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Gosto de passear pelo campus
da Unicamp, domingos pela manhã,
quando o tempo está bonito.
Abril, maio, o outono começou,
há uma grande tranqüilidade
em tudo, o céu azul eterno,
as cigarras e o seu zunir enchendo
o ar, chamando parceiros para
o amor, depois de longos anos
que passaram ocultas no fundo
da terra escura, o vento está
discretamente frio, bom para
empinar papagaios, os anus atrevidos
soltam seus pios, e ao longe
se podem ver os lagos, garças
brancas nas margens. Nenhum
ruído metálico perturba a calma
da natureza, e de quando em
quando se vêem crianças correndo.
Acho
que a vida deveria ser assim,
um grande jardim, os corpos
fazendo amor com os elementos
fundamentais da natureza, o
sol, a terra, a água, o ar.
Porque para isso fomos criados...
Não é por acaso que os mitos
mais primitivos sonhos da humanidade,
dizem que o Criador fez o universo
inteiro só para poder, ao final,
plantar um jardim. Não, ele
não ficou vagando pelos espaços
siderais, o céu das estrelas.
Preferiu o jardim e andava por
lá, gozando as delícias da brisa
da tarde. O jardim é a felicidade
de Deus, que deve se parecer
um pouco com a gente, pois se
não parecesse não teria encontrado
o fim de sua criação na erotização
dos olhos, dos ouvidos, da boca,
do nariz, da pele: as cores
das plantas, o barulho dos bichos,
do vento, das águas, o gosto
das frutas, o cheiro das ervas
e da terra molhada pela chuva,
o arrepio da pele tocada pelo
vento frio.
Quem
não entende a linguagem do corpo
pensa que a universidade está
parada. Que ela acontece só
nas salas de aula, nos laboratórios,
nas reuniões dos notáveis. Não
percebe que é justamente naquela
calma tranqüila que ela revela
o "para quê" da sua existência:
a universidade existe só para
ajudar os homens a transformarem
os desertos em jardins. Nisto
se parece com os mosteiros -
universidades primeiras - que
construíam seus prédios
em torno de um espaço central
onde havia uma fonte e as plantas
podiam crescer: memórias do
paraíso perdido, promessa de
se reencontrar o caminho perdido,
gozo provisório da felicidade,
em meio ao deserto, utopia de
um futuro com o qual a humanidade
inteira sonha...
Houve
tempo em que universidade era
só o lugar para se (de)formar
profissionais. Ali entravam
os moços, cheios de sonhos,
e saiam unidades de saber competente
- engenheiros, dentistas, médicos...
E quando os filhos recebiam
seus diplomas, os pais se preparavam
para morrer, missão cumprida,
os filhos sobreviveriam, conseguiriam
um emprego. O que estava em
jogo era a sobrevivência individual
de cada um.
Mas
agora sobrevivência individual
é coisa muito pequena: a própria
sobrevivência do país está em
jogo - e até mesmo a sobrevivência
da humanidade. É tolice ser
um profissional competente se
o barco em que se navega está
afundando. A competência tem
de ser maior, muito maior...
Curioso
que, em nossos programas, não
existia nenhum lugar para simplesmente
passear pelo campus. Pois não
deveria? No jardim está a única
justificativa para o sofrimento
por que se tem de passar e a
disciplina a que se tem de submeter
no processo do saber. É preciso
não esquecer o sonho, pois,
se ele for esquecido, o sofrimento
de aprender se torna sem sentido.
Todo
jardim começa com um sonho de
amor. Antes que qualquer árvore
seja plantada ou qualquer lago
seja construído é preciso que
as árvores e os lagos tenham
nascido dentro da alma. Quem
não tem jardins por dentro não
planta jardins por fora. E nem
passeia por eles...
Andar
pelo campus é recuperar a memória,
tomar consciência da única coisa
que importa. O mais - ensino,
pesquisa, invenções, descobertas
- só tem sentido como ferramentas
para o plantio e o cultivo do
jardim. Mas muita gente aprende
tudo sobre pás, enxadas, picaretas
e esterco sem nunca chegar a
sonhar com o jardim, que é a
única finalidade de tudo isto.
Brecht dizia que a única finalidade
da Ciência é aliviar o sofrimento
da existência. Acho que podemos
ser um pouco mais otimistas:
é criar também a possibilidade
de prazer. A própria prática
da Ciência pode ser também uma
experiência de alegria. Uma
das árvores do Paraíso era a
árvore do conhecimento - cheia
de fascínios...
Roland
Barthes nos lembra que uma das
mais importantes atividades
que acontecem na universidade
tem o nome de seminário. Seminário
vem de sêmen, e o sêmen só sai
dos seus esconderijos internos
numa explosão de amor e prazer...
Andando
pelo jardim é como se estivéssemos
andando por um lugar utópico:
ali reencontramos os nossos
sonhos mais profundos e repetimos:
"É assim que queríamos que o
mundo todo fosse." Do jardim,
lugar do amor, voltamos para
a sala de aula e o laboratório,
lugares do poder. Saber é poder.
Sem o poder do saber o jardim
não pode ser plantado.
Mas
as caminhadas, domingos pela
manhã, deixam-me triste. Os
jardins estão quase vazios.
E por todos os lugares, os sinais
de desamor
dos que andam por ali: as garrafas
sobre as águas do lago, os copos
de plástico pela grama, os maços
vazios de cigarro, latas enferrujadas
de refrigerantes. Isso não aconteceria
se aquele fosse um espaço amado.
Aquilo que fazemos ao jardim
revela aquilo que faremos ao
espaço maior que habitamos,
a cidade, o país. Naquela
violência que se faz ao jardim
(e no dia seguinte ao dia da
Universidade Aberta o espetáculo
é indescritível!) - lamento
dizer - revela-se um pedaço
da nossa alma que já se esqueceu
de sonhar e nem sabe cuidar
da beleza ao seu redor.
Talvez
que, ao lado de todas as práticas
para se criar o necessário saber
competente, seria necessário
que nossas escolas se dedicassem
à educação erótica do corpo
e da alma. Sem amor ao pequeno
espaço utópico do jardim não
será possível esperar que o
conhecimento venha, jamais,
a ser usado para a construção
do grande jardim. Como dizia
D. Miguel de Unamuno, "saber
por saber é desumano". Ou Ferenezi,
um dos pais da psicanálise:
"Tal conhecimento é um produto
da morte, manifestação de insensibilidade
e, portanto, manifestação de
loucura." Não, o problema fundamental
de nossa educação não está na
falta de recursos. O problema
está em que não sabemos mais
sonhar. Recursos abundantes
nas mãos daqueles que se esqueceram
de sonhar só podem produzir
a morte. Muito saber sem amor
é estar possuído por demônios.
É preciso
voltar ao jardim para fazer
ressuscitar a educação. O campus
está lá, a cada manhã, como
um fragmento de utopia. E se
é verdade, como sugeriria o
matemático Polya, que a solução
de todos os problemas tem de
começar do fim, eu sugeriria
que fosse a partir do jardim
que nos puséssemos a pensar
no tipo de educação que temos
de ter, para produzir coisa
tão bela. Espalhar, no ar, num
orgasmo de amor, as nossas sementes...
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