carneviva.org
   
 
 
 temas
 arte
 corpo
 ecologia
 economia
 educação
 estórias
 espírito
 filosofia
 mídia
 poesia
 política
 psicologia
 redes
 carneviva
 pagina inicial
 
 cadastro de emails
 
 áudio
 
 contato

 

 

Judaismo & Cristianismo
Bert Hellinger
Trecho de entrevista com a jornalista Gabriele Ten Hövel, publicada no livro 'Um lugar para os excluídos' (Editora Atman)


A ligação entre perpetradopres e vítimas

 

Quando assisti pela primeira vez suas constelações familiares, ao trabalhar com perpetradores nazistas o senhor ainda os mandava embora. Eram literalmente colocados porta afora. Naquela época o senhor dizia que os perpetradores tinham perdido seu direito de pertencer.

Sim, um perpetrador que fosse assassino eu mandava embora; outros não.


Portanto, ainda nao havia, no trabalho das constelacoes, a ideia de que, no nível anímico, perpetradores e vítimas pertencem à família.

A experiencia inicial era esta: o perpetrador sente-se atraído por sua vítima, ele vai ao encontro dela na medida em que sai da familia. Nessa medida, o procedimento era adequado. Mais tarde ficou patente que a vítima, seja quem for, pertence à família do perpetrador. Assim, em vez de o perpetrador ir até a vítima, esta passou a ser trazida.


Em outras palavras, quando se excluía o perpetrador, a vítima também era excluída, porque o senhor pensava que ela não pertencia ao sistema familiar?

Procedi assim por algum tempo. Então percebi que não é assim.


Como reconheceu isso?

A primeira vez em que isso ficou claro para mim foi num curso em Berna. Um homem constelou sua família. Ao terminar, disse: "Devo acrescentar que sou judeu, mas ninguém de minha família foi assassinado, pois morávamos na Suiça." Entretanto, sua mãe tinha se suicidado e também ele estava em risco de suicidar-se. Percebia-se que sua mãe e ele estavam em sua alma profundamente ligados às vítimas judias.
Então, coloquei simbolicamente sete pessoas como representantes dos judeus assassinados e, atrás deles, a uns dois metros de distância, sete representantes de seus assassinos. Em seguida pedi aos representantes das vítimas que se virassem para os perpetradores, e não interferi mais. Surgiu então um movimento entre os perpetradores e as vítimas. Os perpetradores foram dominados por uma imensa dor. Quando as vítimas viram isso, estenderam-lhes as mãos e os abraçaram. Um dos perpetradores disse: "Aqui está apenas um, mas existem centenas com quem ainda preciso defrontar-me". De repente, pudemos ver como os perpetradores e as vítimas estavam intimamente unidos, ligados por um profundo amor. Como isso foi possível? Perpetradores e vítimas puderam perceber que todos estavam entregues a um poder superior por trás deles. Um dos perpetradores disse: "Senti-me como um dedo numa poderosa mão, na mão de um poder ao qual estou totalmente entregue".
Essa foi a primeira experiencia nesse sentido. A partir daí, não pude mais colocar-me contra os perpetradores, como se eles fossem diferentes, como se fossem monstros e como se não fossem também impelidos por outro poder por trás deles.

(...)

 

Sobre anti-semitismo, judeus e cristãos

 

Então o senhor tambem ve o anti-semitismo como um poderoso movimento?

De fato foi assim - e não só na Alemanha. O anti-semitismo não é algo pessoal, é um campo. Mais precisamente, ele se compoe de dois campos: do campo dos judeus, que sao as vitimas, e do campo dos cristaos, os perpetradores. Esses dois campos nao se harmonizam, porque os judeus, dentro de seu campo, movem-se como vítimas, e os cristaos, dentro do seu campo, movem-se como perpetradores.
Em ambos os lados existe uma negação: entre os judeus, muitos nao olham para as vítimas com amor e respeito.


Os judeus nao olham para as vitimas? Mas são eles as vítimas!

Um exemplo: alguns judeus vieram de Israel a Cracóvia, com suas bandeiras azuis e coisas assim. Nao quiseram relacionar-se com os poloneses, foram para o seu hotel e quebraram tudo. Pelo que me fpo contado, isso aconteceu outras vezes. Nao tiveram nenhuma compaixao pelas vitimas, absolutamente nenhuma. Foram la para combater os outros. Ficam cegos para os judeus assassinados que choram nas janelas, não fizeram luto com eles.


Como é que deveriam olhar para as vítimas? Temos absolutamente o direito de fazer essa pergunta?

No sentido de acolher as vítimas no coração, mas muitos olham para as vitimas de uma forma diferente. Eles dizem: "Nós somos as vítimas" e olham para os perpetradores como maus. Dentro desse campo, nao conseguem proceder de outras maneira, a nao ser recordando constantemente o que aconteceu, mas sem amor pelas vitimas. É tambem dificil relacionar-se com essas pessoas porque elas nao se ligam às vitimas com amor, em seu proprio campo. Essa é a imagem que eu faço.


E o que acontece com os cristãos?

Com os cristaos acontece a mesma coisa, so que ao inverso. Eles nao olham para os perpetradores. Nao veem o mal que os cristaos fizeram aos judeus, da pior maneira, nos ultimos dois mil anos. Nao se ligam aos perpetradores, no sentido de dizer: "Nós tambem fazemos parte disso. Estamos no mesmo barco, no mesmo campo. Tivemos pelos judeus a mesma aversao que voces." De modo semelhante os judeus, em seu campo, nao olham para as vitimas, no sentido de dizer: "Nós estamos juntos nesse campo." Se conseguissem isso ganhariam, a partir de sua conexão com as vítimas, a força de abandonar, de certo modo, essa atitude de vítimas. O mesmo ocorre do lado dos cristãos. Eles não olham para os perpetradores do seu lado, não reconhecem que, de muitas maneiras, ainda se movem no mesmo campo.


Existem, contudo, muitas pesquisas, livros, publicações - todo um processo de elaboração crítica do anti-semitismo. Hoje é politicamente correto combater fortemente toda espécie de ideologia dos perpetradores. Como o senhor pode dizer que os cristãos não olham para os perpetradores? Eles se confrontaram com isso. O dito de Brecht: "O ventre continua fecundo..." incorporou-se ao nosso pensamento e à nossa cultura.

Eles não encaram os perpetradores no sentido de admitirem que estão no mesmo barco e que têm os mesmos sentimentos. No anti-semitismo isso se mostra abertamente até hoje, mas não apenas nele.


Ainda não entendo completamente, pois justamente esse anti-semitismo é fortemente combatido para que as pessoas não venham a ter os mesmos sentimentos! O que o senhor deseja, com vistas a uma solução?

Que os judeus, em seu campo, unam-se às vítimas, e que os cristãos, em seu campo, unam-se aos perpetradores. Que os olhem como pessoas, sem distinção moral. Que reconheçam: "Nós, neste campo, somos perpetradores" - ou "Nós neste campo somos vítimas." Quando ambos, judeus e cristãos, tiverem dado esse passo em seus campos, eles poderão entrar em relação mútua e encontrar uma solução - mas somente então, quando se nivelarem aos seus iguais, em seus campos.


Portanto, um outro tipo de diálogo entre judeus e cristãos?

Os diálogos costumeiros permanecem superficiais, não atingiram essa profundidade. Esses diálogos pretendem trazer algum alívio para os cristãos, sem que precisem admitir que são anti-semitas.


Por onde vou reconhecer que sou anti-semita? Por onde o senhor reconhece isso em si? Onde começa o anti-semitismo?

Onde começa o anti-semitismo? Com Jesus e Caifás, o sumo sacerdote. Ali existe um evento-chave. Jesus clama na cruz: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" O que significa isso? Significa também que Deus justificou os judeus.


Portanto Jesus se sente abandonado. O que tem isso a ver com anti-semitismo?

Jesus quis dizer que estava com a razão, inclusive no que fizera aos judeus. Ele os questionou e colocou-se do lado de Deus. Quando ele reconhece que Deus o abandonou, isso significa que Deus estava do lado dos judeus. Então ele deveria ir até Caifás e dizer: "Você tinha razão." E deveria beijá-lo.


Caifás era o sumo sacerdote que encaminhou a crucificação de Jesus.

Aí está a raiz de todo anti-semitismo. Somente quando os cristãos fizerem com Jesus esse caminho até Caifás e reconhecerem que Deus também estava do lado do judeus, somente quando juntos realizarmos isso interiormente, esse conflito poderá ser dissolvido. Ninguém pode dizer que Deus está do seu lado e não do outro - nisso reside toda a contenda entre judeus e cristãos.


Que tenho eu, que nasci posteriormente, a ver com isso? Não conheço judeus, meus pais não foram nazistas; de fato, fui educada como cristã, mas abandonei a igreja e também nçao a frequento - e contudo o senhor diz que tambem faço parte disso?

Naturalmente que faz parte disso.


E o senhor diz que enquanto eu não realizar internamente esse processo de me colocar conscientemente do lado dos perpetradores...

... não, não colocar-se do lado dos perpetradores, apenas reconhecer que também está no mesmo campo. Ninguém podem reinvidicar Deus para si: Nem Jesus, como vítima, nem os judeus, como perpetradores, podem reinvidica-lo para si. Quando alguém faz isso, Deus também toma o partido do outro.


Ainda não compreendi inteiramente.

Jesus se sentia como o enviado de Deus. Ele atacou os judeus, por exemplo, quando entrou no templo e derrubou as mesas dos cambistas. Ele se colocou à parte. Presumia que estava do lado de Deus. Reinvidicava Deus para si. Julgava-se melhor.


Mas aquilo que ele disse emocionou os homens. Ele era um rebelde contra a perda da fé.

O que ele disse é maravilhoso, para mim é extraordinário, mas aqui se trata do nível extremo, onde ninguém pode dizer: "Deus está do meu lado" ou: "Tenho o direito de esperar que ele ficará do meu lado." Essa é a última consequencia: Deus não está do lado das vítimas nem dos perpetradores. Ele não abandonou os perpetradores nem as vítimas. Trata-se de um nível totalmente diverso, um nível espiritual.


De quem pode partir a reconciliação?

O movimento que corta as raízes do anti-semitismo deveria vir dos cristãos. Que eles reconheçam, em face dos judeus: "Vocês também estão com a razão. Deus não está do nosso lado, ele está em ambos os lados." A reconciliação num nível religioso acontece, então, diante de Deus. Somente aí os cristãos poderão ver o que fizeram aos judeus, pois a situação se inverteu, os cristãos crucificaram os judeus.


Qual o bom efeito disso?

Cristãos e judeus poderão olhar juntos para o horror que aconteceu entre eles, e dizer "Ah, meu Deus - o que fizemos!" Ambos os lados poderão ver a insesatez, a dor e o sangue desses dois mil anos. Então poderão ver juntos Jesus e Caifás, juntos de um lado e de outro. Finalmente tudo terá passado.

 

 

 

 


carneviva.org

..........