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No
decorrer deste novo século,
dois fenômenos em específico
terão efeitos significativos
sobre o bem-estar e os modos
de vida da humanidade.
Ambos esses fenômenos têm por
base as redes e ambos envolvem
tecnologias radicalmente novas.
O
primeiro é a ascensão do capitalismo
global; o outro é a criação
de comunidades sustentáveis
baseadas na alfabetização ecológica
e na prática do projeto ecológico.
Enquanto
que o capitalismo global é feito
de redes eletrônicas onde correm
fluxos financeiros e de informações,
o projeto ecológico trata das
redes ecológicas de fluxos energéticos
e materiais. O objetivo
da economia global é o de elevar
ao máximo a riqueza e o poder
de suas elites; o objetivo do
projeto ecológico é o de elevar
ao máximo a sustentabilidade
da teia da vida.
Essas duas propostas - cada uma das
quais envolve uma rede complexa
e uma tecnologia avançada e
especial - encontram-se,
atualmente, em rota de colisão.
Já vimos que a forma atual do capitalismo
global é insustentável dos pontos
de vista social e ecológico.
O chamado "mercado global"
nada mais é do que uma rede
de máquinas programadas para
atender a um único princípio
fundamental: o de que o ganhar
dinheiro deve ter precedência
sobre os direitos humanos, a
democracia, a proteção ambiental
e qualquer outro valor.
(...)
À medida que entramos neste novo
século, vai ficando cada vez
mais evidente que o neoliberal
"acordo de Washington"
e as políticas e regras econômicas
estabelecidas pelo Grupo dos
Sete e suas instituições financeiras
- o Banco Mundial, o FMI e a
OMC - estão desencaminhadas.
As análises de estudiosos e líderes
comunitários deixam claro que
a "nova economia"
está gerando um sem número de
conseqüências danosas e relacionadas
entre si - um aumento da desigualdade
e da exclusão social, um colapso
da democracia, uma deterioração
mais rápida e extensa do ambiente
natural e uma pobreza e alienação
cada vez maiores.
O novo capitalismo global criou também
uma economia criminosa de amplitude
internacional que afeta profundamente
a economia e a política nacional
e internacional dos diversos
países. O mesmo capitalismo
põe em risco e destrói inúmeras
comunidades locais pelo mundo
inteiro; e, no exercício de
uma biotecnologia mal-pensada,
violou o caráter sagrado da
vida e procurou transformar
a diversidade em monocultura,
a ecologia em engenharia e a
própria vida numa mercadoria.
(...)
Na sociedade capitalista contemporânea,
o valor central - ganhar dinheiro
- caminha de mãos dadas com
a exaltação do consumo material.
Uma corrente infinita de mensagens
publicitárias reforça a ilusão
das pessoas de que a acumulação
de bens materiais é o caminho
que leva à felicidade, o próprio
objetivo da nossa vida.
Os Estados Unidos projetam pelo mundo
o seu tremendo poder para conservar
condições favoráveis à perpetuação
e à expansão da produção.
O objetivo central do seu gigantesco
império - com um poderio militar
impressionante, um extensíssimo
serviço secreto e posições de
predomínio na ciência, na tecnologia,
nos meios de comunicação e no
mundo artístico - não é de aumentar
o território, nem o de promover
a liberdade e a democracia,
mas o de garantir que o país
tenha livre acesso aos recursos
naturais do mundo inteiro e
que todos os mercados permaneçam
abertos aos seus produtos.
É assim que a retórica política norte-americana
passa rapidamente da noção de
"liberdade" para a
de "livre comércio"
e "mercado livre".
O livre fluxo de bens e de capital
é identificado com o elevado
ideal da liberdade humana, e
o consumo material desenfreado
é retratado como um direito
humano básico - até mesmo, cada
vez mais, como uma obrigação
ou um dever.
(..)
É verdade que a transição para um
mundo sustentável não será fácil.
Mudanças graduais não serão
suficientes para virar o jogo;
vamos precisar também de algumas
grandes revoluções.
A tarefa parece sobrehumana,
mas, na verdade, não é impossível.
Nossa nova concepção dos sistemas
biológicos e sociais complexos
nos mostrou que perturbações
significativas podem desencadear
múltiplos processos de realimentação
que podem produzir rapidamente
o surgimento de uma nova ordem.
A história recente nos deu alguns
exemplos mercantes dessas transformações
dramáticas - da queda do
Muro de Berlim e da Revolução
de Veludo, na Europa, até o
fim do Apartheid na África do
Sul.
Por
outro lado, a teoria da complexidade
também nos diz que esses pontos
de instabilidade podem desencadear
não uma mudança inovadora, mas
um simples colapso das estruturas
existentes.
Nesse
caso, qual a esperança que podemos
ter para o futuro da humanidade?
Na minha opinião, a resposta
mais inspiradora a essa questão
existencial foi dada por um
dos personagens centrais das
transformações sociais recentes,
o grande dramaturgo e estadista
tcheco Václav Havel, que transforma
a pergunta numa meditação sobre
a esperança em si:
O
tipo de esperança sobre
a qual penso freqüentemente,...
compreendo-a acima de tudo
como um estado da mente,
não um estado do mundo.
Ou nós temos a esperança
dentro de nós ou não temos;
ela é uma dimensão da alma,
e não depende essencialmente
de uma determinada observação
do mundo ou de uma avaliação
da situação... [A esperança]
não é a convicção de que
as coisas vão dar certo,
mas a certeza de que as
coisas têm sentido, como
quer que venham a terminar.
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