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A
ligação entre
perpetradopres e vítimas
Quando
assisti pela primeira vez suas
constelações familiares,
ao trabalhar com perpetradores
nazistas o senhor ainda os mandava
embora. Eram literalmente colocados
porta afora. Naquela época
o senhor dizia que os perpetradores
tinham perdido seu direito de
pertencer.
Sim,
um perpetrador que fosse assassino
eu mandava embora; outros não.
Portanto, ainda nao havia,
no trabalho das constelacoes,
a ideia de que, no nível
anímico, perpetradores
e vítimas pertencem à
família.
A
experiencia inicial era esta:
o perpetrador sente-se atraído
por sua vítima, ele vai
ao encontro dela na medida em
que sai da familia. Nessa medida,
o procedimento era adequado.
Mais tarde ficou patente que
a vítima, seja quem for,
pertence à família
do perpetrador. Assim, em vez
de o perpetrador ir até
a vítima, esta passou
a ser trazida.
Em outras palavras, quando
se excluía o perpetrador,
a vítima também
era excluída, porque
o senhor pensava que ela não
pertencia ao sistema familiar?
Procedi
assim por algum tempo. Então
percebi que não é
assim.
Como reconheceu isso?
A
primeira vez em que isso ficou
claro para mim foi num curso
em Berna. Um homem constelou
sua família. Ao terminar,
disse: "Devo acrescentar
que sou judeu, mas ninguém
de minha família foi
assassinado, pois morávamos
na Suiça." Entretanto,
sua mãe tinha se suicidado
e também ele estava em
risco de suicidar-se. Percebia-se
que sua mãe e ele estavam
em sua alma profundamente ligados
às vítimas judias.
Então, coloquei simbolicamente
sete pessoas como representantes
dos judeus assassinados e, atrás
deles, a uns dois metros de
distância, sete representantes
de seus assassinos. Em seguida
pedi aos representantes das
vítimas que se virassem
para os perpetradores, e não
interferi mais. Surgiu então
um movimento entre os perpetradores
e as vítimas. Os perpetradores
foram dominados por uma imensa
dor. Quando as vítimas
viram isso, estenderam-lhes
as mãos e os abraçaram.
Um dos perpetradores disse:
"Aqui está apenas
um, mas existem centenas com
quem ainda preciso defrontar-me".
De repente, pudemos ver como
os perpetradores e as vítimas
estavam intimamente unidos,
ligados por um profundo amor.
Como isso foi possível?
Perpetradores e vítimas
puderam perceber que todos estavam
entregues a um poder superior
por trás deles. Um dos
perpetradores disse: "Senti-me
como um dedo numa poderosa mão,
na mão de um poder ao
qual estou totalmente entregue".
Essa foi a primeira experiencia
nesse sentido. A partir daí,
não pude mais colocar-me
contra os perpetradores, como
se eles fossem diferentes, como
se fossem monstros e como se
não fossem também
impelidos por outro poder por
trás deles.
(...)
Sobre
anti-semitismo, judeus e cristãos
Então
o senhor tambem ve o anti-semitismo
como um poderoso movimento?
De
fato foi assim - e não
só na Alemanha. O anti-semitismo
não é algo pessoal,
é um campo. Mais precisamente,
ele se compoe de dois campos:
do campo dos judeus, que sao
as vitimas, e do campo dos cristaos,
os perpetradores. Esses dois
campos nao se harmonizam, porque
os judeus, dentro de seu campo,
movem-se como vítimas,
e os cristaos, dentro do seu
campo, movem-se como perpetradores.
Em ambos os lados existe uma
negação: entre
os judeus, muitos nao olham
para as vítimas com amor
e respeito.
Os judeus nao olham para
as vitimas? Mas são eles
as vítimas!
Um
exemplo: alguns judeus vieram
de Israel a Cracóvia,
com suas bandeiras azuis e coisas
assim. Nao quiseram relacionar-se
com os poloneses, foram para
o seu hotel e quebraram tudo.
Pelo que me fpo contado, isso
aconteceu outras vezes. Nao
tiveram nenhuma compaixao pelas
vitimas, absolutamente nenhuma.
Foram la para combater os outros.
Ficam cegos para os judeus assassinados
que choram nas janelas, não
fizeram luto com eles.
Como é que deveriam
olhar para as vítimas?
Temos absolutamente o direito
de fazer essa pergunta?
No
sentido de acolher as vítimas
no coração, mas
muitos olham para as vitimas
de uma forma diferente. Eles
dizem: "Nós somos
as vítimas" e olham
para os perpetradores como maus.
Dentro desse campo, nao conseguem
proceder de outras maneira,
a nao ser recordando constantemente
o que aconteceu, mas sem amor
pelas vitimas. É tambem
dificil relacionar-se com essas
pessoas porque elas nao se ligam
às vitimas com amor,
em seu proprio campo. Essa é
a imagem que eu faço.
E o que acontece com os cristãos?
Com
os cristaos acontece a mesma
coisa, so que ao inverso. Eles
nao olham para os perpetradores.
Nao veem o mal que os cristaos
fizeram aos judeus, da pior
maneira, nos ultimos dois mil
anos. Nao se ligam aos perpetradores,
no sentido de dizer: "Nós
tambem fazemos parte disso.
Estamos no mesmo barco, no mesmo
campo. Tivemos pelos judeus
a mesma aversao que voces."
De modo semelhante os judeus,
em seu campo, nao olham para
as vitimas, no sentido de dizer:
"Nós estamos juntos
nesse campo." Se conseguissem
isso ganhariam, a partir de
sua conexão com as vítimas,
a força de abandonar,
de certo modo, essa atitude
de vítimas. O mesmo ocorre
do lado dos cristãos.
Eles não olham para os
perpetradores do seu lado, não
reconhecem que, de muitas maneiras,
ainda se movem no mesmo campo.
Existem, contudo, muitas
pesquisas, livros, publicações
- todo um processo de elaboração
crítica do anti-semitismo.
Hoje é politicamente
correto combater fortemente
toda espécie de ideologia
dos perpetradores. Como o senhor
pode dizer que os cristãos
não olham para os perpetradores?
Eles se confrontaram com isso.
O dito de Brecht: "O ventre
continua fecundo..." incorporou-se
ao nosso pensamento e à
nossa cultura.
Eles
não encaram os perpetradores
no sentido de admitirem que
estão no mesmo barco
e que têm os mesmos sentimentos.
No anti-semitismo isso se mostra
abertamente até hoje,
mas não apenas nele.
Ainda não entendo
completamente, pois justamente
esse anti-semitismo é
fortemente combatido para que
as pessoas não venham
a ter os mesmos sentimentos!
O que o senhor deseja, com vistas
a uma solução?
Que
os judeus, em seu campo, unam-se
às vítimas, e
que os cristãos, em seu
campo, unam-se aos perpetradores.
Que os olhem como pessoas, sem
distinção moral.
Que reconheçam: "Nós,
neste campo, somos perpetradores"
- ou "Nós neste
campo somos vítimas."
Quando ambos, judeus e cristãos,
tiverem dado esse passo em seus
campos, eles poderão
entrar em relação
mútua e encontrar uma
solução - mas
somente então, quando
se nivelarem aos seus iguais,
em seus campos.
Portanto, um outro tipo de
diálogo entre judeus
e cristãos?
Os
diálogos costumeiros
permanecem superficiais, não
atingiram essa profundidade.
Esses diálogos pretendem
trazer algum alívio para
os cristãos, sem que
precisem admitir que são
anti-semitas.
Por onde vou reconhecer que
sou anti-semita? Por onde o
senhor reconhece isso em si?
Onde começa o anti-semitismo?
Onde
começa o anti-semitismo?
Com Jesus e Caifás, o
sumo sacerdote. Ali existe um
evento-chave. Jesus clama na
cruz: "Meu Deus, meu Deus,
por que me abandonaste?"
O que significa isso? Significa
também que Deus justificou
os judeus.
Portanto Jesus se sente abandonado.
O que tem isso a ver com anti-semitismo?
Jesus
quis dizer que estava com a
razão, inclusive no que
fizera aos judeus. Ele os questionou
e colocou-se do lado de Deus.
Quando ele reconhece que Deus
o abandonou, isso significa
que Deus estava do lado dos
judeus. Então ele deveria
ir até Caifás
e dizer: "Você tinha
razão." E deveria
beijá-lo.
Caifás era o sumo
sacerdote que encaminhou a crucificação
de Jesus.
Aí
está a raiz de todo anti-semitismo.
Somente quando os cristãos
fizerem com Jesus esse caminho
até Caifás e reconhecerem
que Deus também estava
do lado do judeus, somente quando
juntos realizarmos isso interiormente,
esse conflito poderá
ser dissolvido. Ninguém
pode dizer que Deus está
do seu lado e não do
outro - nisso reside toda a
contenda entre judeus e cristãos.
Que tenho eu, que nasci posteriormente,
a ver com isso? Não conheço
judeus, meus pais não
foram nazistas; de fato, fui
educada como cristã,
mas abandonei a igreja e também
nçao a frequento - e
contudo o senhor diz que tambem
faço parte disso?
Naturalmente
que faz parte disso.
E o senhor diz que enquanto
eu não realizar internamente
esse processo de me colocar
conscientemente do lado dos
perpetradores...
...
não, não colocar-se
do lado dos perpetradores, apenas
reconhecer que também
está no mesmo campo.
Ninguém podem reinvidicar
Deus para si: Nem Jesus, como
vítima, nem os judeus,
como perpetradores, podem reinvidica-lo
para si. Quando alguém
faz isso, Deus também
toma o partido do outro.
Ainda não compreendi
inteiramente.
Jesus
se sentia como o enviado de
Deus. Ele atacou os judeus,
por exemplo, quando entrou no
templo e derrubou as mesas dos
cambistas. Ele se colocou à
parte. Presumia que estava do
lado de Deus. Reinvidicava Deus
para si. Julgava-se melhor.
Mas aquilo que ele disse
emocionou os homens. Ele era
um rebelde contra a perda da
fé.
O
que ele disse é maravilhoso,
para mim é extraordinário,
mas aqui se trata do nível
extremo, onde ninguém
pode dizer: "Deus está
do meu lado" ou: "Tenho
o direito de esperar que ele
ficará do meu lado."
Essa é a última
consequencia: Deus não
está do lado das vítimas
nem dos perpetradores. Ele não
abandonou os perpetradores nem
as vítimas. Trata-se
de um nível totalmente
diverso, um nível espiritual.
De quem pode partir a reconciliação?
O
movimento que corta as raízes
do anti-semitismo deveria vir
dos cristãos. Que eles
reconheçam, em face dos
judeus: "Vocês também
estão com a razão.
Deus não está
do nosso lado, ele está
em ambos os lados." A reconciliação
num nível religioso acontece,
então, diante de Deus.
Somente aí os cristãos
poderão ver o que fizeram
aos judeus, pois a situação
se inverteu, os cristãos
crucificaram os judeus.
Qual o bom efeito disso?
Cristãos
e judeus poderão olhar
juntos para o horror que aconteceu
entre eles, e dizer "Ah,
meu Deus - o que fizemos!"
Ambos os lados poderão
ver a insesatez, a dor e o sangue
desses dois mil anos. Então
poderão ver juntos Jesus
e Caifás, juntos de um
lado e de outro. Finalmente
tudo terá passado.
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