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"Felizmente,
eu nunca convivi com gente muito
ajuizada." A declaração
da psiquiatra Nise da Silveira,
em uma entrevista em vídeo
disponível no Museu de
Imagens do Inconsciente, é
significativa de sua personalidade.
Durante toda sua vida, a médica
se dedicou com paixão
àqueles que a sociedade
em geral trata apenas como loucos
ou malucos.
Nise
da Silveira ficou conhecida
por se relacionar de forma humana
com os doentes mentais e apresentar
uma alternativa aos métodos
utilizados para tratamento psiquiátricos
(o desenvolvimento de um deles,
inclusive - a lobotomia - havia
dado a seu inventor o prêmio
Nobel). A médica criou
o que um de seus pacientes sabiamente
denominou de 'a emoção
de lidar'.
Lidar
com papel, com costura, dança,
argila. Lidar com os sentimentos,
a emoção, os medos
e prazeres. Acima de tudo, lidar
com o diferente. Essa foi a
grande descoberta da doutora
Nise. Seus métodos, admirados
pelo psiquiatra suíço
Carl Gustav Jung (1875-1961)
- em cujas idéias ela
se baseou -, devolveram a humanidade
a pessoas antes tratadas simplesmente
como alienadas e esquecidas
por médicos e familiares
nos manicômios.
O
contato com materiais e a possibilidade
de se expressar por meios alternativos
fizeram reemergir em muitos
doentes sentimentos profundos
e intensos. "O indivíduo
esquizofrênico é
considerado um embotado emocional",
lembra Luiz Carlos Mello, discípulo
da psiquiatra e atual diretor
do Museu de Imagens do Inconsciente.
Nise
nasceu em 15 de fevereiro de
1905 em Maceió (AL).
Sua educação básica
aconteceu em colégio
de freiras, onde só havia
meninas. Aos 16 anos, ela ingressou
na Faculdade de Medicina da
Bahia, onde era a única
mulher em uma turma com 156
homens. "Nunca aceite privilégio
por ser mulher", havia
lhe dito o pai. Ainda no início
da vida, enfrentou outros desafios,
como morar sozinha no Rio de
Janeio após a morte do
pai. Também fizeram parte
de sua trajetória alguns
anos de prisão, em companhia
do escritor Graciliano Ramos.
O
trabalho de Nise foi desenvolvido
por ela até o final de
sua vida, quando estava presa
a uma cadeira de rodas em conseqüência
de uma fratura. Mesmo enfraquecida
fisicamente, ela não
deixou de se dedicar a 'seus'
doentes e à luta contra
os métodos convencionais
de tratamento. Seu falecimento
por insuficiência respiratória,
em 30 de outubro de 1999, também
não significou o fim
de seu trabalho.
Diversos
hospitais já estavam
adotando seus métodos,
e o Museu de Imagens do Inconsciente,
criado por ela, continua a funcionar
no Centro Psiquiátrico
Pedro II, no Rio de Janeiro,
aberto para visitação.
Lá, é possível
encontrar as obras e as histórias
dos pacientes de Nise e aprender
um pouco mais sobre a psiquiatra.
Só não se deve
esperar um museu dentro das
normas - afinal, isso seria
contra os princípios
da doutora.
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