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- Mas e o seu interesse
pelos que a sociedade
rejeita?
- Eu analiso figuras e
processos obscuros por
duas razões: os
processos políticos
e sociais que permitiram
colocar em ordem as sociedades
da Europa ocidental não
são mais aparentes:
foram esquecidos ou transformados
em habituais. Estes processos
fazem parte de nossa paisagem
mais familiar; e não
os vemos mais. Porém,
em seu tempo, a maioria
deles escandalizou as
pessoas.
Um
dos meus objetivos é
mostrar às pessoas
que um bom número
de coisas que fazem parte
dessa paisagem familiar
- que as pessoas consideram
como universais - não
são senão
resultados de algumas
mudanças históricas
muito precisas. Todas
as minhas análises
vão contra a idéia
de necessidades universais
na existência humana.
Mostram o caráter
arbitrário das
instituições
e nos mostram qual é
o espaço da liberdade
que ainda dispomos e que
mudanças podemos
ainda efetuar.
(...)
-
Na História da
sexualidade você
faz referência a
quem "vira do avesso
a lei, que antecipa, mesmo
que pouco, a liberdade
futura". Você
também vê
assim o seu trabalho?
-
Não. Durante um
período bem longo,
as pessoas me pediam que
lhes explicasse o que
ia acontecer e que lhes
desse um programa para
o futuro. Sabemos muito
bem que, mesmo quando
inspirado pelas melhores
intenções,
esses programas se transformam
em uma ferramenta, em
um instrumento de opressão.
A Revolução
Francesa serviu-se de
Rousseau, um amante da
liberdade, para elaborar
um modelo de opressão
social. O stalinismo e
o leninismo aterrorizariam
Marx.
Meu
papel - e este é
um termo por demais pomposo
- consiste em mostrar
às pessoas que
elas são muito
mais livres do que pensam;
que elas tomam por verdade,
por evidência alguns
temas que foram fabricados
em um momento particular
da história; e
que essa pretensa evidência
pode ser criticada e destruída.
Mudar algo no espírito
das pessoas: esse é
o papel de um intelectual.
(...)
Veja,
mesmo que eu resista em
dizer, é verdade
que eu não possa
ser chamado de um bom
acadêmico. Para
mim o trabalho intelectual
está ligado a isso
que você define
como uma forma de esteticismo
- eu entendo isso como
a transformação
de si. Eu creio que meu
problema seja esta estranha
relação
entre o saber, a erudição,
a teoria e a história
real.
Sei
muito bem - e creio que
eu saiba desde minha infância
- que o saber é
impotente em transformar
o mundo. Talvez eu esteja
errado. E estou seguro
que estou errado de um
ponto de vista teórico,
pois eu sei muito bem
que o saber transformou
o mundo.
Mas
se eu me refiro à
minha própria experiência,
tenho o sentimento que
o saber não pode
nada por nós e
que o poder político
é capaz de nos
destruir. Todo o saber
do mundo não pode
nada contra isso. Tudo
o que eu disse se liga
não a isso que
eu penso teoricamente
(eu sei que é falso),
mas a isso que eu deduzo
de minha experiência
própria.
Eu
sei que o saber tem poder
de nos transformar, que
a verdade não é
somente uma maneira de
decifrar o mundo (talvez
mesmo que isso que chamamos
de verdade não
decifre nada), mas que,
se eu conheço a
verdade, então
eu serei transformado.
E talvez salvo. Ou então
eu morra, mas creio de
todo modo, que seja a
mesma coisa para mim.
É
por isso, veja, que eu
trabalho como um doente
e que eu trabalhei como
um doente toda minha vida.
Eu não cuido de
forma alguma do estatuto
universitário disso
que eu faço, porque
meu problema é
minha própria transformação.
É
a razão pela qual,
quando as pessoas me dizem:
"você pensa
isso, há alguns
anos, e agora diz outra
coisa", eu respondo:
"vocês acreditam
que eu trabalho tanto,
há tantos anos
pra dizer a mesma coisa
e não ser transformado?"
 
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