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pensamento, verdade, transformação
Michel Foucault



- Mas e o seu interesse pelos que a sociedade rejeita?

- Eu analiso figuras e processos obscuros por duas razões: os processos políticos e sociais que permitiram colocar em ordem as sociedades da Europa ocidental não são mais aparentes: foram esquecidos ou transformados em habituais. Estes processos fazem parte de nossa paisagem mais familiar; e não os vemos mais. Porém, em seu tempo, a maioria deles escandalizou as pessoas.

Um dos meus objetivos é mostrar às pessoas que um bom número de coisas que fazem parte dessa paisagem familiar - que as pessoas consideram como universais - não são senão resultados de algumas mudanças históricas muito precisas. Todas as minhas análises vão contra a idéia de necessidades universais na existência humana. Mostram o caráter arbitrário das instituições e nos mostram qual é o espaço da liberdade que ainda dispomos e que mudanças podemos ainda efetuar.

(...)

- Na História da sexualidade você faz referência a quem "vira do avesso a lei, que antecipa, mesmo que pouco, a liberdade futura". Você também vê assim o seu trabalho?

- Não. Durante um período bem longo, as pessoas me pediam que lhes explicasse o que ia acontecer e que lhes desse um programa para o futuro. Sabemos muito bem que, mesmo quando inspirado pelas melhores intenções, esses programas se transformam em uma ferramenta, em um instrumento de opressão. A Revolução Francesa serviu-se de Rousseau, um amante da liberdade, para elaborar um modelo de opressão social. O stalinismo e o leninismo aterrorizariam Marx.

Meu papel - e este é um termo por demais pomposo - consiste em mostrar às pessoas que elas são muito mais livres do que pensam; que elas tomam por verdade, por evidência alguns temas que foram fabricados em um momento particular da história; e que essa pretensa evidência pode ser criticada e destruída. Mudar algo no espírito das pessoas: esse é o papel de um intelectual.

(...)

Veja, mesmo que eu resista em dizer, é verdade que eu não possa ser chamado de um bom acadêmico. Para mim o trabalho intelectual está ligado a isso que você define como uma forma de esteticismo - eu entendo isso como a transformação de si. Eu creio que meu problema seja esta estranha relação entre o saber, a erudição, a teoria e a história real.

Sei muito bem - e creio que eu saiba desde minha infância - que o saber é impotente em transformar o mundo. Talvez eu esteja errado. E estou seguro que estou errado de um ponto de vista teórico, pois eu sei muito bem que o saber transformou o mundo.

Mas se eu me refiro à minha própria experiência, tenho o sentimento que o saber não pode nada por nós e que o poder político é capaz de nos destruir. Todo o saber do mundo não pode nada contra isso. Tudo o que eu disse se liga não a isso que eu penso teoricamente (eu sei que é falso), mas a isso que eu deduzo de minha experiência própria.

Eu sei que o saber tem poder de nos transformar, que a verdade não é somente uma maneira de decifrar o mundo (talvez mesmo que isso que chamamos de verdade não decifre nada), mas que, se eu conheço a verdade, então eu serei transformado. E talvez salvo. Ou então eu morra, mas creio de todo modo, que seja a mesma coisa para mim.

É por isso, veja, que eu trabalho como um doente e que eu trabalhei como um doente toda minha vida. Eu não cuido de forma alguma do estatuto universitário disso que eu faço, porque meu problema é minha própria transformação.

É a razão pela qual, quando as pessoas me dizem: "você pensa isso, há alguns anos, e agora diz outra coisa", eu respondo: "vocês acreditam que eu trabalho tanto, há tantos anos pra dizer a mesma coisa e não ser transformado?"

 

 


 

 


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