| Amar
e ser amado é o que
todos desejamos do berço
à velhice, mas nem
sempre o caminho está
aberto para viver o mais
básico dos sentimentos.
Segundo Bert Hellinger,
teólogo e terapeuta
alemão, há
como desemaranhar os laços
afetivos e refazer o fluxo
do amor com mais consciência
e menos ilusão.
"É
suficiente ter um bom
parceiro, não precisa
ser perfeito, pois o que
é perfeito não
se desenvolve, já
está pronto. A
imperfeição
é estimulante e
permite às duas
pessoas crescerem juntas",
defende o terapeuta alemão
Bert Hellinger, 78 anos,
autor do livro Para que
o Amor Dê Certo
(recém-lançado
pela ed. Cultrix). Há
mais de três décadas
ele trabalha fazendo atendimentos
individuais e para casais
e, baseado nessa vasta
experiência, sistematizou
o método chamado
constelações
familiares, que busca
primeiramente restabelecer
o fluxo do amor entre
pai, mãe e irmãos
para depois rever os laços
com parceiros amorosos.

Bert desfaz qualquer imagem
de amor baseada em ilusões
- ele acredita que esse
sentimento pode se expandir
na medida em que reconhecemos
e agradecemos o que cada
relacionamento acrescentou
a nossa vida.
O
desejo de amar e ser correspondido
é universal, por
isso o método de
Bert não encontra
barreiras culturais e
desperta interesse em
países muito diferentes.
Ele freqüentemente
trabalha na Europa, Japão,
China, México,
Colômbia, Nicarágua,
Canadá e Estados
Unidos e atrai grandes
platéias. "Há
poucos dias, estive na
Áustria, e 1,2
mil pessoas vieram me
ouvir. Gosto de partilhar
minhas descobertas. Nos
livros, escrevo que o
amor deve ser trocado,
deve ser dado e recebido
todo o tempo. Dar e receber
é um ótimo
equilíbrio",
disse ele em entrevista
a Bons Fluidos, no intervalo
de uma de suas inúmeras
viagens.
.
Em
sua terapia do amor, Hellinger
coloca como imprescindível
reconhecer a aceitação
do afeto experimentado
em relações
anteriores: um novo amor
só poderá
ser bem-sucedido se houver
o reconhecimento de tudo
o que nos foi dado pelos
demais relacionamentos.
A primeira relação
amorosa tem influência
sobre todas as outras,
constata. Segundo o terapeuta,
a rejeição
consciente ou inconsciente
de amores passados bloqueia
a força de um novo
amor. "Se você
amar alguém depois,
não poderá
agir como se não
tivesse vivido outro amor
antes. Se aceitar o que
viveu, com respeito aos
antigos parceiros, as
próximas relações
poderão ser mais
enriquecedoras do que
se você for vivê-las
como se fosse a primeira."
.
O
respeito do espaço
de cada um é outro
aspecto fundamental para
o sucesso de um relacionamento,
assinala Hellinger. Não
por acaso, ele diz que
para amar é preciso
aceitar duas solidões,
a sua própria e
a do outro. "Numa
relação
deve haver respeito por
segredos. Só assim
ela terá uma chance.
É ridículo
querer que se conte tudo
ao outro. Se houver respeito
pelos segredos, as pessoas
acabarão revelando
espontaneamente coisas
importantes. Mas não
se pode agir como um intruso
na alma da outra pessoa,
mesmo que o relacionamento
seja duradouro."
.
Além
do amor e da disponibilidade
para a convivência,
o terapeuta cita o sexo
como o terceiro elemento
essencial na relação
de um casal. "É
a base de tudo. É
fácil encontrar
alguém, ir para
cama com ele e, na manhã
seguinte, não saber
o que fazer. Você
não sente amor,
vocês não
vão ficar juntos,
é somente sexo."
Segundo Hellinger, para
ser completo, o sexo tem
de ser aprendido, exercitado
e combinado ao amor. "Muitas
vezes, quando as pessoas
fazem sexo, fecham os
olhos. Elas não
estão realmente
em contato com o outro,
não mais do que
consigo mesmas. Não
tenho nada contra, mas,
quando o amor também
atua, as pessoas são
capazes de ficar juntas
e partilhar uma vida comum,
o que é algo bastante
diferente", nota.
.
Os
primeiros laços
de amor são atados
na família, e Bert
Hellinger sustenta que
todos os familiares estão
ligados por uma "grande
alma comum". Essa
"consciência
coletiva comum" é
transmitida por sucessivas
gerações,
em uma corrente de influências,
incluindo experiências
dolorosas vivenciadas
pelo grupo.
Segundo
ele, toda terapia deve
trabalhar com a fonte
e, para cada pessoa, a
fonte primeira são
os pais. "Quem está
separado afetivamente
de seus pais está
separado de sua fonte",
resume. Por isso, Hellinger
não aceita nenhuma
queixa aos pais em seu
trabalho terapêutico.
"Você pode
olhar para seus pais de
diferentes formas. Durante
sua infância, podem
ter ocorrido experiências
dolorosas, que provocaram
certos ressentimentos
e até afastamentos.
Mas seus pais não
são melhores ou
piores do que os outros.
Aliás, pais perfeitos
são os piores.
O crescimento só
poderá ocorrer
com certas resistências
e dificuldades. Quando
um paciente reclama de
seus pais, está
fazendo-os responsáveis
por sua própria
incapacidade", nota.
.
Mesmo
tendo construído
uma teoria estabelecendo
determinadas leis comuns
a todos os relacionamentos,
Bert Hellinger define
sua terapia como empírica,
baseada na observação
e na experiência.
Ele diz não ter
um diagnóstico
global ou uma fórmula
mágica para fazer
com que o amor dê
certo. Cada caso tem características
únicas.
Hellinger
conclui: "Não
há um modelo a
ser seguido para alcançar
a felicidade. Existe a
felicidade das crianças,
que brincam esquecidas
de si mesmas, ou dos apaixonados.
Tudo isso é muito
bonito. Mas, nesse sentido,
realização
não é felicidade.
É estar em harmonia
com a grandeza, mas também
com o sofrimento e com
a morte. Isso possibilita
um reconhecimento profundo,
dá peso e serenidade.
É algo bem tranqüilo.
É a felicidade
como conquista. E não
tem a ver com ficar esquecido.
Tem a ver com a força
interior".
.
Muitos
dos problemas de relacionamento
(do casal e com os filhos)
que acontecem no presente,
na verdade têm a
ver com laços familiares
antigos, com a forma como
nossos pais, avós,
bisavós lidaram
com a exclusão,
a doença, a morte
ou o esquecimento de entes
muito próximos.
Essa é a base da
terapia das constelações
familiares, resultado
da experiência e
da observação
do alemão Bert
Hellinger em seu trabalho
de atendimento individual
e a casais durante mais
de três décadas.
.
Primeiro,
o paciente coloca a questão
que quer resolver e escolhe
pessoas do grupo para
representar seus pais,
irmãos e outros
membros da família.
"O paciente fica
de fora e tem a oportunidade
de observar a situação
de conflito que determinou
o bloqueio do amor. Por
exemplo, a morte de um
irmão mais velho
foi tão dolorosa
para os pais que eles
esqueceram o fato e ao
mesmo tempo superprotegeram
o filho menor. Claro,
isso é feito por
amor, mas impede que a
dor da perda seja transformada
e que o filho mais novo
possa ser livre para viver
sua história, sem
que ela seja condicionada
à perda",
explica Mimansa Erika
Farny, alemã radicada
em Goiás, discípula
direta de Hellinger e
responsável pela
introdução
das constelações
familiares no Brasil em
1997.
"Os
participantes respondem
a perguntas simples do
terapeuta. Elas revelam
a raiz do problema sem
interpretá-lo.
Assim os papéis
familiares são
reposicionados seguindo
uma ordem em que o amor
possa fluir livremente,
em que cada um retome
seu lugar. O trabalho
não é focado
em questões psicológicas,
mas nos padrões
de comportamento gerados
em determinado sistema
familiar", completa
Renato Shaan Bertate,
médico paulista,
especialista nessa linha
terapêutica.
Segundo
as constelações
familiares, há
uma ordem do amor que
favorece o fluxo afetivo
harmonioso - que de tão
simples fica difícil
cumprir na prática.
"O vínculo
do casal tem prioridade
sobre o vínculo
com os filhos. Os pais
cuidam dos filhos e não
o contrário. Se
houver filhos de outros
casamentos, eles devem
ser reconhecidos. Se,
por exemplo, homem e mulher
esquecem seus papéis
para serem apenas pai
e mãe, o casamento
enfraquece e o amor não
flui plenamente",
explica Mimansa.
As
sessões são
feitas em workshops nos
fins de semana. A resposta
a cada questão
pode durar de 15 minutos
a duas horas. "A
redefinição
dos papéis e as
mudanças necessárias
acabam acontecendo de
forma natural e beneficiam
todos os envolvidos afetivamente
na história",
segundo Renato.
.
Cultivar
reconhecimento e gratidão
- a pais, antepassados
e parceiros anteriores
- é fundamental
para que o amor do presente
dê certo. Renato
Bertate, especialista
nessa linha terapêutica,
propõe um exercício
que aumenta a consciência
sobre a harmonia ou desarmonia
nos relacionamentos.
"Feche
os olhos e imagine seu
pai e depois sua mãe.
Perceba quais os sentimentos
que surgem nesse momento
e se você pode reconhecer
o que eles fizeram de
bom, respeitá-los
e agradecer. Se isso causar
uma sensação
boa, a relação
é sadia. Se provocar
angústia, é
sinal de que há
algo a ser transformado.
Apenas o exercício
não é suficiente
para realizar o processo,
mas repeti-lo ajuda a
aumentar a disposição
para a aceitação
e o amor".
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