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Depressão na sociedade do vazio
Maria Rita Kehl
trechos de entrevista publicada originalmente na Caros Amigos


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Eu estava lendo Walter Benjamin, por causa de um grupo de estudos, estava lendo o texto dele sobre experiência. Ele faz uma articulação entre a perda da experiência e a velocidade da vida moderna. E eu falei “a depressão está aqui”, porque Walter Benjamin chama isso de melancolia, não é também que eu inventei isso, então são duas coisas diferentes que se juntaram. A depressão como o começo de uma experiência no consultório que me interessou muito, e a depressão como um sintoma social, quer dizer, algo que se alastra, sintoma social no sentido de um tipo de sofrimento mental que além de dizer respeito ao sujeito, a cada um por si que está sofrendo, cada um com suas razões, revela alguma coisa que não vai bem. Não se poderia dizer que é o sintoma social do homem contemporâneo, porque drogadição também é um sintoma, violência também é um sintoma. Mas certamente depressão é um dos importantes sintomas. Porque, digamos, ele faz água no barco. Tem um barco, que é a sociedade de consumo, que as pessoas supostamente navegam, às vezes achando que a vida vai ter sentido porque você pode ter dinheiro e comprar não sei o quê. Todo mundo fala: “Que sociedade de consumo? Brasil? Menos de 1/3 pode consumir o básico”. E eu insisto que essa sociedade é de consumo, nos termos mesmo dos autores, do Jean Baudrillard, aliado à idéia de Guy Débord da sociedade do espetáculo, porque o que dá sentido à vida é o consumo. A questão não é a sociedade de consumo porque todo mundo está consumindo furiosamente, pouca gente está consumindo furiosamente, mas as pessoas medem o que elas são pelo que elas podem consumir, medem o sentido da sua vida pelo que elas podem consumir. Estão convencidas de que o valor delas e das outras se define pelo que elas podem consumir. Por isso sociedade de consumo, pela crença, não necessariamente pelos atos.

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De uns anos para cá eu fui amadurecendo, e comecei a atender pessoas deprimidas e comecei a ficar interessadíssima no fato de como elas eram sensíveis à análise, como tinham permeabilidade maior ao inconsciente que no neurótico, que, vamos dizer, está bem defendido, que vai para a análise também, mas é um custo para abrir uma brecha.

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Agora, na depressão, todos os ambulatórios no Brasil têm esse folhetinho: ”Você tem depressão? Atenção, é uma doença séria mas tem cura”. Aí se você tem alguns sintomas, ai tem uma lista de 20 sintomas que qualquer um de nós tem alguns deles. Falta de sono, excesso de sono, falta de fome, excesso de fome, desânimo, irritabilidade, bom, em São Paulo quem é que não tem irritabilidade, estresse, vai por aí.
O importante é que no caso das depressões, numa sociedade em que a moral social é a moral da alegria, do gozo, da farra, não é a moral até a primeira fase do capitalismo, que até os anos 1950, e isso combinou também com o protestantismo, era a moral do adiamento da gratificação, sacrifício, esforço, sobriedade, tudo que a gente conhece hoje em dia de literatura. E a moral que mudou muito rapidamente depois dos anos 60, não por culpa dos movimentos dos anos 60, mas pela tremenda plasticidade do capitalismo, do boi eu aproveito até o berro, do homem eu aproveito até o berro, derramo o que não queremos, o que queremos é sexo livre, independência. E o sistema fala “oba, vamos devolver isso na forma de mercadoria”. E hoje nós nos beneficiamos, mas também a sociedade de consumo bombou depois dos anos 60. Então, numa sociedade como essa em que você moralmente se sente obrigado a estar sempre muito bem, qualquer tristeza você identifica como depressão. Então tem aí muitas dessas famílias que dizem que isso é frescura, que não é depressão, mas eu acho que é minoria. A maioria é assim: o filho está maleducado, toma remédio, porque é hiperatividade, toma remédio; o filho está numa crise adolescente, deprimido, toma remédio. É a mesma lógica, digamos assim, imaginária que rege o capitalismo financeiro: jogue certo que você vai estar rico a vida inteira, acabaram os seus problemas, acumule um monte, faça ajogada, e não é para ter turbulência, que as turbulências são deficiências, perdas de tempo, porque tempo é dinheiro; afinal de contas, então, remédio, remédio. E qual a relação disso com a depressão? Você vai criando um sujeito esvaziado.

Mas o remédio não é a cura, é só a condição para a pessoa ir se tratar. Então, o que é a força psíquica, a chamada vida interior? É trabalho permanente, desde o bebezinho ali que a mãe não chegou na hora e ele estava com fome e teve que esperar um pouquinho, o psiquismo é isso, trabalho para se enfrentar a dificuldade, enfrentar conflitos, suportar crises, suportar desprazer em momentos, porque não dá para ter prazer o tempo todo, isso é psiquismo. A ansiedade diz “não enfrenta conflitos, não enfrenta porque você vai ficar um tempo meio confuso, meio improdutivo, toma o remédio e vai em frente”. Vai se criando uma vida sem sentido.

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