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Era
uma vez duas ilhas tropicais,
habitadas pela mesma espécie
de macaco, mas sem qualquer
contato perceptível
entre si. Depois de várias
tentativas e erros, um
esperto símio da
ilha "A" descobre
uma maneira engenhosa
de quebrar cocos, que
lhe permite aproveitar
melhor a água e
a polpa. Ninguém
jamais havia quebrado
cocos dessa forma. Por
imitação,
o procedimento rapidamente
se difunde entre os seus
companheiros e logo uma
população
crítica de 99 macacos
domina a nova metodologia.
Quando o centésimo
símio da ilha "A"
aprende a técnica
recém-descoberta,
os macacos da ilha "B"
começam espontaneamente
a quebrar cocos da mesma
maneira.
Não
houve nenhuma comunicação
convencional entre as
duas populações:
o conhecimento simplesmente
se incorporou aos hábitos
da espécie. Este
é uma história
fictícia, não
um relato verdadeiro.
Numa versão alternativa,
em vez de quebrarem cocos,
os macacos aprendem a
lavar raízes antes
de comê-las.
De
um modo ou de outro, porém,
ela ilustra uma das mais
ousadas e instigantes
idéias científicas
da atualidade: a hipótese
dos "campos mórficos",
proposta pelo biólogo
inglês Rupert Sheldrake.
Segundo
o cientista, os campos
mórficos são
estruturas que se estendem
no espaço-tempo
e moldam a forma e o comportamento
de todos os sistemas do
mundo material.
Átomos,
moléculas, cristais,
organelas, células,
tecidos, órgãos,
organismos, sociedades,
ecossistemas, sistemas
planetários, sistemas
solares, galáxias:
cada uma dessas entidades
estaria associada a um
campo mórfico específico.
São
eles que fazem com que
um sistema seja um sistema,
isto é, uma totalidade
articulada e não
um mero ajuntamento de
partes.
Sua
atuação
é semelhante à
dos campos magnéticos,
da física. Quando
colocamos uma folha de
papel sobre um ímã
e espalhamos pó
de ferro em cima dela,
os grânulos metálicos
distribuem-se ao longo
de linhas geometricamente
precisas. Isso acontece
porque o campo magnético
do ímã afeta
toda a região à
sua volta. Não
podemos percebê-lo
diretamente, mas somos
capazes de detectar sua
presença por meio
do efeito que ele produz,
direcionando as partículas
de ferro. De modo parecido,
os campos mórficos
distribuem-se imperceptivelmente
pelo espaço-tempo,
conectando todos os sistemas
individuais que a eles
estão associados.
A
analogia termina aqui,
porém. Porque,
ao contrário dos
campos físicos,
os campos mórficos
de Sheldrake não
envolvem transmissão
de energia. Por isso,
sua intensidade não
decai com o quadrado da
distância, como
ocorre, por exemplo, com
os campos gravitacional
e eletromagnético.
O que se transmite através
deles é pura informação.
É
isso que nos mostra o
exemplo dos macacos. Nele,
o conhecimento adquirido
por um conjunto de indivíduos
agrega-se ao patrimônio
coletivo, provocando um
acréscimo de consciência
que passa a ser compartilhado
por toda a espécie.
Até
os cristais
O
processo responsável
por essa coletivização
da informação
foi batizado por Sheldrake
com o nome de "ressonância
mórfica".
Por meio dela, as informações
se propagam no interior
do campo mórfico,
alimentando uma espécie
de memória coletiva.
Em
nosso exemplo, a ressonância
mórfica entre macacos
da mesma espécie
teria feito com que a
nova técnica de
quebrar cocos chegasse
à ilha "B",
sem que para isso fosse
utilizado qualquer meio
usual de transmissão
de informações.
Parece
telepatia. Mas não
é. Porque, tal
como a conhecemos, a telepatia
é uma atividade
mental superior, focalizada
e intencional que relaciona
dois ou mais indivíduos
da espécie humana.
A ressonância mórfica,
ao contrário, é
um processo básico,
difuso e não-intencional
que articula coletividades
de qualquer tipo. Sheldrake
apresenta um exemplo desconcertante
dessa propriedade.
Quando
uma nova substância
química é
sintetizada em laboratório
- diz ele -, não
existe nenhum precedente
que determine a maneira
exata de como ela deverá
cristalizar-se. Dependendo
das características
da molécula, várias
formas de cristalização
são possíveis.
Por acaso ou pela intervenção
de fatores puramente circunstanciais,
uma dessas possibilidades
se efetiva e a substância
segue um padrão
determinado de cristalização.
Uma vez que isso ocorra,
porém, um novo
campo mórfico passa
a existir. A partir de
então, a ressonância
mórfica gerada
pelos primeiros cristais
faz com que a ocorrência
do mesmo padrão
de cristalização
se torne mais provável
em qualquer laboratório
do mundo. E quanto mais
vezes ele se efetivar,
maior será a probabilidade
de que aconteça
novamente em experimentos
futuros.
Com
afirmações
como essa, não
espanta que a hipótese
de Sheldrake tenha causado
tanta polêmica.
Em 1981, quando ele publicou
seu primeiro livro, A
New Science of Life (Uma
nova ciência da
vida), a obra foi recebida
de maneira diametralmente
oposta pelas duas principais
revistas científicas
da Inglaterra. Enquanto
a New Scientist elogiava
o trabalho como "uma
importante pesquisa científica",
a Nature o considerava
"o melhor candidato
à fogueira em muitos
anos".
Doutor
em biologia pela tradicional
Universidade de Cambridge
e dono de uma larga experiência
de vida, Sheldrake já
era, então, suficientemente
seguro de si para não
se deixar destruir pelas
críticas. Ele sabia
muito bem que suas idéias
heterodoxas não
seriam aceitas com facilidade
pela comunidade científica.
Anos antes, havia experimentado
uma pequena amostra disso,
quando, na condição
de pesquisador da Universidade
de Cambridge e da Royal
Society, lhe ocorreu pela
primeira vez a hipótese
dos campos mórficos.
A idéia foi assimilada
com entusiasmo por filósofos
de mente aberta, mas Sheldrake
virou motivo de gozação
entre seus colegas biólogos.
Cada vez que dizia alguma
coisa do tipo "eu
preciso telefonar",
eles retrucavam com um
"telefonar para quê?
Comunique-se por ressonância
mórfica".
Era
uma brincadeira amistosa,
mas traduzia o desconforto
da comunidade científica
diante de uma hipótese
que trombava de frente
com a visão de
mundo dominante. Afinal,
a corrente majoritária
da biologia vangloriava-se
de reduzir a atividade
dos organismos vivos à
mera interação
físico-química
entre moléculas
e fazia do DNA uma resposta
para todos os mistérios
da vida. A realidade,
porém, é
exuberante demais para
caber na saia justa do
figurino reducionista.
Exemplo
disso é o processo
de diferenciação
e especialização
celular que caracteriza
o desenvolvimento embrionário.
Como explicar que um aglomerado
de células absolutamente
iguais, dotadas do mesmo
patrimônio genético,
dê origem a um organismo
complexo, no qual órgãos
diferentes e especializados
se formam, com precisão
milimétrica, no
lugar certo e no momento
adequado?
A
biologia reducionista
diz que isso se deve à
ativação
ou inativação
de genes específicos
e que tal fato depende
das interações
de cada célula
com sua vizinhança
(entendendo-se por vizinhança
as outras células
do aglomerado e o meio
ambiente). É preciso
estar completamente entorpecido
por um sistema de crenças
para engolir uma "explicação"
dessas. Como é
que interações
entre partes vizinhas,
sujeitas a tantos fatores
casuais ou acidentais,
podem produzir um resultado
de conjunto tão
exato e previsível?
Com todos os defeitos
que possa ter, a hipótese
dos campos mórficos
é bem mais plausível.
Uma estrutura espaço-temporal
desse tipo direcionaria
a diferenciação
celular, fornecendo uma
espécie de roteiro
básico ou matriz
para a ativação
ou inativação
dos genes.
Ação
modesta
A
biologia reducionista
transformou o DNA numa
cartola de mágico,
da qual é possível
tirar qualquer coisa.
Na vida real, porém,
a atuação
do DNA é bem mais
modesta. O código
genético nele inscrito
coordena a síntese
das proteínas,
determinando a seqüência
exata dos aminoácidos
na construção
dessas macromoléculas.
Os genes ditam essa estrutura
primária e ponto.
"A
maneira como as proteínas
se distribuem dentro das
células, as células
nos tecidos, os tecidos
nos órgãos
e os órgãos
nos organismos não
estão programadas
no código genético",
afirma Sheldrake. "Dados
os genes corretos, e portanto
as proteínas adequadas,
supõe-se que o
organismo, de alguma maneira,
se monte automaticamente.
Isso é mais ou
menos o mesmo que enviar,
na ocasião certa,
os materiais corretos
para um local de construção
e esperar que a casa se
construa espontaneamente."
A
morfogênese, isto
é, a modelagem
formal de sistemas biológicos
como as células,
os tecidos, os órgãos
e os organismos seria
ditada por um tipo particular
de campo mórfico:
os chamados "campos
morfogenéticos".
Se as proteínas
correspondem ao material
de construção,
os "campos morfogenéticos"
desempenham um papel semelhante
ao da planta do edifício.
Devemos
ter claras, porém,
as limitações
dessa analogia. Porque
a planta é um conjunto
estático de informações,
que só pode ser
implementado pela força
de trabalho dos operários
envolvidos na construção.
Os campos morfogenéticos,
ao contrário, estão
eles mesmos em permanente
interação
com os sistemas vivos
e se transformam o tempo
todo graças ao
processo de ressonância
mórfica.
(...)
A
hipótese dos campos
morfogenéticos
é bem anterior
a Sheldrake, tendo surgido
nas cabeças de
vários biólogos
durante a década
de 20. O que Sheldrake
fez foi generalizar essa
idéia, elaborando
o conceito mais amplo
de campos mórficos,
aplicável a todos
os sistemas naturais e
não apenas aos
entes biológicos.
Propôs também
a existência do
processo de ressonância
mórfica, como princípio
capaz de explicar o surgimento
e a transformação
dos campos mórficos.
Não
é difícil
perceber os impactos que
tal processo teria na
vida humana. "Experimentos
em psicologia mostram
que é mais fácil
aprender o que outras
pessoas já aprenderam",
informa Sheldrake.
Ele
mesmo vem fazendo interessantes
experimentos nessa área.
Um deles mostrou que uma
figura oculta numa ilustração
em alto constraste torna-se
mais fácil de perceber
depois de ter sido percebida
por várias pessoas
(veja o quadro na página
ao lado). Isso foi verificado
numa pesquisa realizada
entre populações
da Europa, das Américas
e da África em
1983. Em duas ocasiões,
os pesquisadores mostraram
as ilustrações
1 e 2 a pessoas que não
conheciam suas respectivas
"soluções".
Entre uma enquete e outra,
a figura 2 e sua "resposta"
foram transmitidas pela
TV. Verificou-se que o
índice de acerto
na segunda mostra subiu
76% para a ilustração
2, contra apenas 9% para
a 1.
Aprendizado
Se
for definitivamente comprovado
que os conteúdos
mentais se transmitem
imperceptivelmente de
pessoa a pessoa, essa
propriedade terá
aplicações
óbvias no domínio
da educação.
"Métodos educacionais
que realcem o processo
de ressonância mórfica
podem levar a uma notável
aceleração
do aprendizado",
conjectura Sheldrake.
E essa possibilidade vem
sendo testada na Ross
School, uma escola experimental
de Nova York dirigida
pelo matemático
e filósofo Ralph
Abraham.
Outra
conseqüência
ocorreria no campo da
psicologia. Teorias psicológicas
como as de Carl Gustav
Jung e Stanislav Grof,
que enfatizam as dimensões
coletivas ou transpessoais
da psique, receberiam
um notável reforço,
em contraposição
ao modelo reducionista
de Sigmund Freud.
| Um
texto antigo chamado
Avatamsaka Sutra descreve
o universo como uma
rede infinita gerada
pelo desejo de Indra,
uma divindade hindu.
Em cada conexão
dessa rede infinita
há uma jóia
maravilhosamente polida
e infinitamente facetada,
que reflete, em cada
uma de suas facetas,
todas as facetas de
todas as outras jóias
da rede. Uma vez que
a própria rede,
o número de
jóias e o número
de facetas de cada
jóia são
infinitos, o número
de reflexões
também é
infinito. Quando qualquer
jóia nessa
rede infinita é
alterada de qualquer
forma, todas as outras
jóias na rede
também mudam.
A
história
da rede de Indra
é uma explicação
poética para
as conexões
algumas vezes misteriosas
que observamos entre
eventos aparentemente
não-relacionados.
[...]
Yongey
Mingyur Rinpoche,
em "A
Alegria de Viver"
|
Mais
sobre este assunto:
www.sheldrake.org
Livros
em português (lista
desatualizada):
O
Renascimento da Natureza:
o Reflorescimento da Ciência
e de Deus, de Rupert Sheldrake,
Ed. Cultrix
Caos,
Criatividade e o Retorno
do Sagrado: Triálogos
nas Fronteiras do Ocidente,
de Ralph Abraham, Terence
McKenna e Rupert Sheldrake,
Ed. Cultrix/Pensamento
Livros
em inglês:
A
New Science of Life: the
Hipothesis of Morphic
Resonance, de Rupert Sheldrake
The
Presence of the Past:
Morphic Resonance and
the Habits of Nature,
de Rupert Sheldrake
Natural
Grace: Dialogues on Creation,
Darkness and the Soul
in Spirituality and Science,
de Matthew Fox e Rupert
Sheldrake
The
Physics of Angels: Exploring
the Realm where Science
and Spirit Meet, de Matthew
Fox e Rupert Sheldrake
Seven
Experiments that Could
Change the World: a Do-It-Yourself
Guide to Revolutionary
Science, de Rupert Sheldrake
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