carneviva.org
   
 
 
 temas
 arte
 corpo
 ecologia
 economia
 educação
 estórias
 espírito
 filosofia
 mídia
 poesia
 política
 psicologia
 redes
 carneviva
 pagina inicial
 
 cadastro de emails
 
 áudio
 
 contato

 

 

Pirataria tupiniquim na mídia
Arlindo Machado

(...)

Pergunta - Gostaria que você desenvolvesse essa comparação entre o processo de pirataria cultural característico da Europa e a maneira tupiniquim de pirataria, característica do Brasil.

Arlindo Machado - Bem, não me atreveria a responder à primeira parte de sua pergunta, pois, no que diz respeito ao processo de pirataria cultural na Europa, principalmente na França, Guattari está melhor situado do que eu para responder, sobretudo pelo fato de ele ser um dos principais articuladores do movimento das rádios livres na França.  Agora, quanto à segunda parte da questão, sua expressão "a maneira tupiniquim" de fazer pirataria cultural me parece muito apropriada; acho que é tupiniquim mesmo, pois me parece que quem está fazendo um uso mais criativo dos meios de comunicação de massa no Brasil, hoje, são exatamente os índios.  Vocês devem estar lembrados dos episódios cômicos que envolveram o Cacique Juruna há algum tempo, quando ele percorria os ambientes ministeriais, carregando a tiracolo um gravador portátil e gravando todos os discursos e promessas oficiais.  Esta foi a maneira que ele encontrou para chamar os homens do governo de mentirosos.  Sua presença nas cerimônias oficiais carregando um gravador portátil - presença que chegava a ser desconcertante - era uma declaração, uma explicitação da demagogia dos homens que estavam fazendo os discursos.  Essa atitude do Cacique Juruna se parece muito, em minha opinião, com a atitude da criança que ganha do pai, por exemplo, um piano de brinquedo para que tome amor pela música desde cedo; ao invés de bater nas teclas, como manda o design do aparelho, essa criança enfia a mão por baixo e começa a dedilhar diretamente as cordas, ou bate no aparelho, para que as cordas vibrem e produzam um ruído agradável.  Ou seja, a criança inventa uma maneira inteiramente nova de se relacionar com o instrumento.

Para mim, pirataria é isto: é inverter o uso que está previsto na própria construção do aparelho; é, por exemplo, transformar um aparelho de recepção num aparelho de emissão.  Isso é exatamente o que fazem os índios, por incrível que pareça.  A Funai distribuiu uns aparelhos de transmissão de rádio amador ("faixa do cidadão") para algumas tribos do norte do país (principalmente aquelas cuja localização geográfica era mais complicada), para que pudessem se comunicar e pedir socorro no caso de haver alguma tragédia (por exemplo, uma epidemia).  Só que os índios, ao invés de pedirem socorro, começaram a fazer um uso diferente desses aparelhos de rádio.  Eles começaram a se comunicar entre si, chegando a estabelecer uma pequena rede de comunicação.  Isso, para mim, é pirataria.  Um outro exemplo é o do uso do vídeo-cassete num congresso de índios que se realizou no Peru em 79 ou 80.  O congresso era uma verdadeira Torre de Babel, pois cada tribo falava uma língua diferente; a solução que encontraram para transmitir suas experiências, suas lutas, sua tradição, sua cultura foi o uso do vídeo-cassete.  As tribos brasileiras que participaram desse congresso também levaram suas experiências em vídeo-cassete, com o auxílio da Comissão de Defesa do índio.  Isso é pirataria.  Esta é a maneira tupiniquim de se utilizar dos meios de comunicação de massa.

 

 


carneviva.org

..........