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Foucault e as artimanhas da liberdade
Guilherme Castelo Branco
trechos do artigo ´Foucault em três tempos´
publicado na revista Mente Cérebro & Filosofia - vol.6


(...)

Segundo Foucault, seu problema não é tanto de ordem teórica, mas, isto sim, de caráter histórico e metodológico, o que faz com que sua pesquisa incida nas técnicas e tecnologias do poder. Trata-se de estudar como o poder domina e se faz obedecer. Sua constatação é que, após o século XVII, as tecnologias do poder desenvolveram-se enormemente, e que, entretanto, nenhuma pesquisa sobre esse tema foi realizada.

Para levar a frente tais análises, Foucault considera que noções como as de posse, origem, campo de ação do poder, entre outras, são substituídas pela hipótese de que o poder está disseminado por todas as partes do mundo social, numa trama complexa e heterogênea de relações, na qual as resistências a ele também tomam parte e têm papel determinante.

(...) Exemplar, nesse sentido, é o livro Vigiar e punir (1975), que consiste numa descrição das metamorfoses que ocorreram nos últimos séculos nas formas de punir e de controlar as pessoas, num processo que vai do controle e disciplinarização em espaços fechados até o controle, na atualidade, do comportamento e das ações até mesmo em espaços abertos.

O foco de Foucault é que o desenvolvimento das tecnologias de poder, na idade moderna, levou a um grau de intervenção ímpar sobre o ser humano: o poder se exerce sobre cada indivíduo, do mesmo modo que é exercido sobre as massas e converte-se num controle que nos fabrica, impondo a todos e a cada um de nós uma individualidade, uma identidade. Foucault sustenta que a individualidade está sendo crescentemente controlada pelo poder, que somos individualizados, no fundo, pelo próprio poder. A individualização portanto não se opõe a isso; pelo contrário, a identidade obrigatória de cada um de nós é efeito e instrumento do poder.

(...)

As técnicas e saberes, dentro do projeto de otimização do poder, têm o objetivo explícito de conhecer e controlar a vida subjetiva dos membros submetidos aos seus campos de ação, de maneira que Foucault alerta que a técnica característica do poder moderno é dispor, simultaneamente, de técnicas totalizantes e procedimentos que visam o "governo por individualização".

O governo por individualização, ou normalização, é o substituto contemporâneo e ativo do poder pastoral desenvolvido no passado pela Igreja. Mas agora, ele tem novos processos e conhecimentos à sua disposição: relatórios, pesquisas e bancos de informações nos quais estão disponíveis dados cada vez mais pormenorizados sobre a vida das pessoas, levando a um exercício do poder que não é viável sem conhecer o que se passa na cabeça dos indivíduos, sem explorar suas almas, sem convencê-los a revelar seus segredos mais íntimos.

O resultado desse processo de controle nada mais é do que o sujeito submetido a normas e padrões de constituição de sua subjetividade, e auto-identificado através de regras previamente perpetradas de conduta ideal. O assujeitado é o indivíduo condicionado e autocondicionado, é o bom moço instituído nos padrões individualistas de entender a vida e o mundo, sujeito regido pela moralidade capitalista e seu modo de vida burguês.

(...) De tal modo que a luta pela liberdade se inicia na própria esfera subjetiva. A questão, assim, é produzir, criar, inventar novos modos de subjetividade, novos estilos de vida, novos vínculos e laços comunitários, para além das formas de vida empobrecidas e individualistas implantados pelas modernas técnicas e relações de poder.

As lutas de resistência, no caso dos indivíduos, exigem um trabalho contínuo e sem descanso de afrontamento dos processos de autonomização contra as técnicas de individualização e normalização. (...) Criar subjetividade implica a descoberta de limites, a ultrapassagem desses limites, o reconhecimento de que novamente entrou-se em limites, o que leva a novas ultrapassagens, num processo sem fim.

(...)

Foucault considera que as resistências ao poder devem ser entendidas como aquelas que visam a defesa da liberdade. E aqui cabe chamar a atenção: se, em seus textos iniciais, os indivíduos pouco ou nada têm a fazer nas lutas de transformação do mundo social e político, no último Foucault, restauram-se o lugar e o papel dos indivíduos éticos, sensíveis e racionais no quadro das lutas políticas. Pois é o indivíduo que é livre: porque sente, pensa e age em conformidade com sua condição de ser livre.

A liberdade, todavia, não é para ser entrendida como uma petição de princípio meramente teórica; a condição de liberdade deve ser elucidada no plano da vida e das lutas sociais, e como tal é precária, contingente, móvel. O campo da liberdade se faz de atitudes e comportamentos, decorre da maneira pela qual os indivíduos, em suas lutas, em seus projetos, recusam as práticas que lhes são propostas, ou, muito além disto, constituem-se como sujeitos autônomos de suas práticas.

Foucault, na fase final de sua vida, deixa evidente que seu campo é o do presente histórico, que está interessado em contribuir para o processo criativo das lutas de resistência, que constituem uma nova economia de relações de poder. Enfim, cada tempo tem campos de libertação possíveis que estão diretamente ligados a práticas e estratégias que são, por sua vez, móveis e flexíveis. A criatividade das estratégias e das lutas, portanto, decorre das artimanhas da liberdade.

 

 

 

 


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