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Virando o Jogo
Fritjof Capra
do livro: As Conexões Ocultas - Ciência para uma vida sustentável

 

No decorrer deste novo século, dois fenômenos em específico terão efeitos significativos sobre o bem-estar e os modos de vida da humanidade.  Ambos esses fenômenos têm por base as redes e ambos envolvem tecnologias radicalmente novas. 

O primeiro é a ascensão do capitalismo global; o outro é a criação de comunidades sustentáveis baseadas na alfabetização ecológica e na prática do projeto ecológico. 

Enquanto que o capitalismo global é feito de redes eletrônicas onde correm fluxos financeiros e de informações, o projeto ecológico trata das redes ecológicas de fluxos energéticos e materiais.  O objetivo da economia global é o de elevar ao máximo a riqueza e o poder de suas elites; o objetivo do projeto ecológico é o de elevar ao máximo a sustentabilidade da teia da vida.

Essas duas propostas - cada uma das quais envolve uma rede complexa e uma tecnologia avançada e especial - encontram-se, atualmente, em rota de colisão

Já vimos que a forma atual do capitalismo global é insustentável dos pontos de vista social e ecológico.  O chamado "mercado global" nada mais é do que uma rede de máquinas programadas para atender a um único princípio fundamental: o de que o ganhar dinheiro deve ter precedência sobre os direitos humanos, a democracia, a proteção ambiental e qualquer outro valor.

(...)

À medida que entramos neste novo século, vai ficando cada vez mais evidente que o neoliberal "acordo de Washington" e as políticas e regras econômicas estabelecidas pelo Grupo dos Sete e suas instituições financeiras - o Banco Mundial, o FMI e a OMC - estão desencaminhadas. 

As análises de estudiosos e líderes comunitários deixam claro que a "nova economia" está gerando um sem número de conseqüências danosas e relacionadas entre si - um aumento da desigualdade e da exclusão social, um colapso da democracia, uma deterioração mais rápida e extensa do ambiente natural e uma pobreza e alienação cada vez maiores. 

O novo capitalismo global criou também uma economia criminosa de amplitude internacional que afeta profundamente a economia e a política nacional e internacional dos diversos países. O mesmo capitalismo põe em risco e destrói inúmeras comunidades locais pelo mundo inteiro; e, no exercício de uma biotecnologia mal-pensada, violou o caráter sagrado da vida e procurou transformar a diversidade em monocultura, a ecologia em engenharia e a própria vida numa mercadoria.

(...)

Na sociedade capitalista contemporânea, o valor central - ganhar dinheiro - caminha de mãos dadas com a exaltação do consumo material.  Uma corrente infinita de mensagens publicitárias reforça a ilusão das pessoas de que a acumulação de bens materiais é o caminho que leva à felicidade, o próprio objetivo da nossa vida.

Os Estados Unidos projetam pelo mundo o seu tremendo poder para conservar condições favoráveis à perpetuação e à expansão da produção.  O objetivo central do seu gigantesco império - com um poderio militar impressionante, um extensíssimo serviço secreto e posições de predomínio na ciência, na tecnologia, nos meios de comunicação e no mundo artístico - não é de aumentar o território, nem o de promover a liberdade e a democracia, mas o de garantir que o país tenha livre acesso aos recursos naturais do mundo inteiro e que todos os mercados permaneçam abertos aos seus produtos.

É assim que a retórica política norte-americana passa rapidamente da noção de "liberdade" para a de "livre comércio" e "mercado livre".  O livre fluxo de bens e de capital é identificado com o elevado ideal da liberdade humana, e o consumo material desenfreado é retratado como um direito humano básico - até mesmo, cada vez mais, como uma obrigação ou um dever.

(..)

É verdade que a transição para um mundo sustentável não será fácil.  Mudanças graduais não serão suficientes para virar o jogo; vamos precisar também de algumas grandes revoluções.  A tarefa parece sobrehumana, mas, na verdade, não é impossível. 

Nossa nova concepção dos sistemas biológicos e sociais complexos nos mostrou que perturbações significativas podem desencadear múltiplos processos de realimentação que podem produzir rapidamente o surgimento de uma nova ordem.  A história recente nos deu alguns exemplos mercantes dessas transformações dramáticas - da queda do Muro de Berlim e da Revolução de Veludo, na Europa, até o fim do Apartheid na África do Sul.

Por outro lado, a teoria da complexidade também nos diz que esses pontos de instabilidade podem desencadear não uma mudança inovadora, mas um simples colapso das estruturas existentes. 

Nesse caso, qual a esperança que podemos ter para o futuro da humanidade?  Na minha opinião, a resposta mais inspiradora a essa questão existencial foi dada por um dos personagens centrais das transformações sociais recentes, o grande dramaturgo e estadista tcheco Václav Havel, que transforma a pergunta numa meditação sobre a esperança em si:


O tipo de esperança sobre a qual penso freqüentemente,... compreendo-a acima de tudo como um estado da mente, não um estado do mundo. Ou nós temos a esperança dentro de nós ou não temos; ela é uma dimensão da alma, e não depende essencialmente de uma determinada observação do mundo ou de uma avaliação da situação... [A esperança] não é a convicção de que as coisas vão dar certo, mas a certeza de que as coisas têm sentido, como quer que venham a terminar.

 

 



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