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Rádios Livres - iii
Félix Guattari

Pergunta - Eu gostaria que você abandonasse os exemplos clínicos, como o caso de psicose do João Batista, ou essas discussões a respeito do trabalho em instituição psiquiátrica, pois parece que, para você, o analítico não se restringe ao campo da clínica.

Guattari - Vou propor um exemplo que não é nem psicótico nem individual. É o que ficou sendo chamado, na França, de "fenômeno da rádio livre'.  Eu tomo esse exemplo, justamente, para ilustrar o fato de que, a meu ver, a problemática analítica não deve se circunscrever unicamente em uma prática e em referências clínicas.  No contexto dessa espécie de falência generalizada da esquerda na França, como pudemos ver na época de Giscard, o conjunto dos partidos de esquerda, de grupúsculos e grupelhos de extrema-esquerda, estavam reduzidos a um funcionamento completamente estereotipado e cortado de práticas sociais reais. 

A partir de 1977, com um grupo de amigos bastante informados do que então acontecia na Itália, tivemos a idéia de tentar começar alguma coisa em torno do questionamento do monopólio da rádio difusão.  Na nossa cabeça, era algo que deveria questionar a utilização da mídia, sobretudo pelo regime giscardiano, que deveria questionar a ausência de democracia de expressão na mídia, e que deveria também tentar experimentar o que poderia ser um outro modo de funcionamento dos pequenos grupos suscetíveis de se interessar por isso.  Eu não vou desenvolver aqui toda a história das rádios livres na França.  O que interessa é que o simples fato de introduzir um elemento tecnológico, uma rádio, ao mesmo tempo miniaturizada e fabricada artesanalmente em casa e com um mínimo de instrumental, teve uma eficiência semiótica surpreendente.

Tratava-se de se colocar, efetivamente, fora da lei, de se colocar, deliberadamente, em posição de sofrer processos, apreensões, interferências, etc.  A iniciativa parecia praticamente absurda, porque tinha contra si o aparato estatal, e todo o aparelho da lei. E não só isso, pois também todos os sindicatos, os partidos de esquerda e toda a opinião pública estava tomada por esse fenômeno de monopolização da expressão.

No entanto, tal intervenção teve como efeito, em poucos meses, paralisar totalmente o sistema de repressão, e arrebanhar para esse terreno ilegal das práticas de rádio livre, componentes do movimento sindical (que por outro lado preservavam as posições de princípio a favor dos monopólios), componentes políticos da esquerda (até o próprio François Mitterrand, senhor que representa muito a lei e que na ocasião era da oposição, chegou a ser processado). Teve também como efeito mobilizar pessoas do poder da época, e desencadear uma crise no próprio seio dos profissionais do rádio.

Para compreender a proliferação de tal fenômeno é preciso situá-lo exatamente como uma intervenção a nível do registro do inconsciente social, do modo de semiotização coletiva, em sua relação com o interlocutor mídia, com a fala, com a informação, etc. 

Devo dizer que esse processo, depois de alguns anos, foi amplamente recuperado de múltiplas formas que não cabe ficar descrevendo aqui.  O que interessa é: qual foi o ponto de ruptura que funcionou de modo processual?

É um pouco como aquela pedrinha minúscula que provoca no pára-brisa um impacto microscópico, o qual, no entanto, vai fazer com que o conjunto do vidro arrebente.

Onde é que voces pensam que vão?


Para mim as coisas se esclareceram logo na primeira emissão que fizemos em 77 (que me custou meu primeiro processo, pois tive muitos outros), e que chamamos de “Rádio Verde”.  Era uma rádio ecológica, instalada na redação do Matin Paris, que é um jornal diário francês.  Começamos a emitir e ficamos surpresos de não ter tido interferências, pelo menos até umas nove, dez horas da manhã.  Depois nos demos conta de que essa era a hora em que o pessoal que poderia fazer interferência, de acordo com as convenções trabalhistas, estava retomando o trabalho.  Mas mesmo nesse espaço estreito de tempo pudemos fazer a primeira emissão, que escapou do esquadrinhamento da informação.

   Então o que é isso?  Uma ruptura simbólica? 

Ao final dessa emissão, estávamos (éramos quatro ou cinco) muito contentes.  Os colegas jornalistas da redação diziam que aquilo era maravilhoso.  No entanto, me surpreendeu constatar que o técnico que estava fazendo a emissão, e que era ecologista, torcia o nariz e visivelmente não participava de nosso entusiasmo, dessa impressão de ter feito um miniato histórico de ruptura.

E quando nós lhe perguntamos o que ele achava, ele disse "bom, para uma primeira vez ainda passa, mas se é para fazer isso, se é para ficar dizendo essa baboseira nas rádios livres, então realmente isso não serve para nada; “se a gente vai se meter a fazer rádio livre, só vale a pena se for para fazer programas incríveis!”, e ele nos fez um discursão.  Nós nos olhamos e nos perguntamos se ele não teria razão...


Mas, junto conosco, estava um amigo italiano que tinha sido um dos promotores das rádios livres na Itália, sobretudo a Rádio Alice de Bolonha.  Ele se dirigiu ao técnico com ar de gozação e lhe disse:

“você não entendeu porra nenhuma!  A rádio livre não é isto que você supõe.  O que importa nas rádios livres, o que é eficaz, é que a primeira vez que as pessoas captam uma rádio livre, e escutam um barulhão, uma bagunça danada, o microfone caindo, todo mundo falando ao mesmo tempo, etc., as pessoas se dizem: ah, então rádio pode ser isso...”.

E é isso que de repente abre o que eu denomino um universo de possíveis totalmente diferente.

Esse tipo de revolução molecular vocês a encontram também em uma determinada época no jornalismo.  Célestin Freinet, grande inovador da pedagogia que vocês certamente conhecem, fez uma revolução desse tipo montando jornais com crianças.  Ele mostrou que a expressão escrita impressa ou a expressão do desenho, da pintura, também podia ser outra coisa.  Essa abertura de um outro modo de expressão, essa abertura de outras potencialidades é algo que, evidentemente, muda os modos de subjetivação coletiva.  Uma maneira de subjetivar uma classe escolar, um grupo sindical, a vida de comunicação num bairro ou numa aldeia, pode ser radicalmente transformada pela simples intrusão de um processo maquínico desse tipo. Antes mesmo que haja um desenvolvimento qualquer, antes mesmo que a História, as relações de força, se modifiquem, podem surgir possíveis...

    Agora, voltando ao freudismo.  O que Freud fez com uma certa escuta da histeria?  Ele descortinou um novo tipo de universo de possíveis, um novo modo de semiotização da subjetividade, no seio do qual se engolfaram depois considerações teóricas, grupos, tendências, práticas, etc.  Mas, no início, o que Freud produziu foi uma ruptura dos universos de referência.  Para mim, o ato analítico não é algo que pode centrar-se na interpretação do analista em determinada seqüência de discurso. É aquilo que, vindo de tais ou quais elementos de singularidade, pode fazer surgir, completamente armados, outros tipos de possíveis, numa situação onde tudo parecia predeterminado, pré-inscrito, em modos estratificados de subjetividade, em modos de redundância de expressão, etc.  Representam revoluções analíticas dessa natureza a associação livre, os modos de ruptura a-significante, que apareceram ao mesmo tempo na literatura, no surrealismo, na pintura, etc.

   Hoje, podemos considerar que a saída de um impasse, qualquer que seja ele, sempre implica que um processo de singularização possa surgir, possa presentificar a problemática sob novos ângulos, possa criar flutuações produtoras de um outro tipo de equilíbrio, de um outro tipo de ordem. É o que Ilya Prigogine e Isabelle Stengers chamam de "flutuações fora do equilíbrio', "estruturas longe do equilíbrio'.  Em outras palavras, as “formações do inconsciente” aparecem aqui como algo que está para ser eventualmente produzido, encontrado, articulado, montado e não algo a ser buscado, reencontrado ou recomposto a partir de universais da subjetividade.

 

Renato Mezan – (...)  Segunda questão: a da cara do técnico.  A gente pode fantasiar um pouco e pensar - aplicando uma grade de interpretação, de conceituação analítica - que talvez o fato de o técnico ter dito "se é para fazer essa besteirada, pra que rádio livre?", significasse que ele estava possivelmente angustiado nessa situação.  E, se isso que estou dizendo tem pé e cabeça, como é que você veria o fato de o rapaz da Rádio Alice dizer ao técnico: “isso que você está falando, não tem porra nenhuma a ver com o que estamos fazendo; você não entendeu nada!” A minha pergunta é: o que poderia ter sido feito, concretamente, em termos de esquizoanálise nesse caso?  Pergunto isso porque tenho a impressão de que o fato de o camarada da rádio italiana dizer ao técnico que ele não tinha entendido nada, não me parece ter levado a algum processo de singularização, nem de ruptura.  Como é que esta situação poderia ser focalizada de um ponto de vista esquizoanalítico?

Guattari - Vou retomar o segundo exemplo, talvez porque seja, mais fácil.  Acho que esse amigo italiano, o Andrea, fez uma intervenção, uma interpretação analítica, pois a observação do técnico ("se vocês só vão fazer merda em rádio, por que estão se metendo nisso?"), como você notou muito bem, tendia a culpabilízar o grupo, e a culpabilizar as potencialidades de rádio livre. 

Mas para esse amigo italiano, que sabia, por experiência própria, que a força da rádio livre estava exatamente nesse efeito de nonsense e suas repercussões, era evidente que nós não tínhamos que situar as conseqüências da nossa intervenção em relação aos modos de valorização dominantes no campo da mídia.

Então o que ele fez foi uma espécie de interpretação da culpabilidade ambiente.  O importante nisso tudo, e que para mim foi muito esclarecedor, não era a invenção de um novo meio de comunicação, mas a invenção de um novo tipo de relação com a coisa comunicada.

   Isso é da mesma natureza que a revolução que um grande teórico e músico como John Cage fez, ao mostrar que a música podia ser também silêncio, podia ser também o fato de o violinista bater com seu violino na cadeira.  Isso abre, de repente, universos musicais totalmente imprevisíveis, e legitima a entrada do barulho na ordem estética.  São também da mesma natureza certos fenômenos de ruptura nas formas plásticas com o advento da pintura contemporânea (estou pensando principalmente na obra de Polok, uma das mais significativas desse ponto de vista).  Essas rupturas não dizem respeito somente ao philum de produção dos pintores, mas também à maneira pela qual nós vamos perceber as relações - plásticas em situações inteiramente diferentes.

 

 


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