|
"O
Forum de Mídia
Livre é o lugar
decisivo para tratarmos
da questão da "Mente
Livre", que proponho
e sustento, pois a "Verba
Livre", que o FML
quer obter através
de pressões legítimas
na direção
do Governo para que haja
distribuição
democrática das
verbas publicitárias
públicas, e o "Verbo
Livre", que o FML
também quer ajudar
a ampliar através
da cultura digital e das
redes, somente alcançarão
seu objetivo de transformação
social se os ativistas
estiverem livres das sequências
mentais do regime de servidão
tornando-se ele próprios
exemplos vivos no mundo
de comunicadores-cidadãos,
de cidadãos-comunicadores.
O que permite que hajam
relações
de confiança, sem
as quais as redes e toda
a esperança nelas
depositada por muitos
não pode se efetivar,
pois a confiança
é a base da construção
horizontal de agregadores
de transformação."
"Ou
seja mídia livre
só existe quando
o midialivrista é
de fato livre, fala com
voz própria, conseguiu
vencer em si mesmo a tendência
generalizada de agir com
base no interesse e no
poder auto-referenciados,
atitude que é naturalizada
e que impede, como disse,
as relações
de confiança. Como
criar uma rede de redes
se não há
confiança, se há
apenas luta pelo poder?
A referência para
uma ação
livre no mundo é
outra, ela precisa ser
a generosidade, este para
mim o outro nome do espírito
público,
da democracia, dos direitos
humanos, dos direitos
ambientais, dos direitos
das crianças de
dos adolescentes, das
políticas públicas,
da responsabilidade socioambiental.
"No
livro História
das Teorias da Comunicação,
o belga Armand Mattelart,
professor da Universidade
de Paris e um dos mais
eficientes críticos
do monopólio mundial
dos meios de comunicação,
diz que, nos dias atuais,
criados pela produção
de estados mentais (e
por isto criei em 2005
na Escola de Comunicação
a disciplina Construção
de Estados Mentais Não-violentos
na Mídia) a liberdade
política não
pode se resumir ao direito
de exercer a própria
vontade. Ele insiste,
e eu concordo plenamente,
que a liberdade política
hoje reside igualmente
no direito de dominar
o processo de formação
dessa vontade, já
que, na maior parte dos
casos, ela [a vontade]
é capturada por
um rio de mídia
que atravessa a pessoa
ao longo do seu desenvolvimento
emocional, educacional,
social e histórico.
Um fluxo que fala e sente
por ela."
"Hoje,
a pessoa sente e pensa
por meio da mídia
que, em nenhum momento,
a ajuda a parar e refletir.
A aceleração,
por exemplo, que os apresentadores
dos telejornais utilizam
é incompatível
com o ritmo respiratório,
metabólico. A respiração
fica suspensa. E suspensa,
impede que as informações
entrem e sejam metabolizadas.
Impedem, inclusive, que
a nossa mente (no sentido
do conjunto de percepções,
pensamentos e afetos)
tenha tempo de excretar
o que não serve."
Não
há cultura digital
que dê conta de
gerar relações
de confiança. Para
construirmos confiança
precisamos de algo ainda
mais difícil do
que a verba livre e o
verbo livre. Precisamos
de uma Mente Livre, livre
destes tempos de amor
líquido, no qual
os relacionamentos pouco
se sustentam ou não
se sustentam pois não
há conversa na
maioria das vezes, mas
tentativas cruzadas, e
em rede, de convencimento
do outro. Se Zygmunt Bauman
[sociólogo polonês]
mostra que estamos na
época do amor líquido,
é porque vivemos
uma era de relações
líquidas. No entanto,
o que garante o vigor
da relação
colaborativa nas redes,
conseqüentemente,
o vigor da cultura digital,
é exatamente a
estabilidade da confiança.
Mas o que assistimos é
a experiência do
atropelamento, das decisões
democráticas apenas
nominais, quando a prática
é a da imposição,
da traição
e da desconfiança.
A grande mídia
está, em geral,
neste estado, e os midialivristas
foram formados por ela,
nela. Não nos tornamos
livres apenas por uma
vontade de ser livre.
É um longo e complexo
processo, como mostram
por exemplo a psicanálise
e a psicologia social."
"Baseados
na luta política
auto-referenciada, na
vida como uma luta constante
e implacável como
única saída
imaginada por oposição
a um céu idealizado
e inexequível,
a organização
social se mantém,
atualmente, por uma estratégia
de dessubjetivação,
ou seja, de desespeciação:
de perda do caráter
de espécie, como
provam os atos crescentes
e sucessivos de horror
com os quais convivemos
e que estão presentes
nas relações
das equipes, das redes,
das amizades, dos relacionamentos."
"Estamos
diante, portanto, de sujeitos
não-instalados.
Portanto a verba livre
e o verbo livre com sujeitos
efetivamente não-instalados
no qual o que nos fala
é um vazamento
do inconsciente temos
é a expansão
da história conhecida,
seja ela pessoal e comunitária,
racial, de gênero,
de classe, etc., de traumas,
abusos, discriminações."
"É
decisivo portanto investirmos
na construção
de uma Mente Livre, para
que as redes sejam efetivamente
redes e não apenas
clubes, nos quais o sentido
de comunidade desaparece
e o de política
permanece como sendo apenas
a tentativa de administrar
grupos de pressão
orientados por princípios
vagos meta-organizados
pela luta pelo poder,
pela idéia vertical
que alguém que
sabe mais do que alguém.
Mesmo que esta alguém
seja de esquerda..."
"A
História prova
que os grupos que chegam
ao poder tendem a repetir
o mesmo padrão
de comportamento dos grupos
anteriores e prova também
que quando as pessoas
se juntam começam
logo a se engalfinhar
pelo poder. Ora precisamos
de uma fonte de referência
para a ação
que não seja a
própria ação
e uma fonte de referência
para a luta política
que não seja a
própria luta, porque
senão colaboramos
para o aprofundamento
da barbárie. Como
então conseguir
agenciamentos possíveis
de nossas singularidades
em torno de objetivos/desejos
comuns?"
"A
Teoria Social, por exemplo,
insiste em dizer que as
práticas humanas
são movidas pelo
interesse e pelo poder.
Ora, como é possível
então explicar
o desejo de democracia,
de políticas públicas
sociais, de responsabilidade
socioambiental? O midiativista,
o comunicador, o jornalista,
o cidadão, o profissional
precisa ser aquilo que
ele gostaria de ver no
mundo. Precisa dominar
o processo de formação
de sua vontade para não
ser capturado pelos valores
que mantêm a exclusão.
Vida privada e vida pública
são conceitos binários
ultrapassados. Precisamos
ser de fato o que gostaríamos
de ver no mundo, como
disse uma vez de maneira
lúcida Mahatma
Gandhi, aquele que derrubou
o pai do Império
que está aí,
e à cuja mídia
os midialivristas querem
superar. É decisivo
que se pense e se construa
uma Mente Livre, pois
só assim teremos
de fato uma Mídia
Livre".
|