os diálogos
filosóficos dos Upanishadsindicam
que durante o oitavo seculo
a.C. houve uma mudanca
de orientacao dos valores,
deslocando o foco de atencao
do universo exterior e
limites tangiveis do corpo
para o universo interior
e intangivel, levando
aas ultimas conclusoes
logicas as perigosas implicacoes
desta nova direcao. Ocorria
um processo de retirada
do mundo normalmente conhecido.
As potencias do macrocosmo
e as faculdades correspondents
do microcosmo eram, em
geral, desvalorizadas
e relegadas com tal ousadia
que todo o sistema religioso
do periodo anterior corria
o risco de ruir. Os reis
dos deuses (Indra, Varuna)
e os divinos sacerdotes
dos deuses (Agni, Mitra,
Brhaspati...) ja nao mais
recebiam suas cotas de
preces e sacrificios.
Ao inves de direcionar
a mente a estes simbolicos
guardioes e modelos da
ordem natural e social,
sustentando-os e mantendo-os
vigentes por meio de uma
continua sequencia de
ritos e meditacoes, o
homem voltava sua atencao
para o intimo, esforcando-se
em conseguir manter-se
num estado de crescente
autoconsciencia, pela
reflexao profunda, pela
auto-analise sistematica,
pela consciencia da respiracao
e pelas disciplinas psicologicas
do Yoga.
(…)
Evidentemente
deparamos aqui com uma
distincao entre o ‘eu’
fenomenico (a personalidade
ingenuamente consciente)
e o outro ‘Eu’
transcendental (atman),
profundamente oculto,
essencial ainda que esquecido,
mas que ao ser recordado
lanca um emocionante brado
que aniquila o mundo “Maravilhoso
sou!”
Este
outro nao eh algo criado,
mas sim o substrato de
todas as coisas criadas,
de todos os objetos, de
todos os processos. “As
armas nao o cortam, o
fogo nao o queima, a agua
nao o molha, o vento nao
o seca.” As faculdades
dos sentidos, normalmente
direcionadas para fora,
buscando e apreendendo
os objetos e reagindo
ante eles, em geral nao
entram em contato com
a esfera da realidade
permanente, apenas com
as mudancas passageiras
das transformacoes pereciveis.
Assim, a forca de vontade,
orientada para a obtencao
de fins mundanos, nao
resulta em grande ajuda
para o homem; nem os prazeres
e as experiencias tradicionais
dos sentidos podem iniciar
a consciencia no segredo
da plenitude da vida.
Encontra-se
implicita em tal proposicao
a base para uma mudanca
de interesse, nao apenas
nos meios e objetivos
das pessoas comuns, mas
tambem nos ritos e dogmas
da religiao. A enfase
se volta para a consciencia
introvertida, voltada
e dirigida ao amago da
propria natureza do sujeito,
alcanca aquela linha fronteirica
onde os acidentes transitorios
encontram sua fonte imutavel.
E tal percepcao pode finalmente
guiar a consciencia para
alem da fronteira, fazendo-a
fundir-se – perecer
e tornar-se assim imperecivel
– no substratum
onipresente de toda substancia.
Assim eh o Self (atman),
fonte ultima, mantenedora
e perduravel dos seres;
doadora de todas as manifestacoes
peculiares, das mudancas
das formas e desvios do
estado verdadeiro; sao
os assim chamados vikara:
transfomacoes e evolucoes
da manifestacao cosmica.
O sabio descobre as causas
do que aqui eh exposto,
ultrapassando o estagio
do mero envolvimento,
nao pela glorificacao
e submissao aos deuses,
mas pelo conhecimento,
o conhecimento de Si.
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