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Não
há duvida de que, em
qualquer avaliacao de um evento
como Forum Social Mundial, facilmente
se chegará à conclusão
de que poderia ter sido melhor.
Como se chegar à perfeição
- se é que ela existe
- em um evento que reuniu 133
mil pessoas, de 142 países
estrangeiros? Esses números
assustadores são indicativos
de que qualquer coisa que se
fale sobre o evento é
verdadeiro, mas jamais será
toda a verdade. Nem tenho aqui
a pretensão de atingi-la.
Quero
apenas falar sobre um aspecto
que vi e vivi. Como já
havia participado de dois desses
eventos - um em Porto Alegre,
outro em Caracas - estava preocupado
que, até a semana anterior,
pouco ou quase nada era divulgado
na grande mídia do Pará.
O pouco estava representado
por uma ou outra nota em uma
coluna, ou por entrevista de
representantes da elite econômica
do Pará, que é
composta por fazendeiros e madeireiros
em termos gerais. Em uma dessas
publicações o
entrevistado se dizia preocupado
com o FSM, pois trazia para
Belém do Pará
discussões de idéias
ja ultrapassadas. Essas eram
as notícias anteriores
ao evento. Ficava claro, assim,
que a elite econômica
da Amazônia não
gostaria de ver divulgado o
que se estava discutindo nos
campi universitários
que sediaram o FSM.
Não
sei quando foi a mudanca, mas,
para encurtar a conversa, nos
dias do evento os jornais tiveram
de sair com encarte e reportagens
traduzidas para o inglês
- algo jamais visto nesta longíqua
capital. Era estratégia
deles manter segredo sobre o
que fariam? Não creio.
Tiveram que se render ao óbvio.
Tudo em Belém girava
em torno do FSM. A cidade se
modificou. Os temas locais de
maior discussão antes
do FSM - violência e segurança
- tinham sido afetados diretamente
com a chegada de 300 homens
da Força Nacional. Os
jovens universitários
e secundaristas, mesmo sem a
grande imprensa influenciando,
tomaram o local das inscrições
nas vésperas e se inscreveram.
Aliás,
algo de extraordinário
foi a presença da juventude.
Na marcha de abertura, sob uma
chuva torrencial - que o genial
Leonardo Boff me tinha confidenciado
como a benção
ao FSM -, ela, a juventude,
mostrou sua força. Não
tenho dados dos outros Fóruns,
mas dificilmente aconteceu uma
marcha de abertura com tanta
gente, calculada em torno de
100 mil pessoas - por baixo.
Mais
do que o número de pessoas,
era impressionante o número
de etnias. A rica diversidade
cultural estava exposta. Os
parentes indígenas da
Pan-Amazônia tiveram a
chance de se conhecer, de estreitar
seus laços, de unir seus
propósitos, de se fortalecer.
Vi temas que afetam a uns, como
hidrelétricas na Amazônia,
serem estudados e debatidos
por outros que "ainda"
não passaram por essa
experiência traumática.
Vi jovens entendendo a existência
de trabalho escravo e se indignando.
Vi as mudanças climáticas
serem tratadas como questão
de sobrevivência por cientistas
e ribeirinhos. Vi o sistema
judiciário brasileiro
confessar o seu colapso ao lado
do sistema economico.
Enfim,
vi um novo modelo de desenvolvimento
da Amazônia sendo rascunhado.
Um modelo chamado de socioambiental,
que congrega desenvolvimento
econômico com preservação
ambiental. Esse modelo se contrapõe
ao modelo predatório
de desenvolvimento, o qual tem
por base quatro atividades básicas:
madeira, pecuária, mineração
e monocultura. Muitas das áreas
onde o modelo predatório
se desenvolveu eram habitadas
por várias gerações
de ribeirinhos, indígenas,
quilombolas... Foram expulsos
de suas terras. Eram as vozes
ativas nas discussões.
O
FSM na Amazônia proporcionou
que a região fosse apresentada
ao mundo pelos amazônidas.
As implicações
desse fato são muitas.
Vão desde a formação
de redes de solidariedade e
conscientização
até a criação
de grupos de entidades e pessoas
com temas específicos.
Exemplo disso foi a criação
do Fórum contra a violência
na Amazônia, capitaneado
pelo Comitê Dorothy, e
que uniu a luta de movimentos
urbanos e rurais em torno do
mesmo objetivo.
Alguns
críticos podem dizer
que tudo voltou ao "normal"
depois do FSM. Esquecem que
o processo de mudança
de consciência não
é uma corrida de cem
metros, mas uma maratona. E
que depende das ações
de cada um de nós para
que essas ideias se tornem reais.
Assim fica fácil entender
a entrevista do dirigente econômico
local quando tentou desqualificar
o FSM, pois traria ideias diferentes
para a região. Essas
ideias são perigosas
mesmo.
Ao
fim, restou claro que uma nova
Amazônia não é
apenas possível, mas
viável e necessária.
A semente foi plantada.
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