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Pierre
Lévy é um otimista, no
bom sentido. É um otimista
que tenta vislumbrar no
mundo atual, mesmo com
todas as suas desigualdades
e descaminhos, possibilidades
para um desenvolvimento,
para uma “evolução” daquilo
que ele chama de “inteligência
coletiva”. Seria difícil
para Lévy falar disto
algum tempo atrás: o “motor”
da sua teoria são as redes
computacionais de informação
– o que ele batizou, desde
cedo, como sendo a base
para a cibercultura, um
novo patamar de relacionamento
humano, num espaço virtualizado,
mediatizado pela Internet.
Lévy nutre uma especial
admiração pela concepção
filosófica de um jesuíta
e paleontólogo francês
(ou seja, seu “conterrâneo”),
Pierre Teilhard de Chardin
(1881-1955). Segundo a
tese deste filósofo e
teólogo, a Humanidade
caminha no sentido de
uma evolução “universal”,
isto é, faz parte de um
processo que se dá na
natureza, no mundo, em
todo lugar. Impressionado
pela visão darwiniana
do século XIX, Theilard
de Chardin acredita que
o homem segue num caminho
de ascensão; superando
obstáculos, vencendo seus
próprios limites, o homem
evolui na direção de uma
realização cada vez mais
plena, mais completa.
Superados estes obstáculos,
estes limites, o homem
alcança a compreensão
de sua posição no Todo
– esta totalidade é sua
própria existência, convivência
e interdependência com
seus semelhantes, onde
todos se complementam
mutuamente, formando vínculos
de solidariedade quase
que por um processo “natural”.
Vencidas as barreiras
que impedem os homens
de formar uma comunidade
plena (real em seu significado
mais estrito), o homem
passa a entender que não
pode continuar a existir
sem a cooperação e o apoio
dos seus iguais; lidar
com a vida e seus empecilhos
passará a ser uma tarefa
mais próspera – e mais
humana – na medida em
que unir esforços com
os demais, num trabalho
coletivo em prol de objetivos
comuns. Esta ascensão
à esfera do “espírito
humano”, do pensamento,
do compartilhamento de
idéias, de mentes (nous),
resultará numa novíssima
etapa de convívio e aprendizado
para a Humanidade: marcará
o início do estágio “evolutivo”
da Noosfera, da plenitude
de uma consciência solidária,
de uma inteligência coletiva.
Esta idéia impressionou
muito Pierre Lévy. Tanto
que, na maioria de seus
livros, esta concepção
perpassa boa parte de
seus argumentos, tendo
ficado ainda mais evidente
em uma de suas últimas
publicações, “A Conexão
Planetária” (lançada no
Brasil pela Editora 34).
E o fenômeno da Internet
reforça sua disposição
para aceitar a chance
de realização de uma Noosfera,
já a partir do momento
atual. Isto porque a rede
mundial de computadores
traz em si o potencial
para a integração do pensamento
humano; a cibercultura
tem demonstrado a capacidade
que o homem tem de reformular
sua visão de mundo, de
compreender o outro (seu
semelhante) como uma peça
fundamental para a sua
própria existência. Por
isso proliferam-se pela
Grande Rede grupos de
discussão (newsgroups),
salas de bate-papo virtual
(chats), fóruns de assuntos
específicos, listas de
contato para troca de
mensagens instantâneas
in real-time (como o software
ICQ), entre outros. Vários
aspectos da sociabilidade
humana estão assimilando,
aproveitando os recursos
das tecnologias de informação
e compondo um novo cenário
de relacionamentos: as
iniciativas nas áreas
jornalística, cultural,
educacional, comercial,
política e artística são
indicativos, segundo Lévy,
de que “algo realmente
novo” começa a acontecer.
Esta tese tem o seu charme,
o seu atrativo; e é um
verdadeiro desafio tentar
entendê-la à luz dos acontecimentos
recentes. A Internet nasceu
como uma rede de comunicações
livre e autárquica, preparada
desde sua gênese para
não se submeter a controle
estatal ou de grupos particulares.
As pessoas – pelo menos
aquelas que têm acesso
aos equipamentos e recursos
necessários – podem usufruir
nos dias de hoje de uma
liberdade para se fazer
ler e ouvir nunca antes
experimentada. Mesmo em
países onde o controle
estatal da informação
ainda é um obstáculo marcante
(como na China), podemos
perceber que as fronteiras
geopolíticas, aos poucos,
tornam-se translúcidas,
e em muitos casos inexistentes,
não mais obliterando o
potencial humano para
comunicar idéias, sentimentos
e anseios. Este “potencial”
que está latente nas mentes
humanas é o que inquieta
e atrai a atenção de Pierre
Lévy. Estes elementos
constitutivos do “espírito
humano” só precisam, segundo
o filósofo, serem “postos
em ação”, em movimento,
para que um verdadeiro
turbilhão social, cultural
e político se iniciem,
redefinindo a face das
relações humanas.
Este caminho na direção
da Noosfera conta com
o suporte, com a base
material (e por que não
dizer, virtual?) das tecnologias
de informação contemporâneas;
graças ao fenômeno da
Internet, hoje as pessoas
podem compartilhar saberes,
conhecimentos gerais ou
especializados, experiências
de vida, relatos das condições
sociais e denúncias de
abusos institucionais
em diversos países e regiões,
atraindo a atenção do
mundo para os problemas
locais, formando redes
de cooperação, de solidariedade,
que se mobilizam, se organizam
e agendam compromissos
no “ambiente etéreo” da
Grande Rede. Esta compreensão
“totalizante”, isto é,
de um Todo que se realiza
no âmbito de um espaço
virtual que só existe
enquanto códigos binários
que transitam na velocidade
do pulso eletrônico ao
redor do planeta, coloca
uma nova perspectiva para
a ação humana, para as
relações que modelam seu
ser: permite pensar uma
nova “condição humana”,
determinada por uma existência
de “convergência”, isto
é, por um entendimento
de que todos fazem parte
de um mesmo “mundo”.
Reportando-se ao filósofo
grego Heráclito – que
dizia que “Tudo é Um”
–, Lévy tenta nos mostrar
que seu conceito de “inteligência
coletiva” é algo mais
(bem mais, vale frisar)
do que o surgimento de
um “grande cérebro virtual”
que resume o pensamento
da Humanidade; não é um
resumo, uma redução ou
um limite, mas justamente
a chance de ir além dos
limites, a partir de um
compartilhamento de saberes
produzidos pela Humanidade
como um todo. A Internet
seria, neste sentido,
o lócus de uma nova “realidade”;
o equivalente pós-moderno
do “Mundo das Idéias”
de Platão, de um jeito
que dispensa a metafísica
do velho sábio da Academia.
A integração de mentes
neste novo nível de relacionamento
humano (Noosfera) permitiria
aproximar povos separados
por séculos em função
de guerras, conflitos
e concepções de mundo
divergentes.
Apesar de ser uma bela
perspectiva para o futuro
da Humanidade, esta tese
não foge à regra do Iluminismo
do século XIX, que em
tudo via o alcance máximo
da razão humana, da realização
de um “ideal libertário
e comunitário” que por
muito tempo marcou a imaginação
dos povos do ocidente.
Não que a concepção de
uma Noosfera seja insuficiente
ou descartável; no entanto,
devemos antes olhar para
o mundo, não nos atendo
apenas a uma de suas características
mais recentes (o fenômeno
das redes digitais de
informação), mas buscando
a “totalidade concreta”,
palpável, verificável
e constatável. Em uma
recente entrevista, Eric
Hobsbawn, historiador
inglês e autor de obras
de referência como “A
Era dos Extremos”, nos
alerta para o perigo de
um “excessivo otimismo”
em relação ao mundo: não
significa que devemos
nos afastar da missão
de melhorar o mundo em
que vivemos, mas sim que
devemos compreender cada
vez mais suas contradições,
seus pontos de divergência,
para só então aventarmos
uma possibilidade de mudá-lo
concretamente.
Neste ponto retornamos
à idéia lá do início,
a que afirmava ser Pierre
Lévy um otimista. Mas
vale lembrar que se trata
de um otimista “no bom
sentido”. Lévy compreende
perfeitamente o mundo
em que vive, ou seja,
está ciente de seus problemas
e dificuldades; sabe muito
bem que as relações de
poder a nível global ainda
são um obstáculo fortíssimo
à realização, mesmo que
em estado embrionário,
de uma Noosfera. Porém
não são os aspectos negativos
que importam a Lévy, e
sim as potencialidades
latentes, os caminhos
possíveis para uma mudança
de paradigma civilizacional
– do tipo que, no longo
prazo, venha despertar
nos homens o desejo de
viverem juntos, em harmonia
e com sabedoria.
A
base material que permitiria
a instalação de um cenário
assim já está disponível:
são os computadores e
a Internet, e o desenvolvimento
de novos métodos e novas
tecnologias de comunicação
à distância vão, cada
vez mais, ampliar o espectro
de soluções para a integração
dos povos do planeta.
Além disso, a partir da
base já instalada, inúmeras
iniciativas vêm demonstrando
a capacidade de organização
e difusão de idéias e
propostas, integrando
o mundo real com o “virtual”
– naquilo que Manuel Castells chama de “Cultura da Virtualidade
Real” – a fim de colaborar
para mudar, para melhorar
a vida das pessoas (exemplos
disto foram reunidos por
Lévy em seu mais recente
livro, “Ciberdemocracia”).
As novas gerações que
vierem a crescer neste
ambiente de “virtualidade
real” aprenderão a pensar
o mundo como sendo uma
gigantesca “praça” de
relações públicas, interessando-se
cada vez mais pelas questões
urgentes da vida social,
não apenas no que diz
respeito a si mesmas,
mas a todos no planeta.
Mas tudo isto, segundo
o próprio Pierre Lévy,
é apenas o começo. O acesso
à educação de qualidade
nos países periféricos
ainda deixa a desejar;
o nível de conscientização
e interesse pelas questões
públicas ainda precisa
melhorar. No entanto,
Lévy vislumbra no horizonte
da “sociedade em rede”
o potencial para uma mudança
importante que repercutirá
por todo o planeta – seria
o início desta tão alardeada
“conexão planetária”,
o pano de fundo para a
emergência de uma “inteligência
coletiva”? Num sentido
ainda mais abstrato, poderíamos
estar assistindo, já em
nossa época, a ascensão
da Humanidade a um patamar
“evolucionário” mais nobre,
rumo à Noosfera? Nem Lévy
pode afirmar isso categoricamente;
mas que ele deseja isso,
é evidente. E já é um
bom começo.
...
Maurício
F. Pinto,
25, é estudante
de Ciências Sociais da
Universidade Federal Fluminense, Niterói,
RJ. Editor de Estar no Mundo
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