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Ser
negro no Brasil é, pois, com
frequência, ser objeto de um
olhar enviesado. A chamada boa
sociedade parece considerar
que há um lugar predeterminado,
lá em baixo, para os negros
e assim tranquilamente se comporta.
Logo, tanto é incômodo haver
permanecido na base da pirâmide
social quanto haver "subido
na vida".
Pode-se
dizer, como fazem os que se
deliciam com jogos de palavras,
que aqui não há racismo (à moda
sul-africana ou americana) ou
preconceito ou discriminação,
mas não se pode esconder que
há diferenças sociais e econômicas
estruturais e seculares, para
as quais não se buscam remédios.
A naturalidade com que os responsáveis
encaram tais situações é indecente,
mas raramente é adjetivada dessa
maneira. Trata-se, na realidade,
de uma forma do apartheid à
brasileira, contra a qual é
urgente reagir se realmente
desejamos integrar a sociedade
brasileira de modo que, num
futuro próximo, ser negro no
Brasil seja, também, ser plenamente
brasileiro no Brasil.
Milton Santos
Todos
os grandes são contra políticas
de ação afirmativa. Folha de
S. Paulo, Estadão, Globo...
Os editoriais são freqüentes.
Nesse sentido, eu não esperava
mesmo, vou dizer por que: verifiquei
a posição dos grandes jornais
brasileiros nos anos que antecederam
a abolição do escravismo. É
impressionante a semelhança
de argumentos. Hoje se diz o
seguinte: "Como vai definir
quem é negro? Resolve o problema
da injustiça usando outra injustiça".
Na época diziam: "É uma injustiça
dilapidar o patrimônio dos fazendeiros".
Hélio Santos
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