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Introdução
Quando
pessoas ou entidades se
associam para realizar
determinado objetivo,
elas precisam se organizar.
A estrutura de organização
mais usualmente adotada
é a piramidal.
Outra
estrutura de organização
vem sendo no entanto cada
vez mais experimentada,
especialmente nos países
do Primeiro Mundo: a estrutura
horizontal em rede.
O
autor do artigo participou,
na França, de 1975 a 1981,
de uma experiência desse
tipo, as Jornadas Internacionais
por uma Sociedade superando
as dominações, projeto
da Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil -
CNBB que interligou participantes
de mais de 90 países.
Foi a época em que essa
proposta organizativa
começou a se espalhar
pela Europa e Estados
Unidos. No Brasil ele
viveu uma nova experiência
importante de rede, a
partir de 1985, com o
Plenário Pró-Participação
Popular na Constituinte:
mais de 12 milhões de
assinaturas chegaram a
Brasília, nas Emendas
Populares. Esse processo
continuou na elaboração
das constituições Estaduais
e das Leis Orgânicas Municipais.
Atualmente várias outras
redes vem se implantando
entre nós: cristãos de
Classe média, Universidade
Mútua, Rede de Reflexão
Política Livre - Repolítica.
O
presente texto apresenta
as características principais
dessa proposta de organização,
como subsídio para o aprofundamento
da reflexão e do debate
em torno da mesma.
Redes
e pirâmides
Uma
estrutura em pirâmide
corresponde ao que seu
próprio nome indica: as
pessoas ou entidades se
organizam em níveis hierárquicos,
que se superpõem, cada
nível compreendendo menos
integrantes do que o nível
que lhe é inferior. O
conjunto se afunila a
partir de uma base que
pode ser mais ou menos
ampla, para chegar a um
topo no qual pode se encontrar
um único integrante –
o "chefe". A comunicação
entre integrantes de diferentes
níveis se faz de cima
para baixo ou de baixo
para cima, através dos
níveis intermediários
àqueles que se comunicam.
Esse
tipo de organização é
mais usual por causa da
influência da cultura
e dos modos de agir dominantes.
Imita-se, quase naturalmente,
a estruturação piramidal
da riqueza e do poder
na sociedade em que vivemos.
Além disso, no confronto
ou negociação entre organizações
colocam-se sempre, frente
a frente, seus responsáveis
ou dirigentes, ou seja,
os topos das respectivas
pirâmides – numa perspectiva
de poder versus contra–poder.
Todos se vêem, portanto,
praticamente obrigados
a assim se estruturar.
Uma
estrutura em rede – que
é uma alternativa à estrutura
piramidal – corresponde
também ao que seu próprio
nome indica: seus integrantes
se ligam horizontalmente
a todos os demais, diretamente
ou através dos que os
cercam. O conjunto resultante
é como uma malha de múltiplos
fios, que pode se espalhar
indefinidamente para todos
os lados, sem que nenhum
dos seus nós possa ser
considerado principal
ou central, nem representante
dos demais. Não há um
"chefe", o que há é uma
vontade coletiva de realizar
determinado objetivo.
Se
a estrutura em pirâmide
é mais difundida nas organizações
sociais – pelo menos em
nossa cultura ocidental
- as redes encontram seu
apoio na observação das
estruturas da natureza,
em geral horizontais.
Na biologia se constata,
por exemplo, que as bactérias
se multiplicam em rede,
e podem ter um poder destruidor
fatal.
Redes
versus pirâmides?
Embora
as redes muitas vezes
surjam como reação a problemas
que se criam com as pirâmides,
elas não pretendem necessariamente
substituir ou se contrapor
às estruturas piramidais.
Há situações em que somente
estas parecem ser possíveis
ou desejáveis. Em outras,
a estrutura em rede pode
ser mais favorável à realização
dos objetivos perseguidos.
E há ainda situações em
que o melhor seria exatamente
a combinação de ambas
as estruturas.
Este
parece ser o caso em ações
políticas, inclusive nos
próprios partidos políticos,
tradicionalmente piramidais.
Uma pirâmide partidária
cortada por diferentes
tipos de redes pode receber
por meio delas uma ventilação
que descongelará tendências
à cristalização de propostas,
iniciativas e máquinas
burocráticas. Ao mesmo
tempo, como as redes são
necessariamente abertas
horizontalmente, através
delas se pode desbloquear
e ampliar cada vez mais
a entrada de novos participantes
na ação partidária e no
próprio partido.
Concentração
e desconcentração
O
que a organização piramidal
superpõe, de fato, são
níveis de poder de decisão,
e com ele a responsabilidade
pela realização dos objetivos
perseguidos. Esse poder
e essa responsabilidade
vão se concentrando, da
base da pirâmide ao seu
topo, passando por tantas
instâncias intermediárias
quanto o tamanho da organização
o exigir, de modo inversamente
proporcional ao número
dos que se encontram em
cada nível: na base muitos,
com pouco poder e menos
responsabilidade, no topo
poucos, com muito poder
e muita responsabilidade.
Na
estrutura organizacional
em rede – horizontal –
todos têm o mesmo poder
de decisão, porque decidem
somente sobre sua própria
ação e não sobre a dos
outros. Não há dirigentes
nem dirigidos, ou os que
mandam mais e os que mandam
menos. E todos têm o mesmo
nível de responsabilidade
– que se transforma em
co-responsabilidade –
na realização dos objetivos
da rede.
Informação
e poder
Os
elos básicos – os fios
– que dão consistência
a uma rede são as informações
que transitam pelos canais
que interligam seus integrantes.
Inclusive podem se organizar
redes com o único objetivo
de intercâmbio de informações.
Informação
é poder. Nas pirâmides,
o poder se concentra,
por isso também a informação,
que se esconde ou se guarda
para ser usada no momento
oportuno, com vistas a
se acumular e se concentrar
mais poder. Nas redes,
o poder se desconcentra,
por isso também a informação,
que se distribui e se
divulga para que todos
tenham acesso ao poder
que sua posse representa.
Como
as redes não comportam
centros ou níveis diferentes
de poder, a livre circulação
de informações – a livre
intercomunicação horizontal
– torna-se assim uma exigência
essencial para o bom funcionamento
de uma rede. Todos os
seus membros têm que ter
acesso a todas as informações
que nela circulem, pelos
canais que os interliguem.
Não podem existir circuitos
únicos ou reservados,
para que canais que eventualmente
se bloqueiem não impeçam
que a circulação da informação
se faça, livre e múltipla.
Numa
pirâmide, a informação
circula verticalmente,
por canais previamente
determinados, de baixo
para cima, para orientar
decisões, ou de cima para
baixo, sob a forma de
ordens ou orientações.
É fundamental respeitar
esses canais, porque curtos-circuitos
podem prejudicar o funcionamento
do conjunto. Mas se a
circulação de baixo para
cima se bloquear em alguma
instância intermediária,
os dirigentes correm o
risco de deixar de tomar
conhecimento de informações
de que só a base dispõe,
ou de propostas que esta
queira fazer chegar aos
seus dirigentes. O inverso
pode também ocorrer, impedindo
que a base venha a receber
informações que a cúpula
pretendeu lhe transmitir,
ou mesmo suas ordens e
orientações.
Disciplina
e comando
Quanto
mais a realização dos
objetivos de uma organização
depende da ação disciplinada
de todos que a integram,
mais se tende a organizá-la
em pirâmide, com seus
níveis superiores comandando
e controlando a ação dos
inferiores.
Quando
a realização de um objetivo
depende menos da disciplina
dos que dela participam
do que do engajamento
consciente de todos na
ação, menos cabe comandar
e controlar o que os outros
fazem ou deixam de fazer:
tem que se contar é com
a lealdade de cada um
para com todos, baseada
na corresponsabilidade
e na capacidade de iniciativa
de cada um, e a organização
pode ser feita numa estrutura
em rede, horizontal.
Um
paralelo com a ação militar
pode ser elucidativo:
os exércitos convencionais
são necessariamente e
rigidamente piramidais;
os corpos guerrilheiros
tendem a se horizontalizar,
em rede.
Representação
e delegação de poder
Uma
estrutura piramidal se
baseia na possibilidade
de representação: cada
nível da pirâmide se faz
representar pelos que
se encontram no nível
que lhe é superior. Delega-se
o poder – e com ele parte
da responsabilidade –
de baixo para cima. A
mesma delegação pode ser
devolvida de cima para
baixo, instância por instância,
na organização da ação
com vistas à sua execução.
Numa
estrutura horizontal não
existe representação.
Cada membro da organização
é autônomo em sua ação,
mas responsável pelos
seus efeitos na realização
dos objetivos do conjunto.
Se há delegações de poder,
por acordo entre os que
o delegam e os que o recebem,
não se estabelecem níveis
mas sim tipos diferentes
de responsabilidade, com
vistas à realização dos
objetivos perseguidos.
Democracia
O
caráter mais ou menos
democrático de uma organização
piramidal depende do modo
como são escolhidos seus
dirigentes: por designação
de cima para baixo ou
por eleição de baixo para
cima. No caso de eleição,
depende de como se apresentam
as candidaturas, quem
pode se candidatar, se
a eleição é direta ou
indireta, quem vota, qual
o tempo de mandato, como
se faz a renovação e como
se pode destituir um responsável
ou dirigente.
Numa
organização horizontal
essas questões não se
colocam. Seu caráter mais
ou menos democrático se
mede pela sua abertura
à entrada de novos membros,
assim como à possibilidade
de cada membro se desligar
quando o considerar conveniente,
sem que isso seja considerado
um abandono nem uma traição.
O
funcionamento mais ou
menos democrático de uma
organização piramidal
depende da freqüência
e do modo como seus dirigentes
informam e consultam as
bases, do caráter mais
ou menos verdadeiro dessas
consultas, do respeito
que esses dirigentes têm
pelas opções das bases,
dos meios de que estas
dispõem para fazer valer
sua vontade junto aos
seus dirigentes.
O
funcionamento mais ou
menos democrático de uma
organização em rede é
medido pela real liberdade
de circulação de informações
em seu interior e, portanto,
pela inexistência de censuras,
controles, hierarquizações
ou manipulação nessa circulação.
Redes
e informática
Pode-se
dizer que as redes são
estruturas que foram se
tornando cada vez mais
possíveis com o progresso
tecnológico: do correio
e telégrafo ao avião,
ao rádio, ao telefone,
ao fax e aos meios de
comunicação de massa,
o mundo se transformou
numa imensa rede com cada
vez menos barreiras à
livre circulação de informações.
As atuais possibilidades
oferecidas pela informática
– na rapidez da comunicação
e na estocagem da informação
– podem dar uma extrema
eficácia a redes constituídas
com objetivos específicos,
assim como lhes assegurar
efetivamente plena liberdade
de circulação de informações.
Nesta
perspectiva, as pirâmides
podem ser consideradas
como estruturas antiquadas,
que a livre circulação
de informações do mundo
moderno tende a minar,
inexoravelmente, ao permitir
o rompimento de bloqueios
antes considerados insuperáveis.
Riscos
das pirâmides
As
estruturas piramidais
contêm, em sua própria
lógica, dinâmicas perversas,
que podem dificultar a
realização de seus objetivos
e inclusive destruí-las
a partir de dentro delas
mesmas.
Uma
das principais é a luta
pelo poder e a competição
que se estabelece em seu
interior para se "subir"
na pirâmide, com todas
as manipulações disso
decorrentes. Quando os
adversários ou inimigos
de uma organização sabem
se utilizar dessas dinâmicas
para dividi-las, as lutas
internas podem fragilizá-las
e mesmo paralisar sua
ação. Outra dinâmica perversa
é o bloqueio – intencional
ou não - da circulação
de informações. Ele pode
levar ao isolamento ou
ao distanciamento dos
dirigentes em relação
às bases e vice-versa,
ou à ineficácia das decisões
da cúpula.
Nas
estruturas horizontais
em rede ninguém pode "subir"
a um nível mais alto do
que os demais, nem pretender
concentrar ou esconder
informações: a livre circulação
de informações é a condição
básica de existência das
redes.
Mudanças
culturais
Tanto
as redes como as pirâmides
funcionam melhor se entre
seus membros se aprofunda
a colaboração, a solidariedade,
a ajuda mútua, a transparência
e a corresponsabilidade.
Estas
condições se desenvolvem
no entanto mais facilmente
em estruturas horizontais
do que em estruturas piramidais.
O exercício da liberdade,
responsabilidade e democratização
da informação, que a lógica
das redes desenvolve,
ajuda a mudar, nos seus
participantes, os padrões
de dominação, competição,
autoritarismo e manipulação
que a cultura dominante
introjeta em cada um de
nós. É uma prática nova
que reeduca – embora essa
reeducação possa ser um
processo lento de superação
dos hábitos, métodos e
perspectivas que nos cercam
de todos os lados, continuamente.
A
própria noção de gratuidade
e desinteresse pessoal,
essencial para o desenvolvimento
da solidariedade, ganha
uma dimensão social mais
realista: ela pode ser
entendida numa perspectiva
de reciprocidade aberta,
na troca de informações
– que são poder – feita
através da rede. As redes
se contrapõem portanto
à cultura do "guardar
para si" e do "levar vantagem",
ao permitir que, pela
colocação em comum do
que cada um dispõe, todos
ganhem.
Quem
se associa a uma rede
para "subir" ou para instrumentalizá-la,
com objetivos pessoais
ou grupais, logo percebe
que esse espaço não lhe
será propício, porque
ele não contém nenhum
"poder" a ser tomado:
o "poder" numa rede pertence
a todos os seus integrantes.
Ele é o "poder conjunto"
de todos que a integram,
e só é efetivamente poder
exatamente se não se concentrar
em nenhum membro em particular,
ou seja, se todos os seus
membros estiverem dispostos
a "ceder" informação –
poder - aos demais.
A
combinação de redes e
pirâmides na ação política
pode portanto introduzir,
nas pirâmides, por meio
de militantes que participem
de ambas as estruturas,
um contra-veneno importante
às dinâmicas perversas
que tendem a deteriorar
partidos e movimentos
políticos.
Uma
organização piramidal
que pretendesse ser efetivamente
democrática teria que
ser como uma pirâmide
invertida: o pequeno número
daqueles que concentrassem
maior poder o exerceriam
como serviço, de baixo
para cima, como uma raiz
que alimentasse o número
crescente daqueles que
assumiriam plena e conscientemente
a realização dos objetivos
da organização.
Essa
mudança radical de visão
da organização piramidal
só seria possível, no
entanto, a partir das
mudanças culturais induzidas
pela prática das redes.
Tipos
de redes
Uma
rede pode interligar tanto
unicamente pessoas, como
unicamente entidades,
como pessoas e entidades.
As pessoas e/ou entidades
interligadas numa rede
podem ser do mesmo tipo
ou inteiramente heterogêneas.
Tudo depende tão somente
dos objetivos que a rede
se propõe alcançar.
As
redes podem ser também
de diferentes tamanhos
– de uma equipe que trabalhe
em rede a uma rede de
bairro ou de sala de aula,
até uma rede internacional.
Podem existir igualmente
redes de redes. E dentro
de uma rede podem se formar
sub redes, com objetivos
específicos.
A
interligação em rede,
de pessoas e/ou entidades,
se estabelece a partir
da identificação de objetivos
comuns e/ou complementares
cuja realização melhor
se assegurará com a formação
da rede.
Esses
objetivos podem ser:
- a
circulação de informações,
base comum do funcionamento
de todo e qualquer tipo
de rede;
- a
formação de seus membros;
- a
criação de laços de
solidariedade entre
os membros;
- a
realização de ações
em conjunto.
Quando
se propõe, numa rede,
uma ação conjunta, esta
não precisará ser necessariamente
assumida por todos os
seus integrantes, mas
somente por aqueles que
livre e autonomamente
decidirem participar.
Numa rede ninguém pode
ser massa de manobra de
ninguém.
Uma
rede constituída somente
para a circulação de informações
ou para a formação de
seus membros pode propiciar
o aparecimento de ações
de solidariedade ou de
ações conjuntas não previstas
em seus objetivos iniciais.
As
ações conjuntas, por sua
vez, poderão comportar
a conjugação ou a articulação
de atividades de tipo
diferente, que se apoiem
e se complementem, a partir
das possibilidades específicas
de cada um de seus integrantes.
As ações políticas que
combinem planejadamente
diferentes tipos de ação
podem ter uma força muito
maior do que aquelas desenvolvidas
através de um único tipo
de atuação.
Participação
A
participação dos que se
integram a uma ação coletiva
pode ser:
- livre
e consciente, todos
agindo como sujeitos;
- manipulada
e controlada, em que
os que a executam se
sentem como sujeitos
mas de fato não o são;
- imposta,
em que os executores
agem como objetos de
uma decisão superior.
Numa
organização piramidal,
seus objetivos podem ser
alcançados com a participação
imposta, através da disciplina
e do controle, ou mesmo
da repressão sobre os
que não obedeçam ou reajam
às ordens. Há também organizações
piramidais que consideram
esses métodos anti-democráticos
ou ineficazes, e preferem
ganhar a adesão dos executores
da ação através de diferentes
tipos e técnicas de envolvimento,
que conduzem a uma aparente
livre participação.
Numa
organização em rede só
pode haver participação
livre e consciente de
seus membros. Se não existir
esse tipo de participação,
a rede não se consolida
nem se mantém: tende a
"lacear" e, pouco a pouco,
a se desfazer. Ao contrário,
se uma rede for "assumida"
por um número crescente
de seus membros, que coloquem
a serviço da realização
dos seus objetivos sua
capacidade de iniciativa
e de ação, ela se adensa
e se fortalece cada vez
mais. Uma rede não se
move porque uma voz de
comando a mobilizou: ela
se move quando todos e
cada um de seus membros
começam, por decisão própria,
a se mover. Uma rede é
como um corpo: todos os
seus membros a fazem funcionar,
todos são a rede, nas
suas ligações uns com
os outros.
A
participação assumida,
livre e consciente dos
que realizam uma ação
coletiva – e isto vale
para redes e para pirâmides
– será tanto maior quanto
mais forem preenchidas
três condições básicas:
- que
a realização do objetivo
perseguido seja vital
para quem participe
da ação;
- que
o objetivo só possa
ser alcançado se houver
efetiva participação;
- que
seja aceito como legítimo,
pelos participantes
da ação, o poder dos
quem dirigem, comandam,
coordenam ou servem
os que agem.
Como
se organizar em rede
Sem
termos consciência exata
disso, todos nós participamos
de diferentes tipos de
redes informais, nas quais
entramos e saímos segundo
as circunstâncias de nossas
vidas.
Para
se constituir uma rede
formal, o primeiro passo
será identificar claramente
seu objetivo: o que visam
os que assim querem se
organizar. Se este objetivo
for minimamente vital
para estes participantes,
e só puder ser alcançado
pela sua organização e
participação, as condições
básicas começam a ser
preenchidas.
Em
uma rede todos são iguais,
todos têm iniciativa,
todos são sujeitos de
sua ação e co-responsáveis
pela ação da rede, todos
guardam sua liberdade.
Mas pode haver uma distribuição
de funções. Ora, a circulação
de informações – a livre
intercomunicação – é o
elo básico das redes,
como vimos. Mas ela não
acontecerá de forma espontânea
e desorganizada: ainda
que necessária e vital,
os integrantes de uma
rede tem que saber a quem
enviar informações e como
as enviar, assim como
a quem pedir informações
e como pedi-las.
Uma
rede supõe, portanto,
algum tipo de serviço
que facilite essa circulação,
por exemplo, um secretariado
ou um conjunto de secretariados
interligados. Sua função
de facilitadores da intercomunicação
– e não de dirigentes,
comandantes ou coordenadores
da rede – não lhes dá
no entanto o poder de
controlar, esconder, hierarquizar,
selecionar, censurar ou
orientar a informação
que deva circular.
Tais
secretariados, que "servem"
à rede, devem ter seu
poder legitimado pelos
seus participantes. Ou
seja, têm que ser aceitos
ou escolhidos e "sustentados"
materialmente, direta
ou indiretamente, por
eles.
A
circulação de informações
supõe também algum tipo
de suporte sistemático
– escrito, gráfico, auditivo
ou informatizado – que
faça chegar a informação
ao conjunto de participantes,
no ritmo, freqüência e
modo estabelecido de comum
acordo por eles. Todos
têm que ter acesso livre
a esse suporte e suas
comunicações têm que ser
por ele difundidas aos
demais. Regras estabelecidas
de comum acordo podem
fixar limites quanto à
dimensão, freqüência e
mesmo conteúdo das mensagens,
para se adequarem aos
meios disponíveis e aos
objetivos da rede.
Se
algum participante quiser
fazer uma proposta de
ação conjunta, esta deverá
circular por toda a rede
como qualquer outra mensagem.
A organização da ação
conjunta proposta caberá
àqueles que a assumirem,
sem que haja obrigatoriedade
de participação dos demais.
As informações sobre o
andamento dessa organização
e da própria ação constituem
mensagens que circularão
pela rede, como as demais,
se seus organizadores
quiseram comunicá-las
aos demais.
Os
participantes de uma rede
podem se encontrar pessoalmente
e se reunir sempre que
o considerarem necessário
ou possível – para debater
questões ou mesmo simplesmente
para festejar. Dependendo
das dimensões da rede,
tais encontros podem ser
um elemento importante
– e mesmo decisivo – de
sua consolidação, pelas
relações interpessoais
de amizade que assim se
estabelecem. Nenhuma reunião
desse tipo pode ter, no
entanto, caráter deliberativo
para o conjunto de participantes
de rede. Quaisquer deliberações
só vinculam aqueles que
as tenham assumido.
Uma
rede está sempre aberta
à entrada de novos membros
que aceitem as regras
de intercomunicação estabelecidas,
ainda que as mesmas possam
e devam ser revistas à
medida que a rede vá realizando
seus objetivos ou definindo
novos objetivos. O auto-desligamento
de qualquer de seus membros
não deve, por outro lado,
constituir problema, para
que se assegure a plena
liberdade de opção de
cada um.
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