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Para
o psiquiatra e antropólogo
Adalberto Barreto, é
a partilha de experiências
que aponta as possibilidades
de superação
dos sofrimentos do cotidiano.
A comunidade torna-se
espaço de acolhimento
e de cuidado. Essa é
a base da Terapia Comunitária
- criada por ele na favela
do Pirambu, em Fortaleza
(CE) tema desta
entrevista ao Mobilizadores
COEP. As reflexões
trazidas pelas rodas de
Terapia Comunitária,
os fundamentos da TC e
a formação
dos terapeutas são
alguns dos temas abordados.
Mobilizadores COEP
- O que é e como
surgiu a Terapia Comunitária?
Adalberto Barreto
- O Centro dos Direitos
Humanos da favela do Pirambu,
em Fortaleza, me enviava
os casos que tinham repercussão
psíquica. Eu os
recebia com meus alunos
no Hospital das Clínicas
da Universidade Federal
do Ceará (UFC).
Com o aumento da demanda,
decidi, em comum acordo
com meus alunos, não
mais recebê-los
no hospital, mas ir até
onde eles viviam: na comunidade
de 4 Varas, uma das 150
comunidades organizadas
da grande favela do Pirambu.
Chegando lá,
encontrei cerca de 30
pessoas. Todos queriam
um remédio para
controlar insônias,
depressões, tentativas
de suicídio. Logo
me dei conta que não
poderia medicalizar problemas
da existência, onde
o sofrimento emerge com
força. Tratava-se
muito mais de pessoas
necessitando ser acolhidas,
escutadas, apoiadas, do
que doenças a serem
tratadas.
Logo precisei as
razões de minha
presença e disse-lhes:
Eu não vim
aqui resolver os problemas
de vocês. Eu vim
resolver os meus. Só
que para isso eu necessito
de vocês. Eu com
meus alunos também
viemos buscar respostas
para nossas inquietações,
nossos sofrimentos.
E perguntei-lhes: Vocês
estão satisfeitos
com os médicos?
A resposta foi unânime:
Não.
E por quê?
Porque eles não
escutam a gente, estão
sempre apressados...
Pois bem, eu vim
aqui aprender a formar
médicos mais humanos,
mais atenciosos e mais
respeitosos dos valores
culturais. Eu vim me curar
de minha alienação
universitária.
Eu sou médico,
tenho um saber adquirido
na universidade que me
permite prescrever os
remédios. Mas vocês
também têm
um saber herdado de seus
antepassados. Quem é
descendente dos índios
tem o saber dos pajés
e xamãs, quem é
descendente de africanos
tem o saber dos pretos
velhos com seus remédios
e meizinhas. Quem tem
50 anos tem um saber produzido
por 50 anos de vida. Portanto
cada um de nós
tem algo a partilhar.
É isso que iremos
fazer aqui. Cada um vai
poder partilhar seu saber,
fruto de sua experiência.
Estávamos
iniciando uma atividade
que posteriormente estruturou-se
e tornou-se a terapia
comunitária sistêmica
integrativa.
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