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Vez
por outra ouvem-se recriminações
"à inércia
das pessoas". Como
não se rebelam
contra essa publicidade
que os envenena, contra
essas empresas que os
pressionam, contra o desemprego
que os afeta ou ameaça,
contra essa mídia
que falsifica as realidades
do mundo? Por que tantos
problemas privados não
desembocam mais freqüentemente
em protestos coletivos?
É
que a educação
para a passividade desarma
os indivíduos continuamente,
em todos os níveis.
Da criança pequena
ao empresário em
vias de se aposentar,
os modelos de adaptação
e de submissão
ao mundo tal como ele
é asseguram a perenidade
do "sistema",
penetrando profundamente
na interioridade do cidadão.
O
lingüista Alain Bentolila
relata uma experiência
surpreendente. Uma publicidade
contra o cigarro é
apresentada a quarenta
crianças, de quatro
a cinco anos. A mensagem
não poderia ser
mais clara. Um adolescente
oferece um cigarro a uma
garota e ela o destrói
dizendo: "um pouco
de liberdade conquistada".
Porém, à
pergunta feita: "o
que quer dizer esse filme,
por que ele é passado
na televisão?"
trinta e oito crianças
responderam: "isso
quer dizer que cigarro
é bom, é
preciso fumar". O
que expressa tal contra-senso?
Demonstra simplesmente
que a ideologia já
está moldada no
espírito da criança
de cinco anos. Para ela
não há dúvida:
1. É um filme curto,
é transmitido entre
os programas, logo é
uma publicidade; 2. Nessa
publicidade se fala de
cigarros: logo, trata-se
de um produto; 3. Se falamos
de um produto em uma publicidade,
só pode ser para
falar bem dele. Logo,
é bom fumar...
Se
esse esquema é
suficiente para modelar
a percepção
de um criança de
cinco anos, o que dizer
da imensa impregnação
ideológica nos
comerciais e nos filmes
publicitários?
É contínua
a valorização
de tudo o que é
veiculado pela televisão,
a ponto de os hipermercados
colocarem a tarja "Como
visto na tevê",
tanto nos produtos, quanto
nos seres humanos que
aí se vendem. O
mundo do consumo eufórico,
onipresente, impõe-se
a cada um como lugar natural
da vida social e meio
essencial para dar rédeas
soltas à personalidade.
Existir é consumir,
eis tudo. Escolher uma
marca é conferir-se
uma identidade, como indica
esta pequena antologia:
"Meu creme, sou eu",
"Meu Corsa, sou eu",
"Em Duvernoy, eu
sou mais eu", "Ser
Kick, ou nada", "Ser
Dim até o fim",
"Se você não
é Gémo,
você se tornará
", sem esquecer o
"clássico"
do pensamento pessoal
oferecido a todos "Seja
diferente: pense Pepsi
"... E eis que jornalistas
fazem esta espantosa descoberta,
em reportagem: "Para
se vestir bem
os jovens dos subúrbios
adoram as marcas".
Isso não passa
de mais um exemplo banal
da interiorização
pelos dominados do modelo
dominante.
Quero
comprar como sou
Mas,
escapam os adultos do
mito do produto que confere
identidade? Vejamos: em
setembro de 1999, o grupo
Camif lançou uma
grande campanha nacional
com slogans reveladores
"Eu quero comprar
como vivo", "Eu
quero comprar como sou",
"Eu quero comprar
como penso"... Como
é deliciosamente
ambíguo esse "como"
que liga a vida,
o ser e o pensamento ao
consumo! Como esse "eu
quero", afirmação
da identidade através
do produto comprado, é
poderoso em termos de
"comunicação"!
Identifiquem-se, camaradas
educadores! Cada um pode
fazer esta simples experiência:
observar por quinze minutos
os títulos e slogans
que pululam a cada semana
na mais insignificante
banca de jornais ou ponto
de ônibus. Não
é necessário
critério para decifrar:
a tirania do consumo explode
a olhos vistos. Veja esta
simples frase, enunciada
por uma grande revista,
em junho de 1999: "A
felicidade é uma
soma de pequenas felicidades."
Essas pequenas felicidades
são, precisamente,
as pequenas compras. A
felicidade reside, assim,
numa soma. Problema: a
felicidade está
numa quantidade ou num
sentido? Pergunta embaraçosa...
Mas,
pode-se perguntar, esse
modo de vida submisso
não é violado
pela invasão, nos
microcosmos domésticos,
de imagens de um mundo
que se move, que nos interpela,
e que as mídias
nos reenviam em face através
da TV? Não, absolutamente.
Ao fazer com que se apreenda
a época como um
espetáculo de consumo,
o modelo consumista
tornado reflexo
nos imuniza contra qualquer
mudança. Aquilo
que poderia nos perturbar,
vamos experimentar. A
ideologia do consumo,
a prima-dona, rege a "sociedade
de comunicação".
E já que se ensinou
ao espectador que o mundo
é consumível
e não transformável
, as grandes representações
que dele são oferecidas
serão selecionadas,
condicionadas e dimensionadas
como produtos.
(...)
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