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(...)
Segundo
Foucault, seu problema
não é tanto
de ordem teórica,
mas, isto sim, de caráter
histórico e metodológico,
o que faz com que sua
pesquisa incida nas técnicas
e tecnologias do poder.
Trata-se de estudar como
o poder domina e se faz
obedecer. Sua constatação
é que, após
o século XVII,
as tecnologias do poder
desenvolveram-se enormemente,
e que, entretanto, nenhuma
pesquisa sobre esse tema
foi realizada.
Para
levar a frente tais análises,
Foucault considera que
noções como
as de posse, origem, campo
de ação
do poder, entre outras,
são substituídas
pela hipótese de
que o poder está
disseminado por todas
as partes do mundo social,
numa trama complexa e
heterogênea de relações,
na qual as resistências
a ele também tomam
parte e têm papel
determinante.
(...)
Exemplar, nesse sentido,
é o livro Vigiar
e punir (1975), que consiste
numa descrição
das metamorfoses que ocorreram
nos últimos séculos
nas formas de punir e
de controlar as pessoas,
num processo que vai do
controle e disciplinarização
em espaços fechados
até o controle,
na atualidade, do comportamento
e das ações
até mesmo em espaços
abertos.
O
foco de Foucault é
que o desenvolvimento
das tecnologias de poder,
na idade moderna, levou
a um grau de intervenção
ímpar sobre o ser
humano: o poder se exerce
sobre cada indivíduo,
do mesmo modo que é
exercido sobre as massas
e converte-se num controle
que nos fabrica, impondo
a todos e a cada um de
nós uma individualidade,
uma identidade. Foucault
sustenta que a individualidade
está sendo crescentemente
controlada pelo poder,
que somos individualizados,
no fundo, pelo próprio
poder. A individualização
portanto não se
opõe a isso; pelo
contrário, a identidade
obrigatória de
cada um de nós
é efeito e instrumento
do poder.
(...)
As
técnicas e saberes,
dentro do projeto de otimização
do poder, têm o
objetivo explícito
de conhecer e controlar
a vida subjetiva dos membros
submetidos aos seus campos
de ação,
de maneira que Foucault
alerta que a técnica
característica
do poder moderno é
dispor, simultaneamente,
de técnicas totalizantes
e procedimentos que visam
o "governo por individualização".
O
governo por individualização,
ou normalização,
é o substituto
contemporâneo e
ativo do poder pastoral
desenvolvido no passado
pela Igreja. Mas agora,
ele tem novos processos
e conhecimentos à
sua disposição:
relatórios, pesquisas
e bancos de informações
nos quais estão
disponíveis dados
cada vez mais pormenorizados
sobre a vida das pessoas,
levando a um exercício
do poder que não
é viável
sem conhecer o que se
passa na cabeça
dos indivíduos,
sem explorar suas almas,
sem convencê-los
a revelar seus segredos
mais íntimos.
O
resultado desse processo
de controle nada mais
é do que o sujeito
submetido a normas e padrões
de constituição
de sua subjetividade,
e auto-identificado através
de regras previamente
perpetradas de conduta
ideal. O assujeitado é
o indivíduo condicionado
e autocondicionado, é
o bom moço instituído
nos padrões individualistas
de entender a vida e o
mundo, sujeito regido
pela moralidade capitalista
e seu modo de vida burguês.
(...)
De tal modo que a luta
pela liberdade se inicia
na própria esfera
subjetiva. A questão,
assim, é produzir,
criar, inventar novos
modos de subjetividade,
novos estilos de vida,
novos vínculos
e laços comunitários,
para além das formas
de vida empobrecidas e
individualistas implantados
pelas modernas técnicas
e relações
de poder.
As
lutas de resistência,
no caso dos indivíduos,
exigem um trabalho contínuo
e sem descanso de afrontamento
dos processos de autonomização
contra as técnicas
de individualização
e normalização.
(...) Criar subjetividade
implica a descoberta de
limites, a ultrapassagem
desses limites, o reconhecimento
de que novamente entrou-se
em limites, o que leva
a novas ultrapassagens,
num processo sem fim.
(...)
Foucault
considera que as resistências
ao poder devem ser entendidas
como aquelas que visam
a defesa da liberdade.
E aqui cabe chamar a atenção:
se, em seus textos iniciais,
os indivíduos pouco
ou nada têm a fazer
nas lutas de transformação
do mundo social e político,
no último Foucault,
restauram-se o lugar e
o papel dos indivíduos
éticos, sensíveis
e racionais no quadro
das lutas políticas.
Pois é o indivíduo
que é livre: porque
sente, pensa e age em
conformidade com sua condição
de ser livre.
A
liberdade, todavia, não
é para ser entrendida
como uma petição
de princípio meramente
teórica; a condição
de liberdade deve ser
elucidada no plano da
vida e das lutas sociais,
e como tal é precária,
contingente, móvel.
O campo da liberdade se
faz de atitudes e comportamentos,
decorre da maneira pela
qual os indivíduos,
em suas lutas, em seus
projetos, recusam as práticas
que lhes são propostas,
ou, muito além
disto, constituem-se como
sujeitos autônomos
de suas práticas.
Foucault,
na fase final de sua vida,
deixa evidente que seu
campo é o do presente
histórico, que
está interessado
em contribuir para o processo
criativo das lutas de
resistência, que
constituem uma nova economia
de relações
de poder. Enfim, cada
tempo tem campos de libertação
possíveis que estão
diretamente ligados a
práticas e estratégias
que são, por sua
vez, móveis e flexíveis.
A criatividade das estratégias
e das lutas, portanto,
decorre das artimanhas
da liberdade.

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