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A
necessidade de aperfeiçoar
e aprofundar a democracia
norteou muitos dos debates
do Fórum Social
Mundial, tanto em Porto
Alegre como em Salvador.
A questão permeou
temas aparentemente distintos
como o futuro das metrópoles
ou a refundação
do socialismo, mas um
ponto parecia ser consenso
entre todos os participantes:
efetivar a democratização
da mídia é
algo fundamental para
se construir um outro
modelo de sociedade. E
esse foi o tema de um
dos debates do Fórum
Temático da Bahia.
Não
há democracia plena
no Brasil. Temos uma democracia
limitada, negociada, expressão
do poder econômico,
disse a deputada federal
Luiza Erundina (PSB-SP).
Ela sustenta que os parlamentares
não têm interesse
em debater uma legislação
que democratize as comunicações,
porque boa parte deles
tem concessões.
A sociedade tem
que se mobilizar para
forçar o Congresso.
É uma luta política,
considera a deputada,
lembrando que o Código
Brasileiro das Telecomunicações,
de 1962, precisa ser revisto.
Bernard
Cassen, ex-diretor do
Le Monde Diplomatique,
afirmou que na América
Latina as mídias
se transformaram em uma
arma ideológica
e política. De
acordo com Cassen, Venezuela,
Equador e Bolívia
são exemplos de
como a mídia faz
oposição,
enquanto, para ele, seu
papel é fazer
informação.
Esses países
sofrem uma campanha de
mentira permanente.
Ele avalia que uma das
formas de democratizar
o ambiente das comunicações
é fortalecer outras
mídias, comunitárias
e independentes.
No
mesmo sentido, Robinson
Almeida, da Secretaria
de Comunicação
do governo do estado da
Bahia, defendeu que o
Estado incentive, com
recursos, essas experiências
comunitárias e
independentes, principalmente
regionais, para que elas
permaneçam existindo.
E mencionou o exemplo
de blogues da Bahia que
têm sido apoiados
pelo governo: É
uma forma de manter o
espaço de democratização
e preservar a cultura
e a identidade regional.
Hoje muitos desses blogues
têm uma alta repercussão
nas suas localidades.
Também
participando desta mesa,
o editor da Fórum,
Renato Rovai, disse que
os meios de comunicação
fazem parte de um tripé
cuja hegemonia precisa
ser contestada para que
se possa construir de
fato o outro mundo
possível sonhado
por muitos de nós.
Na avaliação
de Rovai, sem democratizar
a mídia, o Estado
e o sistema econômico
não há outro
mundo possível.
Rovai defende que as novas
tecnologias têm
um papel importante nessa
disputa pela democratização
das comunicações
e que é preciso
pensar, por exemplo, em
como construir uma rede
de economia solidária
neste segmento. E como
conectar essa rede com
a da economia solidária,
mais ampla, para
poder ir desconstruindo
por baixo a lógica
do sistema onde tudo se
torna mercadoria, inclusive
a informação.
O
professor da Universidade
Federal da Bahia Albino
Rubim ressalta o poder
da mídia de dar
visibilidade ou de silenciar
algo. A mídia
constrói a existência
pública e interpreta
a realidade. Por isso,
numa sociedade democrática,
onde há pluralidade
de interpretações
da realidade, é
fundamental que a mídia
seja plural.
Mídia
e FSM
As
novas tecnologias de informação
estão modificando
a correlação
de forças entre
os veículos de
comunicação
e diminuindo o poder dos
grandes conglomerados.
É o que afirma
Mario Lubetkin, do Inter
Press Service News Agency
(IPS), que também
chama a atenção
para o fato de a chamada
grande mídia
já não ter
tanta capacidade de penetração
na sociedade como antes.
A tecnologia é
parte da batalha ideológica,
senão o instrumento,
sustenta. Ele avalia que
foi muito grande o avanço
da democracia nas comunicações
nesses dez anos de Fórum.
No entanto, faz uma ressalva:
Quando nasceu, o
FSM conseguiu articular
milhares de pessoas e
ganhou espaço na
mídia global. Hoje,
ele perdeu esse espaço
no mundo e um dos motivos
foi não aproximar
os êxitos do Fórum
com a realidade.
Ele aponta que todas as
crises atuais, econômica,
energética, climática,
alimentícia, que
são temas da agenda
da comunicação,
vinham sendo debatidas
desde a primeira edição
do FSM, que anunciou que
elas poderiam acontecer,
mas não houve uma
comunicação
eficiente que garantisse
o mérito dos participantes
do Fórum em ter
antecipado essas discussões.
Mas
se, por um lado, a internet
tem o potencial de desconcentrar
a informação,
disputar o espaço
com grandes conglomerados
midiáticos não
é tão simples.
Blogues, sites, rádios
comunitárias, agências
independentes e outras
iniciativas de mídia
encontram dificuldades
para garantir sua sobrevivência.
Renato Rovai acha que
é preciso ser criativo
na busca de soluções
econômicas para
esses projetos e que isso
não pode significar
retrocesso na circulação
de informação
gratuita e livre para
todos.
Nesse
ponto, houve polêmica.
Bernard Cassen considera
que a informação
tem um custo e que essa
conta precisa ser paga
por quem a consome. Tem-se
a impressão de
que ela é grátis
por conta da internet,
mas o bom jornalismo custa
dinheiro, tem preço,
diz.
O
pós-Confecom
Há
um ano, no Fórum
de Belém, o governo
federal anunciava que
em 2009 seria realizada
a 1ª Conferência
de Comunicação
no país. Em dezembro
passado, a Confecom aconteceu.
Graças a esse evento
foi consenso entre os
debatedores que foi dado
o primeiro passo rumo
a alguma democratização
da mídia no Brasil.
Para
Erundina, foi a luta da
sociedade civil que fez
com que ocorresse o primeiro
passo no caminho da democratização
da mídia, com a
Conferência de Comunicação
(Confecom). A Confecom
aprovou uma série
de propostas, e, agora,
a luta deve continuar
para que elas se transformem
em leis e se tornem realidade,
avalia.
Robinson
Almeida entende que a
ação da
sociedade é realmente
muito importante porque
o movimento por
dentro da estrutura do
Estado é insuficiente
e tem que ser combinado
com a militância.
Ele argumenta que o debate
da comunicação
precisa avançar
para os sindicatos e associações.
Precisa se discutir
mais a mídia, porque
a sua democratização
é um tabu a ser
vencido, pondera.
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